Para resolver China vs Taiwan é preciso paciência de chinês

Chiang Kai-shek, o líder nacionalista que fez de Taiwan em 1949 o último reduto da República da China, há muito que deixou de ser uma referência na ilha, apesar de existir em Taipé um memorial que serve de testemunho da vida desta figura incontornável da história chinesa do século XX. Mas Sun Yat-sen, que foi em 1911 o primeiro presidente chinês, continua uma figura venerada em Taiwan, mesmo que cada vez mais sejam sobretudo os nacionalistas do Kuomintang (KMT) a reivindicá-lo, enquanto o Partido Democrático Progressista (DPP), que atualmente governa a ilha, assume uma relação mais distante. Não por coincidência, o KMT é o partido que Sun fundou (e Chiang liderou), enquanto o DPP da presidente Tsai Ing-wen é uma força nascida já na Taiwan democrática e suspeita por Pequim de ambicionar um dia a independência formal da ilha.

Tanto em Pequim como em Taipé houve agora a celebração do 10 de Outubro de 1911, data da revolução contra a dinastia Qing. E o presidente Xi Jinping, embora secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC) e presidente da República Popular da China proclamada em 1949 por Mao Tsé-tung depois de derrotar Chiang, discursou com uma imagem de Sun como cenário. Uma forma inteligente de Xi reafirmar a ligação histórica entre a parte continental e a ilha, e quando digo inteligente é porque a morte de Sun em 1925 aconteceu ainda antes de PCC e KMT se tornarem rivais ideológicos e inimigos em guerras civis. Aliás, a viúva de Sun chegou a ser presidente da China comunista quando esse cargo era altamente cerimonial (era uma das famosas irmãs Soong, tal como a mulher de Chiang, primeira dama da República da China).

Insisto aqui na história pois é ela que explica a separação atual e também ela que fornece argumentos a cada um dos lados, numa escalada recente entre Pequim e Taipé que tem sido verbal, mas que pode bem um dia ser militar e envolvendo até os Estados Unidos.

Sem a retirada de Chiang para Taipé, onde governou ditatorialmente até à morte em 1975 e sempre com o sonho de reunificar a China sob a sua liderança, não haveria hoje uma República da China versus uma República Popular da China. Mas décadas de separação conduziram a resultados diferentes de um lado e do outro, com Taiwan (a Formosa dos navegadores portugueses do século XVI) a acompanhar o desenvolvimento económico com um processo de democratização iniciado pelo KMT e que acabou até por o afastar do poder, enquanto na China o sucesso económico tardio trouxe prosperidade mas manteve o PCC no controlo do Estado e deu-lhe renovada capacidade de isolar diplomaticamente Taipé, expulsa da ONU em 1971, quando a América começou a cortejar Mao no âmbito da Guerra Fria e foi esquecendo Chiang.

Em 1979, já depois da morte de Mao e Chiang, os Estados Unidos reconheceram Pequim, mas o corte oficial de relações com Taipé foi acompanhado de um compromisso de defesa da ilha. Ora, é esse compromisso que hoje dá certas garantias de defesa a Taiwan, juntamente com a própria capacidade militar, a importância que tem na economia mundial e também a simpatia global pela pequena ilha que mostrou que o mundo sínico e a democracia não são incompatíveis. E não só os sucessivos inquilinos da Casa Branca prometem solidariedade a Taiwan, como pela primeira vez em décadas uma sondagem mostra a maioria dos americanos a defender o uso da força para socorrer o aliado.

Depois de uma demonstração de força com aviões para impressionar Taiwan nas últimas semanas, Xi optou por um discurso em que pôs a ênfase na reunificação, mas acrescentando que deveria ser pacífica. Percebe-se, assim, que Pequim tem consciência de que resolver pelas armas a situação traria consequências negativas e de dimensão imprevisível à China. Mas mais importante ainda, seria o líder chinês perceber que a sociedade taiwanesa evoluiu, e que apesar de até usarem os caracteres clássicos (não a versão simplificada decidida pelo PCC) a sua identidade é cada vez mais taiwanesa e menos chinesa, mesmo que tirando 1% de aborígenes, os 23 milhões de habitantes da ilha tenham chegado em várias vagas da China desde o século XVII.

Oferecer repetidamente a fórmula de "um país, dois sistemas", que serviu para reintegrar Hong Kong e Macau, não é a melhor estratégia. Mesmo sendo difícil voltar ao ponto alto das relações que foi a presidência de Ma Ying-jeou, personalidade do KMT que chegou a ter uma cimeira com Xi enquanto presidentes dos partidos, quem manda em Pequim deve ser paciente e inovador na busca pela reunificação, se a quer bem sucedida. Tem de fazer um esforço - e amplo - para reconquistar o coração dos taiwaneses, pois dois terços deles dizem hoje que não se veem como chineses, e confiar que um dia serão possíveis negociações pragmáticas para tentar resolver o que está em aberto desde 1949.

Talvez tenha de se esperar até 2049, e então? Uma guerra hoje, ganhasse quem ganhasse, resultaria sempre em dois grandes derrotados: a China e Taiwan. E isso não acredito que fosse algo que Mao ou Chiang e sobretudo Sun desejassem. Haja paciência de chinês!

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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