José Manuel Bolieiro. O "homem sério e com bom senso" que tirou os Açores ao PS

A transição de poder do PS para o governo indigitado liderado pelo PSD já começou. Vasco Cordeiro recebeu José Manuel Bolieiro para passar a pasta. Mas quem é o homem que é responsável pelo fim de 24 anos de domínio rosa na região autónoma?

O ainda líder do Governo Regional dos Açores, o socialista Vasco Cordeiro, conformou-se com a decisão do representante da República na região de indigitar o governo de coligação PSD-CDS-PPM e os seus apoios no Parlamento da Iniciativa Liberal e do Chega e começou nesta quarta-feira (11 de novembro) a passar a pasta ao social-democrata José Manuel Bolieiro, presidente do PSD açoriano. Homem em que Rui Rio confiou uma vice-presidência do partido a nível nacional já com os olhos postos no reforço do poder naquelas ilhas que estavam há 24 anos nas mãos dos socialistas

"Hoje em dia, dizer que é um homem sério, com bom senso e que fará tudo com espírito construtivo é já um bom ponto de partida." É assim que Vítor Cruz, antigo líder do PSD-Açores, descreve ao DN José Manuel Bolieiro, político que conhece há muitos anos, do tempo de João Bosco Mota Amaral ao comando do executivo açoriano, era então Bolieiro assessor jurídico do Governo (1996). "Eu era presidente da JSD e ele, como observador, foi-se aproximando e cruzamo-nos na JSD. Quando fui presidente do PSD foi meu secretário-geral." Bom de ver que a confiança política se sedimentou e ainda mais na Assembleia Legislativa Regional, onde partilharam a bancada.

Hoje em dia, dizer que é um homem sério, com bom senso e que fará tudo com espírito construtivo é já um bom ponto de partida.

Vítor Cruz mantém o retrato muito positivo do novo líder do Governo Regional indigitado dos Açores. "Vem de origens humildes, o que o torna humilde, mas também muito bem formado. São essas virtudes que o acompanham nas posições que assumiu, com especial destaque para a Câmara Municipal de Ponta Delgada", terra onde o advogado de profissão nasceu há 55 anos.

Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, Bolieiro foi presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada entre 2012 e fevereiro deste ano, quando abandonou o cargo para se concentrar a 100% na liderança do PSD-Açores e nas legislativas regionais do passado mês de outubro.

Conseguiu dar ao PSD 21 mandatos, a que somou os três do CDS, dois do PPM para formar governo. E fazer a ponte no Parlamento Regional com o Iniciativa Liberal e o Chega, que tem valido críticas contundentes, sobretudo dos socialistas que ganharam nesta aproximação ao partido de André Ventura um filão de desgaste do próprio Bolieiro, mas sobretudo de Rui Rio. Seja como for, Mota Amaral, que chefiou o executivo açoriano de 1976 a 1995, classificou-o como "exímio negociador", por ter conseguido "em poucos dias" pôr "de pé uma coligação de governo de centro-direita".

Tido pelos próximos como um homem de consensos, José Manuel Bolieiro começou a sua carreira política em 1989, quando foi adjunto do subsecretário regional da Comunicação Social, cargo que desempenhou até 1995, antes de passar a assessor jurídico do presidente do Governo Regional dos Açores (1996), no final do mandato de Mota Amaral e durante o curto período em que governou Madruga da Costa.

É um bom homem, muito íntegro, muito moderado, dialogante e sabe ouvir muito bem.

Em 1998, Bolieiro chega a deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, onde esteve até 2009 e onde exerceu as funções de presidente do grupo parlamentar do PSD e de presidente da Comissão Permanente de Política Geral. Foi ainda presidente da Assembleia Municipal de Povoação (2002-2009) e vice-presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada (2009-2012), antes de subir à cadeira maior da autarquia.

"Com as devidas condicionantes" de ter por ele "toda a afetividade" como se de um "irmão se tratasse", de tal forma que é padrinho das suas gémeas, Duarte Freitas, também antigo líder do PSD-Açores, deputado regional e eurodeputado, desfaz-se em elogios: "É um bom homem, muito íntegro, muito moderado, dialogante e sabe ouvir muito bem."

E sobre a fina gestão que terá de fazer de um governo "caranguejola", como lhe chamou o socialista Carlos César, um dos que mais têm atacado o PSD pelo acordo com o Chega, Duarte Freitas também não tem dúvidas de que será bem-sucedido. E tem uma explicação para essa dedução: enquanto presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, perdeu a Assembleia Municipal, mas conseguiu gerir a autarquia "com absoluta normalidade".

Duarte Freitas vê em Boleiro um "homem muito institucional na sua forma de expressão, fruto da escola coimbrã". Vai também às raízes familiares do agora líder do Governo Regional indigitado, tal como tinha feito Vítor Cruz, para justificar alguns traços de personalidade e postura política. "Provém de família muito modesta, o pai era agricultor e a mãe doméstica, e teve de trabalhar em Coimbra enquanto estudava." No trato, "é muito afetuoso com as pessoas".

Sobre os perigos da aproximação ao radicalismo do Chega desmonta a ideia. "Em absoluto, no PSD ele está mesmo no centro-esquerda e na Câmara de Ponta Delgada teve muito trabalho social", garante. Além disso, reforça, as "juntas de freguesia, mesmo sem ser de tom laranja, foram tratadas da mesma forma, porque tem um grande sentido de justiça".

José Manuel Bolieiro, que foi vice-presidente de Rui Rio na direção nacional do PSD, foi eleito em dezembro de 2019 líder do PSD-Açores, eleição para a qual era o único candidato. E agora que vai liderar uma maquineta política complexa, tem na paixão pelas motos o ponto de equilíbrio que talvez precise.

César e Cordeiro em rota de colisão

Entretanto, no PS-Açores, a perspetiva (muito real) da perda do poder expôs divisões entre o líder histórico dos socialistas açorianos, Carlos César (o homem que levou o PS ao poder no arquipélago em 1996 e liderou o Governo Regional até 2021) e o seu delfim e sucessor, Vasco Cordeiro, atual líder da estrutura regional do partido e ainda presidente do executivo da região (desde 2012).

No Facebook, César escreveu que o representante da República, Pedro Catarino, poderia indigitar diretamente José Manuel Bolieiro (líder do PSD-Açores, a segunda força mais votada nas regionais de 25 de outubro), evitando indigitar Cordeiro para este formar um governo que depois não passaria no Parlamento Regional (nos Açores, o programa de governo é obrigatoriamente votado e o seu chumbo acarreta demissão do Governo).

"Se os partidos que hoje [6 de novembro] são ouvidos pelo representante da República deixarem claro que há uma maioria parlamentar de apoio ao projeto liderado pelo PSD, Bolieiro deverá ser indigitado. Se, afinal, pelo contrário, não resultar essa evidência, não haverá tempo a perder: Pedro Catarino deverá indigitar Vasco Cordeiro para formar governo", escreveu César.

Tendo verificado que existia a tal "maioria parlamentar de apoio ao projeto liderado pelo PSD", Pedro Catarino seguiu a sugestão de César.

Mas Vasco Cordeiro não gostou nada. Numa conferência de imprensa em Ponta Delgada, o líder socialista açoriano e ainda presidente do Governo Regional apontou "cinco pecados originais" à decisão do representante da República.

No seu entender, trata-se de "um claro e inquestionável atropelo às competências do Parlamento dos Açores". "Ajuizar se um governo tem ou não condições de apoio parlamentar, desde logo, para a aprovação do seu programa de governo, não é, nem na letra nem no espírito da Constituição ou do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, condição para a indigitação", acrescentou.

No seu entender, "essa é uma competência que só pode, mas que também só deve ser exercido pelos representantes do povo açoriano no Parlamento dos Açores". E em favor dos seus argumentos até invocou a ação em 2015 do Presidente da RepúblicaCavaco Silva, que indigitou Passos Coelho para formar Governo mesmo sabendo que a esquerda estava em maioria e o iria chumbar.

Quanto aos restantes pecados, mencionou a "instrumentalização dos Açores" e da autonomia, afirmando que "há Lisboa a mais e Açores a menos nesta solução", acusando os partidos de "falta de transparência", já que "os açorianos não conhecem o texto dos acordos feitos entre os cinco partidos que agora são responsáveis pelo Governo Regional".

Denunciou também a "fragilidade derivada das contradições entre partidos" e que "a génese da afirmação dos partidos responsáveis pelo governo é uma negativa, não algo de positivo", porque o que levou as formações a unirem-se, "logo no início deste processo, não foi qualquer coisa de positivo, mas sim, apenas e tão-só, afastar o PS do Governo Regional".

Em relação aos resultados, Vasco Cordeiro reitera que "os açorianos votaram mais no PS do que em qualquer outro partido", mas que o eleitorado deu a indicação de que queria "um esforço acrescido em termos de concertação".

Assim, o PS-Açores ouviu todos os partidos, exceto o PSD, "porque imediatamente assumiu o intento de ser Governo dos Açores", e o Chega, "tendo em conta as diferenças intransponíveis em termos de posicionamento político face à sociedade e aos cidadãos, desde logo, as que resultam de posições xenófobas, atentatórias da liberdade e da dignidade de homens e mulheres e, por último, anti-autonomistas", mas não conseguiu o apoio necessário para formar uma solução estável.

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