Thomas Fischer, o jornalista alemão que não desistiu de ser português

São 37 anos de uma história de encantamentos com o país que adotou e que conheceu no Verão Quente de 1975, ao volante de um Volkswagen "carocha".

Foi a paixão pela revolução que os militares fizeram com cravos que o trouxe pela primeira vez a Portugal, em 1975. Quase uma década depois, seria a paixão por uma mulher que o faria adotar Portugal como o seu segundo país. Uma adoção plena que se traduz em 37 anos a viver numa terra tão diferente da sua, ou das suas, porque na verdade nunca se sentiu pertença de nenhum lado. "Em Inglaterra, onde vivi dos 2 aos 12 anos, era o miúdo alemão. Quando voltei à Alemanha, era o miúdo que tinha vindo de Inglaterra."

Agora, Thomas Fischer, jornalista com o número da carteira profissional de correspondente 1-A, é também português. De papel passado. Um processo longo que durou 610 dias, com muita burocracia à mistura, longos períodos ao telefone, e até um pedido de registo criminal do tempo em que tinha vivido em Inglaterra, que o fizeram desesperar e fazer uma queixa à Provedoria de Justiça, mas não a desistir. Ao fim de quase dois anos - quando lhe disseram que o processo levaria seis a 12 meses, chegou o veredicto, no dia do seu 66.º aniversário. Que melhor prenda poderia ter senão a nacionalidade do país onde já viveu mais de metade da sua vida, onde nasceram os seus dois filhos, de onde extraiu praticamente tudo o que é enquanto jornalista e escritor?

Vamos por partes. As histórias de vida, às vezes, senão começadas pelo início podem tornar-se confusas. Ultrapassemos as primeiras duas décadas de vida de Thomas e centremo-nos na sua relação com Portugal, na primeira viagem que fez ao nosso país, envolta no romantismo de uma juventude de esquerda alemã que exaltava com a queda de uma ditadura na Europa. O romantismo de jovens de cabelo comprido que viviam em comunidade e que na então República Federal Alemã (RFA), com Berlim dividida por um muro, ouviam tantas vezes "se és de esquerda, se queres socialismo, vai para o outro lado". O outro lado era a República Democrática da Alemanha (RDA), estado satélite soviético.

O flower power português

"Éramos de esquerda, queríamos construir uma vida alternativa, diferente da dos nossos pais, vivíamos em comunidades em que quem cozinhava não eram só as raparigas. Era o tempo em que não havia globalização, havia um muro a dividir as duas Alemanhas. Havia a guerra no Vietname e três ditaduras na Europa - o Generalíssimo em Espanha, os coronéis na Grécia e a de Portugal que os capitães fizeram cair, uma revolução sem sangue, com flores. Era o flower power português", conta Thomas Fischer.

Esses jovens alemães estavam zangados com o país, ainda doídos e revoltados com as feridas do nazismo, da forma como a RDA lidava com esse passado recente. "Rejeitávamos aquele modelo de vida. Até às revoltas dos estudantes, em 1968, era uma sociedade extremamente rija."

No Verão Quente de 1975, quando Portugal vivia inflamado no Período de Revolução em Curso (PREC), Thomas e a namorada meteram-se no Volkswagen "carocha" verde, comprado a meias com um amigo, e vieram conhecer o país que poderia responder aos seus sonhos. Cerca de um mês em parques de campismo - espaços que dividiu com retornados das ex-colónias - a conhecer até Sines um país atrasado para quem vivia na "outra" Europa, um país com taxas de analfabetismo elevadas, mas que o surpreendeu logo no norte quando se dirigiu a uma estação dos correios e perguntou à funcionária se falava francês. "Un petit peu" foi a resposta - uma resposta então só possível porque também a emigração para França era uma válvula de escape à pobreza.

"Tínhamos ilusões, desejávamos que este país encontrasse o caminho do desenvolvimento, evitando os nossos exageros, excessos, consumismos e frieza humana."

Voltou em 1976, no final dos anos 80, duas vezes em 81 e em 83 ficou por cá, para nunca mais sair. Chama-lhe encantamento, o que sentiu por este país. O que o encantou? "A simplicidade da vida, a capacidade de fazer com pouco, a solidariedade prática, a descontração. Era um país atrasado, mas nós pensávamos "aqui vai nascer alguma coisa". Tínhamos ilusões, desejávamos que este país encontrasse o caminho do desenvolvimento, evitando os nossos exageros, excessos, consumismos e frieza humana. O país teve o seu desenvolvimento, claro que alguns valores ficaram para trás, perdeu-se imenso contacto humano pela forma como aderiu ao consumismo. Mas tenho de compreender, faz parte do processo", resigna-se.

Há outras mudanças que destaca, ele que chega para viver em Portugal num período difícil, durante o Governo Mário Soares-Mota Pinto quando está em curso a segunda intervenção do FMI. "Tempos dramáticos, com os trabalhadores sem salários... Alguns trabalhadores trocavam o emprego por indemnizações que entregaram à D. Branca."

"Uma coisa que nunca percebi é como é que vocês cá vivem, como sobrevivem com os vossos salários."

Depois, em 1985, precisamente no ano em que se casa, inicia-se a era cavaquista e começam a chegar os fundos europeus. "Via-se como o país estava a mudar. Uma certa ideia de pobreza material já não correspondia à realidade... Uma coisa que nunca percebi é como é que vocês cá vivem, como sobrevivem com os vossos salários." Foi a altura em que assistiu, espantado, à renovação do parque automóvel dos portugueses. Só pensava: de onde vem o dinheiro? Tem de haver uma explicação. Encontra algumas, mas mesmo assim não as considera suficientes: os mais velhos que pouparam, como os seus sogros, e ajudaram os filhos a comprar casa, o endividamento, a emigração, o duplo emprego, a venda de roupas e outros produtos numa espécie de economia paralela... "É verdade que não gastavam muito em casas e mobiliário, que não viajavam. Se iam a Paris, era para dormir no sofá de um amigo numa banlieue [subúrbio] qualquer. Estas são apenas explicações parciais. Mas ao certo nunca percebi como conseguem viver."

Outra grande mudança passa pelo nível e pela escolarização a que se assistiu nos últimos anos, é inegável. Ou a emancipação feminina. A título de exemplo, conta que a ex-mulher foi a primeira a tirar a carta e a ter carro na família. Tudo tão diferente do que estava habituado dos tempos da Inglaterra ou da RFA. E que passavam por coisas agora tão simples, como o tratamento dos animais de estimação - ainda se lembra de quando a mulher lhe implorou para que não contasse aos pais dela que tinham gasto dinheiro a levar o gato ao veterinário.

Thomas reconhece aquela característica que está no ADN dos portugueses - o desenrascanço. "Em lado nenhum ouvi falar numa preguiça genética dos portugueses. São capazes de tudo, no sentido positivo, mas há muitas capacidades mal aproveitadas, falta motivar as pessoas."

As pessoas são muito fechadas

Mas há outra que o irrita, que é o chico-espertismo. E ainda uma outra que o desgosta - serem pessoas fechadas. "É muito difícil fazer amigos. Os portugueses são superprestáveis, supersimpáticos, depositam muita confiança e dizem para levares e pagas depois, mas a proximidade é mais complicada. As pessoas são mais viradas para os amigos de sempre, a terra e as famílias contam imenso. E depois há esta distância social dos doutores e engenheiros."

O jornalista lamenta ainda que o país, e sobretudo os portugueses, não aproveitem as suas capacidades, o que têm ao seu dispor, nomeadamente legislação. "Portugal é dotado de um quadro legal que muitas vezes não preenche. Veja-se os direitos das mulheres, a igualdade está na Constituição. Há muitas coisas nas leis porque uma elite esclarecida, republicana, quis definir um quadro legal. Mas o país não as aproveita. Às vezes até dói."

Thomas diz isto, mas faz questão de deixar bem claro os seus sentimentos por Portugal e pelos portugueses. Por que razão estaria cá há 37 anos e adotaria o país como o seu? Porque quereria ser português se não amasse Portugal? "É uma questão emocional!" E é mesmo. A voz embarga-se quando recorda os comentários no Facebook no dia da semana passada em que anunciou que tinha a nacionalidade lusa: "Já és português há muitos anos", "Portugal fica melhor contigo" ou "Falta saber se Portugal te merece".

Também tem uma grande vontade de exercer em pleno a cidadania e poder votar em todas as eleições - agora vota apenas nas europeias e nas autárquicas. Só espera poder votar já nas presidenciais de janeiro de 2021, para ajudar a combater extremismos. Mas não enjeita que a dupla nacionalidade é também um porto seguro, porque está cético em relação ao futuro da União Europeia: "Não sei até quando aguenta."

Eusébio, o primeiro português que conheceu pelo nome

Ao fim de mais de 30 anos, a vontade de adquirir a nacionalidade foi crescendo. E foi o futebol que o levou a tomar a decisão final. Porque não gostou como o seu país de nascença reagiu à eliminação da seleção alemã pela Coreia do Sul no Mundial de Futebol, em 2018 - os títulos dos jornais, o vídeo com "os momentos mais negros da nossa seleção", a televisão a transmitir imagens a preto e branco. Perante esta mística funerária, caiu-lhe a ficha: "Isto não é para mim!"

Já que se fala de futebol, registe-se aqui que Eusébio foi o primeiro português que Thomas conheceu pelo nome, no Mundial de 1966. Talvez essa circunstância tenha sido determinante para ser benfiquista...

Viver tantos anos em Portugal trouxe-lhe também uma paixão pela insularidade... e até por África. É apaixonado pelos Açores, e logo nos primeiros tempos escreveu um guia sobre o arquipélago a juntar ao que já tinha feito sobre Portugal. O trabalho que fez com maior paixão, de que mais se orgulha, diz.

Tanta mudança em 37 anos, tanta. Não chegariam as páginas de um jornal para falar delas. Até porque as mudanças que se deram entretanto na Alemanha, com a reunificação e a queda do Muro de Berlim, dava outra conversa.

Fica o remate, positivo: "É bom sentir que há muita malta nova que já está à procura de coisas que eu procurei há muitos anos, que já não alinha nisso de passar a tarde no centro comercial, que está preocupada com a sustentabilidade. Dá-me confiança que as coisas podem mudar a tempo suficiente para tardar o desastre."

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