Desemprego em Lisboa sobe 17,3%, mais do que a média do país

A pandemia inverteu a tendência de descida do desemprego no concelho de Lisboa: em abril registaram-se mais 2825 desempregados. A maioria destas pessoas chegaram ao fim do contrato de trabalho e este não foi renovado.

No primeiro trimestre deste ano, o país continuava a ver diminuir o número de inscritos nos centros de emprego, mas a covid-19 inverteu esta tendência, particularmente no concelho de Lisboa, revela um estudo do Observatório Luta contra Pobreza na Cidade de Lisboa, com base nas estatísticas do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e da Solidariedade e Segurança Social.

Entre 31 de março e 30 de abril, o concelho passa de 16 339 desempregados para 19 164 (mais 17,3%), quando o aumento em todo o país foi de 47 781 desempregados (14,9%) e de 6077 (10,1%) no distrito.

Os dados finais do primeiro trimestre do ano, sublinham os autores do estudo, já refletem "os impactos da declaração de estado de emergência que se vivia desde 18 de março". Nestes três meses o desemprego decresceu 4,4% em Lisboa, mas numa percentagem inferior ao total do país e do distrito.

E cinco das 24 freguesias tinham até um maior número de inscritos no IEFP: Penha de França (mais 8%), Alcântara (3,7%), Ajuda (3,5%), Olivais (0,6%) e Santa Clara (0,2%).

Os números não surpreendem o sociólogo Elísio Estanque. "Passa muito pela concentração de determinadas atividades em Lisboa, nomeadamente o pequeno comércio, que foi um dos setores que diretamente afetados por esta pandemia. O comércio e os serviços estiveram fechados, os centros comerciais ainda vão reabrir. O mês de abril foi muito intenso no número de empresas que entraram em lay-off e muitas delas têm vindo a encerrar, com particular ênfase em Lisboa."

As pessoas inscrevem-se nos centros de emprego porque são despedidas ou o contrato de trabalho não é renovado, mas neste ano a sua expressão aumentou significativamente em março (comparativamente ao mesmo mês de 2019), uma subida reforçada em abril. "Esta proporção aumenta ainda mais no mês seguinte, 24,5% das pessoas inscritas nesse mês tinham sido despedidas e 56,4% viram chegar ao fim o trabalho não permanente que tinha", sublinha o estudo.

Mais despedimentos coletivos

No primeiro trimestre do ano, 30 empresas do concelho de Lisboa iniciaram processos de despedimento coletivo, um aumento de 87,5%, em relação ao mesmo período de 2019. Não só mais empresários optaram por esta medida como as suas empresas envolviam mais trabalhadores. Os dados do Observatório Luta contra Pobreza na Cidade de Lisboa mostram que mais do dobro das pessoas ficaram sem trabalho neste ano comparativamente com 2019 - passaram de 143 do primeiro trimestre de 2019 para 310 (mais 116,8%) nos primeiros três meses de 2020.

O futuro, segundo o sociólogo do trabalho, caracteriza-se por um grande nível de incerteza, tanto mais que as estatísticas refletem os problemas sempre mais tarde e as notícias não são boas. "Prevejo que o mês de maio ainda venha revelar um aumento do desemprego, não estamos próximos do impacto mais geral desta pandemia. Apesar do alívio a nível da propagação do vírus, os efeitos repercutem-se mais tarde. Maio não deve refletir a tendência de alívio sanitário no plano económico. A relação entre a questão sanitária, as implicações económicas e o desemprego não é direta. E há outra indefinição, que é saber se no final do verão haverá uma nova onda da propagação do vírus, desejamos que não aconteça, mas não há certezas. O início de outubro vai ser muito importante para perceber se vamos recuperar ou se a crise económica vai agravar-se."

Além de que o número de pessoas infetadas pelo novo coronavírus voltou a aumentar na região de Lisboa, o que, sublinha Elísio Estanque, não era expectável há umas semanas, o que reforça a dificuldade em fazer previsões.

Resta aos trabalhadores aceder aos apoios estatais. A 15 de maio, ascendia a 41 880 os trabalhadores independentes que recorreram às medidas extraordinárias por paragem total e redução de atividade no âmbito do estado de emergência, o que representa 22,3% no total dos beneficiários.

Também os sócios-gerentes e os membros estatutários de fundações, associações ou cooperativas com funções equivalentes podem solicitar um apoio financeiro extraordinário. A 15 de maio, no distrito de Lisboa, já 4444 o tinha solicitado, 33,4% total nacional.

Recorreram ao lay-off em Lisboa (apoio extraordinário para pagamento de remunerações), até 15 de maio, 26 368 empresas, quase um quarto das que o solicitaram em todo o país (23, 9%) e 8,4% do total do distrito.

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