O fado de Atom Egoyan

O canadiano Atom Egoyan filma histórias familiares em que, subitamente, a própria noção de familiaridade está em discussão: Convidado de Honra é o mais recente exemplo de um cinema sobre o modo como nos conhecemos e desconhecemos.

Sempre cético face à utilização do som, Charlie Chaplin foi um dos que mais lamentaram o desmembramento artístico e comercial do cinema mudo. Quase um século depois, o seu desencanto nostálgico, ainda que sedutor e poético (ou poeticamente sedutor), não se aplica às convulsões dos filmes do século XXI. Ainda assim, creio que vale a pena relançar a ideia mais básica da sua visão: a imagem cinematográfica não é uma duplicação do mundo à nossa volta, explicando-o, antes uma forma de "registo" que prolonga a complexidade desse mundo, convocando-nos para uma infinitude de detalhes que é possível rever de modo diferente.

Lembrei-me de Chaplin a propósito de Convidado de Honra, o mais recente filme do canadiano Atom Egoyan (estreado no Festival de Veneza de 2019, agora lançado nas salas portuguesas). Não por qualquer comparação estética, entenda-se. Aliás, não me parece sequer que este trabalho esteja ao nível das mais sofisticadas proezas do próprio Egoyan, incluindo O Futuro Radioso (1997) e A Viagem de Felícia (1999), ou ainda a sua prodigiosa contribuição para o filme de episódios Cada Um o Seu Cinema (2007), produzido pelo Festival de Cannes para assinalar a sua 60.ª edição.

Para lá do ziguezague passado/presente, uma obsessão de Egoyan aqui, a meu ver, em tom menor, Convidado de Honra relança uma questão nuclear que, sendo social, é também eminentemente cinematográfica: como vemos o nosso semelhante e, sobretudo, que vemos nele?

A pergunta, antes de ser filosófica, é de natureza familiar. Literalmente. Isto porque a figura central do filme, um inspetor da segurança alimentar que fiscaliza a atividade de restaurantes (interpretado por um subtil David Thewlis), se confronta com o enigma da filha (Laysla de Oliveira, talentosa atriz canadiana de ascendência brasileira). A saber: a filha, professora de música, foi condenada e está na prisão, na sequência de um escândalo sexual envolvendo um dos seus alunos; ambos sabem que a acusação não tinha fundamento, mas a filha dá-lhe conta da serenidade com que encara a situação, uma vez que... quer estar na prisão.

Que acontece, então? Algo raro nas ficções dos nossos dias, sobretudo nas de raiz televisiva, mas também em muitas de produção cinematográfica: subitamente, a própria noção de familiaridade é coisa incerta; a proximidade dos seres é vivida, não como um revelador, mas uma barreira.

Podemos situar esta estranheza do universo familiar numa ancestral árvore genealógica que nos remete para Freud e as lições da psicanálise. Mas importa não reduzir Egoyan a um "ilustrador" de teorias. O que confere um especial fascínio ao seu cinema - e também a perturbação desse fascínio - é qualquer coisa de visceralmente cinematográfico (passe a redundância). E não será abusivo colocá-lo num domínio narrativo que integra as referências tutelares de Ingmar Bergman ou David Lynch, cineastas em que a familiaridade dos corpos, mesmo quando intensamente realista, nos projeta em cenários de mistério, inquietude ou assombramento.

Neste tempo de aceleração da comunicação e menorização da arte de pensar, Egoyan está cada vez mais condenado a ser visto como um esotérico mais ou menos caricatural. Em algum jornalismo anglo-saxónico, encontrei abordagens a Convidado de Honra que são sintoma disso mesmo: classificando os comportamentos das personagens como ridículos, a crítica ao filme deduz que o filme só pode ser ridículo... Mesmo admitindo que esse ridículo existe (o que é, no mínimo, discutível), eis um exemplo banal da velha confusão entre o que dizem as personagens e aquilo que o filme diz ou nos faz dizer. Dito de outro modo: uma ignorância do trabalho narrativo.

O coelho branco da filha, que é tratado pelo pai, pode ser um sugestivo exemplo desse trabalho de Egoyan. O animal não é "símbolo" de coisa nenhuma, mas há nele a singeleza de um elo silencioso entre as personagens, envolvendo um pressentimento de morte e uma paradoxal afirmação de vida. Dir-se-ia a premissa dramática de um fado português, o que também está longe de ser "simbolismo" para fundamentar a análise crítica: na banda sonora de Convidado de Honra, Egoyan utiliza um fado de Amália Rodrigues.

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