Elza indestrutível

Elza Soares, a cantora brasileira, fez 90 anos no dia 23 de junho. Em celebração da data, os jornais a entrevistaram, enfatizaram sua condição de heroína negra do Brasil e falaram de suas últimas gravações - sim, ela continua no ativa e, até pouco antes da pandemia, ainda se apresentava regularmente. Uma cirurgia na coluna em 2014 limitou seus movimentos e obrigou-a a, desde então, cantar sentada. Ela não se altera: "Canto sentada, mas meto bronca do mesmo jeito" - ou seja, joga-se à música como se fosse a Elza que, em 1999, foi eleita pela BBC de Londres a "cantora do milénio", cantou o hino nacional brasileiro a capella na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, no Maracanã, em 2007, e se apresentou no Central Park, em Nova Iorque, em 2017. Sentada ou em pé, Elza fez, nos últimos anos, dezenas de shows longe de Copacabana, onde mora, sujeitando-se à maratona de aeroportos, aviões e hotéis. Encontrei-a várias vezes nesses aeroportos e sempre me espantei com sua disposição para viajar.

Finalmente Elza passou a admitir sua verdadeira idade. Durante décadas, ela a escondeu dos repórteres, chegando a subtrair até dez anos do número real. Mas bastava fazer as contas para descobrir que Elza só podia ter nascido em 1930. Foi o que escrevi em meu livro Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha, a biografia de Garrincha, o génio trágico do futebol, com quem ela viveu por quinze anos e formou um dos casais mais discutidos dos anos 60 e 70. Mas tratei com tanta discrição essa inconfidência sobre sua idade - a informação está no meio do livro, sem destaque - que ela não percebeu. E, pelo vistos, meus colegas também não, porque continuaram a acreditar na idade que Elza lhes dizia que tinha.

Musicalmente, a Elza Soares de hoje não tem nada a ver com a que foi descoberta em 1959 numa casa noturna carioca e contratada pela poderosa Odeon. Elza era então sambista e, como tal, uma explosão. Fazia o que queria com a voz em matéria de extensão, volume, tonalidade, respiração, ritmo e - a palavra mágica - bossa, a capacidade de improvisar. Para acompanhá-la, nada de pequenos grupos de flauta e cavaquinho, mas orquestras de metais tocando a plenos pulmões, como as das gafieiras. Foi o que a Odeon lhe deu, e Elza mostrou ao que vinha.

Estourou de saída com Se acaso Você Chegasse, regravação de um antigo sucesso de Cyro Monteiro, e, pelos anos seguintes, lançou uma fieira de empolgantes sambas, daqueles de frases longas e vibrantes, a serem cantados para fora - o oposto do intimismo da bossa nova, que então começava a aparecer. Ironicamente, o pessoal da bossa nova gostava de Elza e ela participou em vários de seus concertos - porque, à sua maneira, ela também era uma "bossa nova". E terá sido por acaso que Elza e João Gilberto, naquela época, tiveram um rápido romance?

De 1959 a 1978, a Odeon produziu 22 álbuns de Elza, todos extraordinários, contendo suas grandes gravações de Mulata Assanhada, Tenha Pena de Mim, Beija-Me, Ziriguidum, Edmundo, Palmas no Portão, Eu agora Sou Feliz, Quero Morrer no Carnaval, muitos, muitos mais - sambas alegres, otimistas, exuberantes. Para o meu gosto, o melhor disco é Elza Soares e Wilson das Neves, em que ela canta Deixa Isso pra Lá acompanhada somente pela bateria de Wilson - um show de virtuosismo de que nenhuma cantora brasileira de hoje seria capaz. Todos esses álbuns foram reunidos pela EMI em 2003 numa caixa com 12 CD, intitulada Negra, produzida por Marcelo Fróes. Parte deles está agora também na plataforma Spotify, divididos em três playlists: "Elza Soares Samba", "Elza Soares Amor" e "Elza Soares Protesto".

A Elza de hoje - ou a de dez anos para cá - não canta mais samba. "Aquilo ficou impossível", ela disse noutro dia ao repórter Julio Maria, de O Estado de S. Paulo. "Era lindo, mas já foi feito." Elza se dedica agora ao que Julio definiu como canções "beligerantes e denunciativas", com forte tintura de rock e letras que refletem sua guerra particular contra o racismo, a violência contra a mulher, a injustiça - temas que só vagamente faziam parte de sua agenda nos anos 1960. Mas agora tomam a agenda inteira: "O racismo mata tanto quanto o vírus", ela disse há pouco.

Elza trocou sua condição de "apenas" cantora pela de, digamos, porta-voz das grandes causas. Isso se reflete até nos títulos de seus últimos discos e shows, como A Mulher do Fim do Mundo, de 2015, Deus É Mulher, de 2018, e Planeta Fome, de 2019. É uma temática, dir-se-ia, quase impossível para uma mulher da sua idade e fragilidade física. Mas Elza vai em frente e arrebata as plateias. Não é uma senhorinha de 90 anos. É uma mulher de 90 anos.

Em 1994 e 1995, estive com Elza inúmeras vezes, em função de meu livro sobre Garrincha, então em preparo. Eu a visitava regularmente em seu apartamento, para horas de entrevistas. Elza tinha todo o tempo do mundo. Sua carreira estava oscilante e, tantos anos depois, muitos ainda a responsabilizavam pela derrocada e tragédia de Garrincha. O que era injusto, porque Garrincha se destruíra sozinho, por causa da bebida, e Elza, que nunca bebeu uma gota, quase foi arrastada por ele para o abismo. Quando Garrincha morreu, em 1983, ela já estava longe havia anos - fora embora para se salvar.

Sem modéstia, gosto de pensar que meu livro Estrela Solitária contribuiu para a reabilitação da imagem de Elza - ela própria me disse certa vez que isso aconteceu. Se assim foi, apenas retribuí as muitas horas de vibração e euforia que seus velhos discos me proporcionaram. Para grande prejuízo da música brasileira, ninguém mais produz sambas como aqueles que Elza cantava.
Talvez porque nunca tenha surgido uma nova Elza. Ou porque a Elza original tenha se tornado um veículo, um meio - cuja mensagem, insubstituível, é ela própria.

Jornalista e escritor brasileiro

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