Alqueva fez uma aldeia feliz e outra infeliz

É o maior lago artificial da Europa e uma barragem que se fez esperar ao longo de décadas até que a inscrição "construam-me, porra" pintada no paredão ficou ultrapassada pelas obras que mudaram definitivamente uma paisagem deserta e desertificada.

Como se estivesse à espera de alguém que aparecesse a interromper o fim de uma manhã sentado à sombra de um choupo na praça principal da aldeia de Alqueva para lhe pedir que contasse o que significa a maior barragem portuguesa na sua vida, o senhor Manuel não se fez rogado. Afinal, a represa está no imaginário de uma vida com 85 anos, a maior parte dela a ouvir premonições da construção de um paredão que iria mudar a vida dos que como ele ali vivem há tanto tempo.

Apesar de estar a pouca distância, o maior lago artificial da Europa não é visível devido ao casario e por a aldeia estar num vale da serra perto de onde foi levantada. Mas Manuel aponta para o lugar onde estará a grande parede que sustém os milhões de litros de água que deslizam pelo rio Guadiana e alguns afluentes e diz "é logo ali". Não está enganado, nem é uma frase típica de um povo que refere sempre assim o caminho até ao local pretendido como se fosse a um passo de onde se está.

Sabe bem como e onde tudo começou, mesmo que a história da aldeia tenha os primeiros apontamentos escritos em documentos de 1285. Quanto ao nome da aldeia, vem da palavra "alqueive", que significa terra de pousio ou terra deserta, paisagem que ainda hoje constitui muita da que se observa para chegar à porta da barragem onde vive Manuel. A sua história pessoal tem quase tantos anos como a da barragem e, mesmo que não tenha nascido na aldeia, é ali que viveu quase sempre: "Éramos sete, ainda estão vivos três." Aos 10 anos, a família deixou a Amieira e foi morar para Alqueva, onde o pai era maioral de uma malhada de porcas. A razão de ser da construção da barragem, terras áridas e agrestes a toda a volta, foi também o motivo para ter emigrado à procura de sustento: "Para França e Suíça"; antes e depois migrou por "esses campos e propriedades à volta", em trabalhos agrícolas e de pecuária: "Era uma escravidão." Acrescenta: "Naquele tempo, quem não trabalhasse não comia."

E a barragem, como apareceu na sua vida? "Ouvia-se falar muito da barragem. Primeiro num afluente do Guadiana a uns quatro quilómetros daqui, depois noutros sítios. Nessa altura não se duvidava de que fossem fazer, mas depois nunca se viu nada, até que arrancou no tempo do [primeiro-ministro] Guterres." Manuel, tal como muitos outros, lembra-se de ver as primeiras obras começarem com a edificação de uma barreira para desviar a água do rio e construir-se o paredão da barragem: "Fizeram sondagens e viram que de um lado era tudo firme mas do outro havia uma falha." Tem outras memórias: "Ouvi um engenheiro na televisão a dizer que era melhor fazer-se pequenas barragens e noutros sítios, mas esta é que está alimentar a de Alvito, de Monte Novo, de Odeleite, e outras que nem sei o nome."

Não esqueceu as primeiras obras que começaram há várias décadas: "Faziam coisas e depois parava tudo, mesmo que se visse um muro e o túnel prontos para desviarem a água do rio. Esteve parada porque havia muito quem a não quisesse feita. A gente não sabia o que pensar porque ficava parada uma mão-cheia de anos. Até o [primeiro-ministro] Cavaco veio aqui uma vez, mas, enquanto ele lá esteve, isto nunca avançou. Ele veio aqui e comeu uma sandes no café, onde estavam umas rapariguitas e perguntou-lhes 'então, não têm trabalho?'"

Manuel já não é capaz de precisar quando ouviu falar pela primeira vez da barragem: "Sei que em 1978 já andavam a mexer, mas tanto se falava que era preciso aqui como ela foi tentada em vários sítios. Tentaram num lado e noutro mas acabou aprovada aqui e deixou de haver contras." Remata: "Se não fosse a barragem, havia muita sede, mesmo assim não sei se isso não volta porque se continua sem chover como há quatro anos ela não enche. Tem um gasto de água que é muito grande e sem a barragem já estavam todos a ganir em Évora, Beja e Portel." Para o senhor Manuel a questão da localização é simples: "Os mais pobres queriam, mas os ricos não queriam perder os terrenos para irem à caça. Os ricos foram pagos por perderem os terrenos e os pobres tiveram trabalho. Havia emprego na construção e depois noutros trabalhos daqui até Ferreira, a Moura e a muitos lados por causa dos canais feitos com água que vão quase até ao Algarve."

Nunca chegou a trabalhar na edificação da barragem: "Tinha outros trabalhos; fazia tudo o que pertencia a agricultura: limpava árvores, fiz carvão e aquilo que calhou, como guardar porcos e vacas." Mas a barragem a subir não lhe passava despercebida: "Íamos lá ver a barragem, mas não se percebia nada do que estava a acontecer. Era só ver o pessoal a trabalhar e até o paredão subir a altura da terra demorou muito tempo. Há ali caboucos com dezenas de metros de profundidade, porque iam em busca da firmeza e enquanto a não encontravam iam andando para abaixo. Vinha muita gente ver as obras e, depois de feita, ainda mais gente. Excursões de todo o lado, até do Norte porque isto é o maior lago da Europa."

Chegou o dia em que ficou pronta: "Quando se encheu vi que era uma grande obra que ali estava e que era uma reserva de água que faz muita falta." Considera que a vida na aldeia de Alqueva não mudou radicalmente e só deu vida aos restaurantes, mas apareceu trabalho perto e, diz, "hoje não há distâncias". Quanto à agricultura que ali era praticada, também mudou tudo: "Acabou. Tudo o que agora são olivais e pomares eram de cereais nessas boas terrenas que agora levam adubos todos os anos. Até há veados nessas herdades cercadas para virem ali meter-se numa cova e darem tiros."

A aldeia feliz

Vai a conversa a bom ritmo quando o senhor Manuel ouve o sino da igreja a dar o meio-dia. Faz sinal de que a história fica por ali: "Está a mandar a gente almoçar." Ainda dá uma folga para dizer que a nível de trabalho não apanhou nenhum benefício da barragem, por já estar reformado, a não ser encher a vista: "Quando abriram as comportas era ver a água a sair. Parecia uma nascente como a de lá de cima, do céu. Está ali uma obra para se ver." A conversa está dada por terminada e só diz mais cinco palavras: "Vamos em busca do almoço."

Despede-se e no seu rasto fica a história de uma aldeia que ficou feliz com a barragem a que deu nome. Alqueva não lamenta o maior lago artificial da Europa colocado ali mesmo ao lado e que tem números impressionantes: uma albufeira com 250 km² e mais de 1100 quilómetros de margens, abrangendo cinco concelhos: Portel, Moura, Reguengos de Monsaraz, Mourão e Alandroal, e ainda os municípios raianos de Olivença, Cheles, Alconchel e Villanueva del Fresno. A história oficial não desmente a perceção do senhor Manuel: "O longo período que decorreu entre os primeiros estudos e a construção da barragem, cerca de 50 anos, tornaram o Alqueva quase um mito entre a população. O projeto inicial tinha como objetivo irrigar o Alentejo e desenvolver a agricultura, combatendo a desertificação e o subdesenvolvimento da região. Após vários anos de avanços e recuos, as obras arrancaram em 1998 e ficaram concluídas em janeiro de 2002. No dia 8 de fevereiro fecharam-se as comportas e iniciou-se o enchimento da albufeira."

Do outro lado da praça está um café e na esplanada três jovens universitários do Norte que decidiram partir à aventura desde Espinho, Ovar e Aveiro, até à Costa Vicentina. Pelo meio, José, Kevin e Ruben, têm visitado lugares que lhes eram desconhecidos, começando por Castelo Branco e na véspera Évora: "Pegámos no carro e andamos por terras que não conhecemos." Depois de um dia escaldante em Évora, vieram de propósito a Alqueva para ver a barragem. "Fizemos um desvio para alugar uma canoa e passear na água da barragem." De dia passeiam e à noite acampam: "Água e sol, e tem sido pacífico e sem muitas pessoas à volta - nem temos pensado na covid -, mas com muita tranquilidade e contacto com a natureza. Vamos descendo, paramos para beber uma cerveja e pensar na vida." O trio parou no café antes de ir conhecer a barragem: "Tínhamos curiosidade porque isto é um pilar da região." Conheciam a barragem devido a uma cadeira de mineralogia na universidade."

No café estão vários habitantes de Alqueva ou de perto. José Ganso, 62 anos, não se furta às descrições sobre o que a barragem alterou na vida da região: "No meu modo de ver o que acabou foi o peixe bom que aí havia e agora não há nada disso porque é um peixe de água parada e mole." Fora o peixe, lamenta que os jovens tenham de ir estudar em Portel: "Onde havia a escola é agora um hostel. Muito poucos jovens ficam por cá porque aqui não há nada. Não deixam construir, só é bom para o comércio." No entanto, depois de lamentar, acaba por dizer: "A vida ficou melhor e muita gente vem no verão ver isto."

O responsável pelo café vem juntar-se à conversa e começa por dizer que o facto de a barragem ter o nome da aldeia foi bom: "Estamos a três quilómetros do paredão e agora estão a construir uma praia fluvial, além de que temos o Museu do Medronho..." António Rosa, de 63 anos, confessa que a barragem trouxe benefício para o café: "De inverno, a aldeia está parada, mas no resto do ano as pessoas têm curiosidade e vêm até cá." Não deixa de lembrar: "Na altura da construção da barragem houve muitas melhorias para a população. Alguns trabalharam na obra e houve muita gente que ganhou o suficiente para fazer obras nas casas - refazer os telhados e pôr casa de banho - e até comprou viaturas."

Quanto aos novos proprietários das terras à volta da barragem, todos sabem que mudou de mãos e não têm problema em o dizer: "Os espanhóis têm comprado as terras que eram sementeiras de trigo e aveia e agora com a água de Alqueva passaram a ser olivais e amendoeirais. E, com a agricultura intensiva na margem esquerda, a da planície, foi esta que mais ganhou com isto. Os espanhóis aproveitaram as terras, fazem bons negócios com os proprietários com contratos de exploração por 20 anos."

As memórias da construção também estão bem vivas neste grupo, sendo que um deles foi o guarda do paiol de pólvora no início das obras: "Cheguei a ter sob minha supervisão 2500 quilos de trotil. Era dali que saiu a dinamite para fazer o túnel". Há quem acrescente mais uma história: "Quem vem aqui acha que é uma obra gigantesca e nós temos na nossa memória como a construção foi uma coisa do outro mundo. E só morreu um trabalhador durante os vários anos da construção, que era de dia e noite, com 1200 trabalhadores que nunca paravam e vagões com cimento a correrem pelos cabos aéreos e máquinas penduradas a passarem para o outro lado."

Depois da obra cada um seguiu a sua vida, e o guarda do paiol tornou-se apicultor: "A serra é boa para mel e como na há química as abelhas gostam destes arbustos de rosmaninho." Ouvido o grupo, chega-se à única conclusão, que é dita por um deles: "Trouxe melhorias a todos os níveis, foi para todos e está a ser para todos."

A aldeia infeliz

A história oficial da barragem do Alqueva tem outro parágrafo: "Com a construção da barragem, a antiga aldeia da Luz ficaria submersa. Assim, após vários estudos e consulta popular, optou-se pela construção de uma nova aldeia onde foram realojados os habitantes da antiga aldeia. Foi também construído o Museu da Luz com vista a preservar o património da antiga Luz e da região." Ora, se na aldeia que deu nome à barragem parecem estar todos felizes, na aldeia que foi apagada do mapa a tristeza ainda não desapareceu.

Não que seja fácil apurar esta realidade, pois sob uma temperatura de 42 graus a aldeia da Luz hibernou e não há vivalma ou uma única janela das casas aberta. A única pessoa que se vê é um jovem que, de bicicleta, se dirige para a margem com uma cana de pesca, ou os funcionários do Museu da Luz, que guardam a memória de uma aldeia de que não ficou uma única parede de pé: "Foi tudo demolido na antiga aldeia e retiradas, cirurgicamente, certas peças."

Quem visitar a nova aldeia da Luz pode pensar que ninguém a habita e é preciso percorrer a localidade por inteiro até se encontrar alguém que desafia o calor de julho. Nídia Suzana tem a memória das duas aldeias, a velha onde nasceu há 38 anos e a nova para onde regressou há alguns anos, para explorar o único restaurante da terra, que serve a costeleta de novilho. Mas são as especialidades inesperadas que surpreendem: bife de canguru e de avestruz. Só não conseguiu ter postas de tubarão, lamenta. Outra particularidade, dizem os jovens, tem os melhores hambúrgueres da região - chamam ao Lanterna o McDonald's da aldeia.

Nídia tinha 20 anos quando veio para a nova aldeia da Luz: "Foi complicado porque isto não nos dizia nada. Parecia uma aldeia fantasma." Agora, considera, "já estão mais resignados, até porque muitos já nasceram aqui e para eles foi sempre esta a aldeia que existiu." Não é que existam tantos jovens assim: "As pessoas, antes, tinham mais filhos e os que existem também saem para procurar trabalho nas redondezas." Foi que aconteceu com Nídia: "Saí da aldeia antiga aos 18 anos e só voltei em 2018 já para a nova. Quis aventurar-me porque não havia nenhum restaurante para a clientela estrangeira - alemães, espanhóis, franceses - e portuguesa que por aqui passa."

Os pais de Nídia gostavam mais da antiga aldeia: "É diferente, é onde estão as raízes e perderam tudo. Não é como mudar de terra e voltar. Estou aqui há muitos anos e isto não me diz nada e ainda sonho com a aldeia antiga, com o sol e as sombras na praça." Quanto à barragem, diz: "Ficou bom para os espanhóis. Um cliente do restaurante mete-se na conversa e confirma que esta aldeia é infeliz em poucas palavras: "É uma selva de cimento." Ainda diz: "A minha aldeia era a da Luz antiga e não esta. Não se pode apagar a memória, mesmo que tenham feito um museu."

Deixa-se a aldeia e vai-se até à praia fluvial da Amieira, onde se está a banhos e se ouve um burro do outro lado a zurrar em vez dos aviões a aterrar num aeroporto próximo. Pelo caminho, tanto se pode encontrar um sinal de trânsito a avisar que por ali atravessam-se no caminho vacas como um estaleiro naval em pleno interior alentejano, para reparar os barcos que navegam na represa.

Mais Notícias