Sobre o Cazaquistão, falemos de sushi e de piscinas em vez de geopolítica

Vou falar de sushi e de piscinas e das visitas que fiz ao Cazaquistão, mas podia estar a falar da geopolítica da antiga parcela do império czarista e da URSS que desde a independência em 1991 é o nono país com território mais vasto e também o maior sem acesso aos oceanos, cerca de 20 milhões de habitantes numa geografia sobretudo de planície estépica encravada entre a Rússia e a China, e um grande exportador de petróleo e gás; podia também estar a falar da diplomacia da maior das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central que embora aliada da Rússia e em boa vizinhança com a China soube nestas três décadas manter relações amistosas com os EUA e a UE e ganhar admiração na ONU ao desistir do seu arsenal nuclear apesar de ter sido o terreno de testes da URSS desde a era de Estaline; podia igualmente estar a falar da liderança de Nursultan Nazarbayev, o homem a quem Mikhail Gorbachev ofereceu a vice-presidência soviética mas que acabou por construir um país, negociando com sucesso as fronteiras, conseguindo que a etnia cazaque voltasse a ser maioritária sem que isso alienasse a comunidade eslava e assumindo a herança dos canatos de séculos passados, sucessores da Horda de Ouro, mas sublinhando mais o legado túrquico do que o islâmico; podia ainda falar da pequena comunidade portuguesa que vive em Nursultan (a moderna capital, até 2019 chamada Astana, onde se destacam projetos de Norman Foster como o Khan Shatyr, uma tenda gigante) e em Almaty (fundada pelos russos, cosmopolita como nenhuma naquela parte do mundo), tão bem integrada que há meninos e meninas luso-cazaques.

Como comecei por dizer, vou falar de sushi e de piscinas, e um pouco daquilo que pude ver em reportagens em 2019 e 2021 (a convite, mas com total liberdade de movimentos) em Nursultan, Semei, Almaty e Turquistão, mas podia estar a falar do desconforto de muitos cazaques com a perpetuação de Nazarbayev no poder (mesmo reconhecendo-lhe o estatuto de pai da nação) e das histórias na imprensa internacional sobre a corrupção no seu círculo familiar; podia também falar dos ocasionais protestos contra o aumento do custo de vida respondidos com aspereza e da dificuldade em levar aos confins do país a riqueza que os lucros do petróleo permitem observar em Nursultan ou Almaty; podia igualmente falar das dúvidas surgidas há três anos, quando Nazarbayev deixou a presidência e Kassym-Jomart Tokayev foi eleito, sobre se o novo chefe de Estado, um diplomata poliglota que foi secretário-geral adjunto da ONU, teria margem de manobra num sistema dominado pelos fiéis de Nazarbayev, pouco interessados em transparência e abertura; podia ainda falar dos acontecimentos dos últimos dias, que surpreenderam tudo e todos, no Cazaquistão e fora dele, que de protestos em cidades do ocidente do país pelo aumento do preços dos combustíveis se transformaram em violência extrema, sobretudo em Almaty, entre as forças de segurança e grupos de criminosos e radicais islamitas (incluindo estrangeiros) que se aproveitaram da agitação provocada por manifestações cada vez mais políticas, e que se começa a suspeitar resultar de luta dentro da elite cazaque entre quem teme mudanças (mesmo as que timidamente Tokayev foi fazendo desde 2019) e um presidente bem preparado mas tido como frágil que agora ergueu a voz, mesmo que para isso tivesse de pedir solidariedade regional, nomeadamente da Rússia, que enviou militares para proteger edifícios estratégicos.

Vou agora falar finalmente do tal sushi e das piscinas. Imaginem uma cidadezinha chamada Turquistão, famosa pelo mausoléu de cúpula azul construído por Tamerlão no estilo que depois deu fama a Samarcanda. As fronteiras com o Usbequistão são já ali. E o Afeganistão dos talibãs fica quase tão perto como Barcelona de Lisboa. Mas nos centros comerciais pode-se comer sushi, KFC ou os pelmenis de um restaurante russo. E no recém-inaugurado hotel, propriedade de uma cadeia turca, na piscina pais e filhos brincam e casais nadam e abraçam-se.

Pois é esse Cazaquistão sociedade islâmica tolerante, sem burqas mas com biquínis, capaz de lidar com a dura memória dos gulags sem rejeitar os benefícios da cultura russa, promotor do renascimento da língua cazaque mas respeitando as minorias, interessado em ter boas relações tanto com Moscovo como com Washington e Bruxelas, que espero que saia vencedor desta grave crise. Tokayev, obrigado a manter o melhor do legado do antecessor mas aos olhos do seu povo e do mundo pressionado a combater a corrupção e a aligeirar o controlo pelo partido presidencial, tem de mostrar ser o líder determinado de que o Cazaquistão precisa, sem ficar refém de jogos de poder internos nem de disputas entre potências.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG