Tsai vence Han nas eleições em Taiwan e derrota também Chiang e Mao

Presidente confirmou favoritismo na ida às urnas deste sábado, e a recuperação da sua popularidade teve muito que ver com protestos anti-chineses em Hong Kong, prejudiciais à ideia de um país, dois sistemas. Reunificação ambicionada por Pequim seria mais fácil se favoritismo inicial de Han Kuo-yu, candidato do Kuomintang, se tivesse mantido.

O memorial a Chiang Kai-shek é de visita obrigatória em Taipé, apesar de a ditadura nacionalista que impôs em Taiwan em 1949 depois de derrotado pelos comunistas na China continental nada ter que ver com a democracia que hoje existe na ilha que Pequim considera uma província rebelde. Ora, neste sábado realizaram-se eleições presidenciais em Taiwan, com o resultado a ser o segundo mandato para Tsai Ing-wen (quase 60%, segundo estimativas), líder avessa a uma reunificação chinesa, pelo menos nos moldes ditados por Pequim.

Comecei por referir o memorial ao generalíssimo derrotado por Mao Tsé-tung porque nas duas vezes que visitei Taiwan pude ali mesmo, no monumento, constatar como as relações entre os governantes de Taipé e de Pequim se tinham deteriorado fortemente depois da vitória de Tsai em 2016. Em 2012, quando conheci a ilha, o ambiente era de reconciliação entre os dois lados do estreito de Taiwan, que até tinham passado a ter ligações aéreas diretas e assim a novidade dos grupos de turistas da China continental, sem falharem o Memorial a Chiang, mesmo que fosse o Museu do Palácio Nacional a grande atração. Voltei em 2017, um ano depois de Ma Ying-jeou ter cedido a presidência a Tsai e o relacionamento entre Taipé e Pequim degradara-se tanto que os turistas quase tinham desaparecido das imediações do Memorial localizado no coração da capital taiwanesa.

Uma das razões do favoritismo de Tsai, candidata do DPP, nas eleições de hoje sobre Han Kuo-yu, do Kuomintang, o velho partido nacionalista, era o bom desempenho da economia, que em 2020 deverá crescer quase 3%, o que é notável para um país altamente desenvolvido e cujo PIB está entre os 25 maiores do mundo. Não só a indústria tecnológica se comporta bem, como o turismo bate recordes, 12 milhões de visitantes em 2019, com o acentuado recuo nas chegadas de chineses continentais a ser compensada, entre outros, pelos japoneses.

Mas nem todas as retaliações feitas por ordem de Xi Jinping a Taiwan falharam no efeito pretendido como esta da redução do envio de turistas.

Por exemplo, o cerco de Pequim aos aliados de Taiwan, com o regresso à diplomacia do cheque mas desta vez praticada só por um dos lados, fez que de 22 países a reconhecer a República da China ficassem só 15, com o Paraguai a destacar-se pelo tamanho e o Vaticano pelo simbolismo. Taiwan perdeu, entre outros, o reconhecimento de São Tomé e Príncipe, recusando a chantagem feita para aumentar a ajuda económica de modo a ultrapassar as ofertas de Pequim.

Oficialmente, Taiwan chama-se República da China, o Estado fundado por Sun Yat-sen ao ser derrubado o último imperador Qing em 1912. Quando a República Popular da China foi proclamada em 1949 por Mao, Chiang conseguiu que grande número de países mantivessem relações com o governo nacionalista refugiado em Taipé e até 1971 preservou o assento chinês no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ironicamente, é quando Taiwan evolui para a democracia, já depois da morte de Chiang, que o isolamento diplomático começa a acentuar-se. Isso resulta tanto da normalização de relações entre Pequim e Washington (protetor tradicional do governo de Taipé) como do fim da Guerra Fria, mas sobretudo da pujança económica da China comunista, segundo maior PIB e com a possibilidade de ultrapassar os Estados Unidos no espaço de uma década.

Um entendimento verbal datado de 1992, que Tsai se recusa a reconhecer, tinha posto comunistas e nacionalistas a concordarem haver uma só China, com Taiwan a preferir o statu quo a uma declaração de independência inaceitável para Pequim. Foi com base nessa ideia, e de uma reunificação a longo prazo, que, durante a presidência de Ma, Taiwan reforçou laços com a China continental, a ponto de ter havido mesmo uma cimeira em Singapura com Xi, não como chefes de Estado mas como líderes dos dois partidos históricos chineses (que oscilaram entre aliados e inimigos mas com Sun a ser ainda hoje herói tanto para os 1400 milhões de um lado como para os 23 do outro).

A era de Ma trouxe prosperidade graças à aposta na relação económica com a China, e é essa a proposta que Han apresentava nestas eleições. Ao contrário de Tsai, não mostra quaisquer tentações independentistas e sobretudo não abomina a China comunista, a qual já visitou enquanto presidente da câmara de Kaoshiung.

Contudo, a popularidade de Han, altíssima quando em 2018 foi eleito numa cidade que era bastião do DPP, veio em queda desde meados do ano passado. E isso terá sido consequência direta dos protestos pró-democracia em Hong Kong, a antiga colónia britânica que tal como Macau é governada com base na fórmula um país, dois sistemas, inventada por Deng Xiaoping há 40 anos para lidar com Taiwan e tentar a reunificação.

Não só Tsai foi sempre simpática q.b. com os contestatários em Hong Kong, como a fórmula de Deng surgia como fragilizada aos olhos do eleitorado de Taiwan, o que prejudica e muito o candidato pró-reunificação.

Mas se vencer nas urnas se tornou inesperadamente fácil para Tsai, já fazer um segundo mandato de sucesso é um desafio bem maior: a sua política de confrontação permanente com Pequim é arriscada, até porque Xi mantém a opção da força em aberto na questão do regresso da ilha à mãe-pátria (daí a compra avultada de armamento americano por Taiwan, o que irrita ainda mais Pequim).

Do lado de Pequim, continua também a ser necessário passos que reconquistem o coração de uma juventude taiwanesa que cada vez menos se identifica com a China, apesar de ter como língua oficial o mandarim, usar os caracteres clássicos e ter no Museu do Palácio Nacional os grandes tesouros das sucessivas dinastias, um legado de Chiang, que os trouxe.

Voltemos ao Memorial do generalíssimo. Na loja de recordações, vendem-se bonecos de Chiang e de Mao. A última vez que se encontraram foi em 1945, depois de derrotarem juntos os invasores japoneses. Morreram os dois há mais de 40 anos. E no entanto a divisão que criaram perpetua-se, cheia de mal-entendidos e plena de riscos. Será assim tão difícil a Tsai, agora reeleita, e a Xi transformar a atual hostilidade no início de um diálogo.

Atualizada às 14.45 com vitória de Tsai

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