Os partidos e as eleições internas

Por obra e graça de uns patetas populistas, com a inestimável colaboração criminosa dos principais dirigentes partidários, estamos a chegar ao ponto de ser obrigatório nunca ter feito nada na vida, que não seja ter sido militante de um partido, para poder ser deputado.

Hoje, os militantes do PSD escolhem o líder da oposição. O homem que terá a responsabilidade de apresentar uma alternativa à presente governação e que, não aconteça um verdadeiro terramoto no nosso sistema político-par tidário - que já esteve mais distante -, será a única possibilidade de termos como primeiro-ministro alguém que não seja do Partido Socialista. Esta escolha cabe a cerca de 43 mil militantes do PSD.

Se é verdade que uma deliberação desta importância sempre esteve nas mãos de pouca gente, também não me parece que restem muitas dúvidas de que algo precisa de mudar para que mais gente seja chamada a este processo.

A instituição das diretas pelos dois principais partidos teve o principal argumento declarado de aumentar a participação de mais militantes na escolha da liderança, mas isso esteve longe de acontecer, bem pelo contrário. Não só fez diminuir os participantes, como diminui o necessário debate interno.
A escolha de delegados, com capacidade eletiva aos congressos, era um processo que envolvia mais gente de todo o país e que promovia o debate nas várias instâncias dos partidos. Agora, a troca de ideias limita-se a uns argumentos propagandísticos e princípios vagos trocados pelos candidatos, que apenas contribuem para o ainda maior empobrecimento dos conteúdos programáticos e inexistente esclarecimento das linhas que se querem seguir.

Esta campanha do PSD foi um bom exemplo disso. A comunicação social desistiu desta eleição, a tal que escolhe a coisa pouca do líder da oposição, por evidente desinteresse e fraca qualidade do debate.

A limitação do poder de intervenção dos militantes na vida interna dos partidos conduziu também a uma desmotivação dos cidadãos em fazer parte deles. Daí até se terem tornado uma espécie de agência de empregos foi um passo de um anão.

É verdade que a responsabilidade, no limite, é dos cidadãos que estão sempre muito prontos a criticar todo e qualquer aspeto da vida partidária, mas não estão nada disponíveis a participar em organizações que são uma das bases fundamentais de qualquer democracia liberal. Mas, de facto, os partidos, sobretudo os maiores, estão cheios de pessoas que a única realidade "profissional" que conhecem são os truques para arranjar um lugar numa empresa pública ou municipal, o cargo neste ou naquele instituto público. A gente com conhecimento da realidade, que tem experiência dos vários setores da comunidade, não encaixa. Não só não têm interesse em conviver com os que agora estão nos partidos, como os que lá estão não os querem próximos.

Que o PSD está seco de ideias e que não é capaz de captar gente na sociedade civil não é novidade para ninguém, mas isso também acontece nos outros partidos - claro que o PS tem o isco do poder, no entanto o PSD quando o teve não trouxe pessoas novas, mas isso é outra conversa.

A propósito, a quantidade de incompatibilidades que se impõem, por exemplo, aos deputados está a trazer o carreirismo já existente nos partidos para o Parlamento. Por obra e graça de uns patetas populistas, com a inestimável colaboração criminosa dos principais dirigentes partidários, estamos a chegar ao ponto de ser obrigatório nunca ter feito nada na vida, que não seja ter sido militante de um partido, para poder ser deputado. Ou seja, vamos ter - infelizmente, em grande medida, já temos - uma Assembleia da República que não faz a mais pálida ideia da realidade de cada profissão, das empresas, do Estado, numa palavra da vida das pessoas.

Tenho poucas ilusões sobre o regresso dos partidos a organizações produtoras de ideias e reflexão - que também foram - ou de sequer voltarem a ser estruturas bem melhores do que agora são. Como também não tenho a mais pequena dúvida de que os congressos eletivos fazem parte de uma história longínqua que não volta.

Por agora é fundamental alargar o leque das pessoas que escolhem os principais líderes políticos. A primeira medida é instituir primárias. Tentar trazer as pessoas que se sentem perto, no caso presente, dos ideais do PSD a uma decisão importante. No fundo, implicá-las diretamente numa escolha sem as obrigar a militar no partido. Além de tudo, há neste momento uma sensação de que os militantes já não votam em quem pode ganhar eleições aos outros partidos, mas em que lhes garante pequenos poderes internos.

Apareceria, numa primeira fase, muita gente para votar? Talvez não. Mas a consciência da importância do voto cresceria e o impacto junto dos media dum processo destes seria muito maior.

A instituição de primárias não será a salvação dos partidos, muito longe disso. Aliás, o efeito que geraria de tirar força e importância à militância não seria nada fácil de resolver e a necessária reformulação interna poderia trazer problemas sérios de organização interna. Porém, a questão é bem mais profunda. Habituámo-nos a acreditar que a democracia não funciona sem partidos e isso não deixou de ser verdade. Simplesmente, a maneira como estão organizados e como atuam na comunidade deixou, em larga medida e sobretudo nos grandes, de fazer sentido. Melhor, não desempenham o papel que lhes estava destinado e que tanto ajudou à consolidação da nossa democracia.

O Tony Judt dizia que uma coisa era recear que um bom sistema não se consiga manter, outra era perder completamente a fé nesse sistema. Eu não digo que tenha perdido completamente a fé no nosso atual sistema partidário, mas receio que deixar tudo nos partidos portugueses como está vai conduzir a um problema na nossa democracia muito mais sério do que se julga.

Mais Notícias