Premium O jogo dos homens devastados

E agora aqui estou, com a memória dos momentos em que falhei, das pancadas em que tirei os olhos da bola ou abri o cotovelo direito no downswing ou, receoso de me ter posicionado demasiado longe do contacto, me cheguei demasiado perto. Tenho a impressão de que, se fizer um esforço, sou capaz de recapitular todos os shots do dia - cada um dos noventa e quatro, incluindo os cinco ou seis que me custaram outros doze ou treze e me atiraram para longe do desempenho dos bons tempos. Mas, sobretudo, sinto o cheiro a erva fresca, leite morno e bosta de vaca dos terrenos de pasto em volta. E viajo pelos outros lugares onde pisei o verde. Em Tróia e na Praia Del Rey. Nos campos suaves do Algarve e nas nortadas de Espinho e da Póvoa de Varzim. Nos paraísos artificiais de Marrocos, em meio da tensão competitiva do País de Gales e na Herdade da Aroeira, com os irmãos Barreira e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui, e todos os outros.

Que saudades tenho da Aroeira. E das nossas expedições pelos campos da Grande Lisboa - dos tugúrios desoladores de Benavente às berrarias exibicionistas do Estoril e de Cascais. E daquelas venetas que nos davam para jogar os grandes campeonatos, em pares e até sozinhos, e onde quase nunca algum de nós chegou sequer à mediania. Que saudades tenho daquilo, um grupo de homens com tanto que fazer em casa, todos razoavelmente devastados, todos preferindo estar ali - perseguindo de ferros em riste o seu (como dizia Churchill) comprimido de quinino através da pastagem. Como é irrepetível esse tempo, agora, ao fim de tão longo afastamento. E como eu o senti esta tarde, em instantes intermitentes, ao atravessar o fairway ao lado do João, ambos tão destreinados já daquilo que sabíamos fazer e talvez já nem saibamos.

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