Discos a levar para a ilha deserta

A melhor ilha é a cercada de música por todos os lados. E a música brasileira, desde os anos 30, é de uma surpreendente riqueza.

Talvez não haja mais ilhas desertas - elas já devem estar até superlotadas, porque o mundo ficou populoso demais. E, se houver, ninguém mais precisará levar livros, discos e filmes para elas a fim de preencher o tempo. Bastará levar um telemóvel, tablet ou qualquer um desses aparelhinhos que contêm tudo ou são capazes de capturá-lo na "nuvem" - que é, segundo ouço, para onde vão os filmes, discos e livros depois que morrem. Houve um tempo, no entretanto, em que a imprensa adorava perguntar aos intelectuais que livros, discos e filmes eles levariam para a tal ilha deserta. E eles adoravam responder, desde os mais graves e severos, como o poeta Carlos Drummond de Andrade, até aos mais pândegos e airosos, como seu colega Vinicius de Moraes. Minha lista favorita é a do falecido ensaísta e jornalista José Lino Grünewald. Ao escolher os livros indispensáveis que botaria na mala, ele incluiu - rindo, mas a sério - a Phénomenologie da la Perception, de Maurice Merleau-Ponty, e a Philosophie der Symbolischen Formen, de Ernst Cassirer, esta em três volumes. Fui amigo de José Lino e posso imaginá-lo na ilha, recostado a uma palmeira, tomando caipirinha e lendo esses gigantescos cartapácios, ao som de discos de Carmen Miranda, uma de suas paixões.

Naturalmente, a ilha deserta, ainda que equipada com uísque, poltrona e luz elétrica, era apenas uma metáfora para as tradicionais listas de dez melhores livros, discos ou filmes de cada um. Só que, agora, com a quarentena que nos foi imposta pelo covid-19, a ilha deserta deixou de ser metáfora. Tornou-se, para tantos de nós, uma dura realidade e por tempo não sabido. Agora, sim, é hora de fazer as tais listas. Por isso, resolvi produzir as minhas, começando por esta, de discos de música brasileira, que poderá beneficiar todos os que, brasileiros ou não, se interessam pela nossa música e ignoram que ela não se resume em Chico Buarque e Caetano Veloso. Eu levaria, para começar, os três discos instrumentais gravados por Tom Jobim nos Estados Unidos em fins dos anos 60: Wave, Tide e Stone Flower. Eles contêm várias e extraordinárias composições de Tom, como The Red Blouse, Takatanga, Tereza My Love e outras que, por não possuírem letras e nunca terem sido cantadas, só tocadas, não alcançaram o mesmo sucesso que Águas de Março. Mas elas não apenas merecem ser ouvidas como, ultimamente, estão sendo integradas ao repertório dos grandes músicos internacionais que não se regulam pelas paradas de sucessos.

Foi nesses discos também que alguns famosos standards de Tom foram ouvidos pela primeira vez, em versão instrumental, como Wave e Chovendo na Roseira, esta ainda com o título de Children's Games. E é neles, igualmente, que estão as (até hoje moderníssimas) interpretações de Tom das duas obras máximas de seus heróis Pixinguinha e Ary Barroso: respetivamente, Carinhoso e AquareladoBrasil. Se me fosse dada a ordem de levar somente três discos para o raio da ilha, estes seriam os que eu escolheria. Mas eu daria um jeito de levar também duas obras-primas da fugaz mas fabulosa fusion de samba e jazz produzida naquela década: Edison Machado É Samba Novo, comandado pelo próprio Edison Machado, o baterista típico do samba-jazz, e Embalo, com o pianista Tenório Jr., que, anos depois, seria assassinado por engano em Buenos Aires pela ditadura argentina. Esses dois discos têm como participantes alguns dos maiores instrumentistas já nascidos no Brasil, como os saxofonistas J. T. Meirelles e Paulo Moura, o trombonista Raul de Souza e o arranjador Moacir Santos.

E, claro, eu levaria ainda todos os discos de Lucio Alves, Sylvinha Telles e João Gilberto que pudesse enfiar no saco. Pela presença de João Gilberto nessa trinca, você pode avaliar os outros dois cantores - não por acaso, ambos mestres de João Gilberto, como você pode ler no meu livro Chega de Saudade. À guisa de amostras, procure na internet Joãozinho Boa-Pinta, com Lucio, e Dindi, com Sylvia. Para as noites de fog na ilha, eu levaria também o que pudesse de Dolores Duran, Tito Madi e Doris Monteiro. Procure ouvir Fim de Caso, com Dolores, Cansei de Ilusões, com Tito, e Dó-re-mi, com Doris - e tente não se apaixonar por eles à primeira audição. Eles foram os grandes expoentes da música romântica brasileira dos anos 50 - não a música derramada e sentimental, mas a moderna e inteligente, protagonizada por amantes sensíveis e adultos. E como cantavam! Dolores e Tito já se foram, mas Doris continua ativa e se apresentando, aos 85 anos. Não é mais a mulher mais bonita do Brasil, como era naquela época, mas sua voz está quase intacta até hoje, assim como seu estilo de cantar, anunciador da bossa-nova.

Aos que só conhecem a música brasileira da bossa-nova em diante, saibam que a dos anos 30, inteiramente diferente, já era sensacional. Para minha sorte, faço parte dos que ainda a escutam quase todos os dias e continuo me assombrando com a bossa novíssima de seus cantores e com a competência dos compositores daqueles sambas e marchinhas. A qualidade das gravações é comparativamente precária, mas, e daí? Fico imaginando supercantores como eles com a qualidade técnica de hoje - artistas como Francisco Alves e Mario Reis, cantando juntos ou separados (em certa época eles formaram uma dupla), o fabuloso Orlando Silva - talvez o melhor cantor do mundo em fins dos anos 30, melhor até do que Bing Crosby - e, claro, Carmen Miranda. Como uma espécie de brinde para os mais aplicados, eu recomendaria também qualquer coisa (ou tudo!) de Sylvio Caldas, Aracy de Almeida e Cyro Monteiro. Não preciso dizer que esta é apenas a minha lista. Outros fariam outra, completamente diferente - o que prova a riqueza de temas, estilos e vozes da música brasileira. Você pode se orientar por qualquer uma delas. A melhor ilha é a cercada de música por todos os lados.



Jornalista e escritor brasileiro, autor de Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova (Tinta-da-China)

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