Vender jogadores sub-21. A nova moda que já rendeu mais de 460 milhões aos clubes portugueses

O portista Fábio Silva foi o último atleta menor de 21 anos a emigrar neste século. A lista é cada vez maior e tem João Félix como o mais caro de sempre graças aos 126 milhões pagos pelo Atlético de Madrid. Cristiano Ronaldo é apenas o oitavo mais caro. Neste mercado dos mais jovens, Sp. Braga já faz concorrência a Benfica, Sporting e FC Porto.

Quando Luís Boa Morte e Simão Sabrosa deixaram o Sporting com apenas 19 anos, no final do século XX, rumo a uma aventura no estrangeiro, longe estaríamos de imaginar que, mais de 20 anos depois, esta seria uma tendência cada vez mais presente no mercado de transferências de futebolistas.

É que, mais do que comprar estrelas, os clubes mais ricos da Europa procuram adquirir atletas com potencial para atingirem o topo mundial. Foi assim, por exemplo, com Fábio Silva, o mais recente jovem emigrante português, por quem o Wolverhampton pagou 40 milhões de euros ao FC Porto.

Uma verba muito distante dos 2,4 milhões de euros que em 1997 o Arsenal pagou ao Sporting por Boa Morte, ou dos três milhões que, dois anos depois, o Barcelona depositou nos cofres de Alvalade para levar Simão Sabrosa. Estes são os registos mais longínquos de vendas de jogadores sub-21 por parte de clubes portugueses, algo que ao longo do século XXI tem sido mais habitual, como provam os 466 milhões de euros que os clubes portugueses receberam desde então por aceitarem vender os seus jogadores com idade inferior a 21 anos.

E no topo da lista está, logicamente, João Félix, que, aos 19 anos, após seis meses ao mais alto nível no Benfica (43 jogos e 20 golos), fez com que o Atlético de Madrid se perdesse de amores por ele, ao ponto de ter pago 126 milhões de euros para ter o avançado, que é considerado por muitos como a próxima grande estrela do futebol português.

João Félix é ainda hoje a quinta transferência mais alta da história do futebol, só atrás de Neymar (222 milhões de euros), Kylian Mbappé (145), Philippe Coutinho (145) e Ousmane Dembelé (138). Ou seja, o internacional português é o terceiro sub-21 mais caro de sempre, apenas superado pelos franceses Mbappé e Dembelé.

No contexto do mercado atual, quanto valeria então Cristiano Ronaldo aos 18 anos? É que foi com essa idade que o Sporting o transferiu para o Manchester United, depois de o treinador Alex Ferguson ter ficado deslumbrado com o que viu num jogo particular em Alvalade. Por CR7 o clube inglês pagou... 19 milhões de euros, em 2009, na altura um recorde para um miúdo daquela idade, que tinha feito 31 jogos oficiais e cinco golos na equipa principal dos leões.

Ronaldo é, ainda hoje, o oitavo jogador menor de 21 anos mais caro do futebol português. A lista liderada por João Félix tem agora Fábio Silva no segundo lugar, com os tais 40 milhões de euros pagos pelo Wolves, depois de ter contabilizado 21 jogos e três golos com a camisola do FC Porto.

A fechar o pódio deste ranking está o médio Renato Sanches, que, após um ano de alto nível no Benfica (35 jogos, dois golos), foi vendido ao Bayern Munique ainda antes de ser campeão da Europa pela seleção nacional em 2016, em França, e de ser eleito melhor jogador jovem desse torneio. Os alemães pagaram 35 milhões de euros ao agora jogador do Lille, clube francês para onde se transferiu depois de não se ter conseguido afirmar no Bayern.

Sp. Braga bate recorde com Trincão

Curioso é que a quarta maior venda de sempre de um sub-21 português foi feita nesta época pelo Sp. Braga, clube que tem apostado cada vez mais nos jovens que vai formando. Francisco Trincão, de 20 anos, foi garantido pelo Barcelona por 31 milhões de euros, após duas épocas em que nem sempre foi titular na equipa principal, pela qual fez nove golos em 48 jogos oficiais.

No total, são 14 os jogadores menores de 21 anos que foram vendidos este século por mais de dez milhões de euros. Assim, entre Trincão e Ronaldo surgem Gonçalo Guedes (30 milhões de euros), Nani (25,5) e Diogo Dalot (22). Após CR7 aparecem os nomes de Rúben Neves (17,9), Bernardo Silva (15,75), Bruma (13), Hugo Viana (12,75), Thierry Correia (12) e Pedro Neto (11).

Hugo Viana foi uma espécie de precursor destas vendas milionárias no novo século. Em 2002 tinha apenas 19 anos e era considerado o sucessor de Rui Costa na seleção. Foi lançado pelo romeno Laszlo Bölöni num jogo da Taça UEFA, em Alvalade, com os dinamarqueses do Midtjylland e depressa assumiu um papel de destaque na equipa leonina que viria a ser campeã nacional pela última vez na sua história. No final dessa época rumou ao Newcastle, onde acabou por não ser feliz.

Outros 12 futebolistas sub-21 foram transferidos por menos de dez milhões de euros desde o ano 2000. Hélder Postiga foi para o Tottenham por nove milhões de euros em 2003, mas o negócio mais surpreendente foi protagonizado por Bebé, um jovem avançado de 19 anos que iniciava a pré-temporada 2010-11 no V. Guimarães, que por ele tinha pago 50 mil euros ao Estrela da Amadora e, após uns jogos treino, foi vendido um mês depois ao poderoso Manchester United por 8,8 milhões de euros. Alex Ferguson estava convencido de que acabara de descobrir o novo Ronaldo... Desta vez enganou-se.

Acabado de sair dos juniores, Tiago Ilori trocou o Sporting por Liverpool por 7,5 milhões de euros em 2013 e, três anos depois, foi a vez de o Paços de Ferreira fazer a maior venda da sua história quando Diogo Jota rumou ao Atlético de Madrid por 7,2 milhões de euros, um valor mais alto do que aquele que o Barcelona pagou ao Sporting por Ricardo Quaresma em 2003 (6,5 milhões).

Na lista de 26 sub-21 vendidos para o estrangeiro constam ainda Bruno Jordão (5,3 milhões de euros), Gonçalo Cardoso (3), Júlio Alves (3), Rúben Vezo (2,05), Pelé (2), Ricardo Horta (1) e Salvador Agra (300 mil euros).

Benfica superou os 200 milhões em vendas

Numa altura em que o FC Porto procura vender os seus jovens, vencedores da UEFA Youth League em 2019, para equilibrar as finanças, é preciso ter em conta que os dragões estão a iniciar um processo que o Benfica começou em 2013 com a venda de Bernardo Silva ao Mónaco por 15,75 milhões de euros.

É óbvio que, por causa do efeito João Félix, os encarnados foram os que mais dinheiro arrecadaram desde então com jogadores sub-21, totalizando qualquer coisa como 206,75 milhões de euros. O Sporting encaixou desde o início deste século qualquer coisa como 96,25 milhões de euros, enquanto o FC Porto chegou agora aos 88,9 milhões, mas este valor pode disparar tendo em conta a possibilidade de transferir mais jogadores na atual janela de transferências.

O Sporting de Braga também se pode orgulhar dos 47,3 milhões de euros encaixados, tal como o V. Guimarães, que chegou aos 10,8 milhões. Seguem-se Paços de Ferreira (7,2), V. Setúbal (3,05), Boavista (3), Rio Ave (2,5) e Olhanense (300 mil euros).

Quanto aos clubes compradores, o Atlético de Madrid é o melhor cliente dos clubes portugueses, tendo já investido 135,7 milhões em menores de 21 anos, seguem-se Manchester United (75,3), Wolverhampton (57,9), Barcelona (40,5), Bayern Munique (35) e PSG (30).

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