Trump, o incivil

O modo como está a decorrer o atual processo eleitoral nos Estados Unidos confirma a profunda crise ética que vive a humanidade, como resultado da atomização dos indivíduos e da degradação do diálogo social provocada pela revolução tecnocomunicacional em curso, desmistificando a promessa de convivialidade dos primeiros anos da internet. Atesta a emergência daquilo a que o sociólogo da comunicação brasileiro Muniz Sodré chama de "sociedade incivil".

Para resumir, a "sociedade incivil" é caracterizada não apenas pelo exacerbamento do individualismo, mas pela polarização, pelo ódio e pelo mero falatório, isto é, um tipo de "comunicação" (as aspas são intencionais) em que cada um diz o que quer, não para iluminar os factos ou entender-se com o outro mas apenas para o censurar e, no limite, o derrotar. É a dupla "censura por volume": tem razão quem fala mais alto e tem mais laiques (espero que o editor seja indulgente e deixe passar este neologismo).

Não é de estranhar, por conseguinte, que o debate político - que é parte do diálogo social - esteja a perder qualidade em todo o mundo. De facto, hoje, a quantidade é que conta. Essa uma das razões da ascensão de líderes populistas, ignorantes e autoritários em vários países do mundo. Mostrando estar perfeitamente antenados com o "espírito do tempo", tais líderes assentam a sua estratégia de comunicação em dois ou três expedientes básicos: massificar por todos os meios as mensagens que lhes interessem, verdadeiras ou falsas; negar as verdades e as evidências que não lhes sejam favoráveis; impedir ou inviabilizar o debate, por todas as formas possíveis.

Donald Trump é um desses líderes. O seu primeiro debate ao vivo com o candidato democrata, Joe Biden, por exemplo, foi uma confirmação de que o diálogo tende a ser convertido numa espécie de fala de sentido único, visando não convencer o interlocutor ou principalmente, como neste caso, a plateia (afinal, tratava-se de um debate eleitoral), mas, sim, intimidar e derrotar o adversário através da gritaria, interrupções constantes e outros estratagemas, sem esquecer as falsidades sem conta.

Mas não é só isso. Anotem-se, abaixo, outras estratégias eleitorais do presidente dos Estados Unidos, assim como alguns factos ocorridos até agora na atual campanha eleitoral naquele país.
A primeira estratégia de Trump e dos republicanos, em curso há meses, é a tentativa de criar um clima de suspeição à volta das eleições, questionando, sobretudo, o tradicional voto pelos correios. O receio é que os propalados temores acerca de uma possível fraude, embora não tenham qualquer fundamento, visem, na verdade, tumultuar o ato eleitoral e, sobretudo, servir de pretexto para uma longa batalha jurídica no Supremo Tribunal, caso o atual presidente não seja reeleito. Em alguns estados onde as eleições antecipadas já começaram, tem havido incidentes com eleitores de Trump. A líder da Câmara de Deputados, a democrata Nancy Pelosi, tem criticado os jornalistas por não fazerem eco desses incidentes.

Outra estratégia, recorrente nas eleições americanas, são as manobras de vote supression realizadas, sobretudo, pelos aliados do presidente Donald Trump nos estados. Trata-se, em geral, de medidas administrativas para dificultar o voto das minorias, em especial os negros americanos. Os republicanos têm razões para recear esse voto, pois geralmente o mesmo é democrata. De notar que até quinta-feira 8 de outubro, mais de 6,6 milhões de pessoas já tinham votado, número que, de acordo com o Folha de S. Paulo, sugere um comparecimento recorde.

Aparentemente, a campanha de Trump está em grandes dificuldades. A estratégia de minimizar a covid-19, para focar na economia, fracassou redondamente, transformando as eleições quase num plebiscito sobre a gestão da pandemia. Por isso, o presidente tenta mobilizar o seu eleitorado mais fiel (e também mais sectário), permitindo ao seu adversário avançar para grupos e estados que, em 2016, foram decisivos para a sua vitória. São difíceis de entender, em particular, duas decisões que ele tomou recentemente: manifestar o seu apoio implícito a grupos da extrema-direita branca e não aprovar um pacote de auxílio aos mais afetados pela covid-19.

Outro facto, ocorrido há dois dias, foi a descoberta pelo FBI de um complô de um grupo extremista para raptar a governadora de Michigan, a democrata Gretchen Whitmer. Até ontem, quando terminei este texto, Trump não tinha feito uma declaração sobre o inusitado episódio. É inevitável: isso vai sobrar para ele.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21

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