Mais discos para a ilha deserta

Experimente escolher um suprimento de cantores e cantoras americanas - mas levando só um álbum de cada um deles.

Lembrei-me noutro dia de quando os jornais perguntavam às pessoas que discos ou livros elas levariam para uma ilha deserta. Por que deserta nunca entendi, se, tantas vezes, um livro poderá até melhorar se tivermos alguém com quem discuti-lo depois de lê-lo. E o que é melhor do que ouvir um disco a dois? Claro, a ilha deserta era um pretexto para que o sujeito apontasse seus favoritos em cada categoria. Só que, com a quarentena pela covid-19, cada um de nós está tendo, simbolicamente, de construir sua ilha.

Daí que, em coluna recente, listei os discos de música brasileira que eu levaria para a hipotética ilha. Alguns leitores estranharam a ausência de determinados artistas - mas deverão convir que a visão de um nacional a respeito da música de seu país não é necessariamente a mesma que predomina no estrangeiro. Além disso, nada mais pessoal e emocional do que a apreciação da música popular - gostamos de uma canção por motivos que não têm a ver com a música, e sim porque elas no remete a uma época feliz de nossa vida. E deixei claro que aquela era apenas a minha lista - qualquer outro brasileiro faria uma diferente, e que seria tão boa para ele quanto a minha para mim.

Hoje, resolvi fazer outra lista, mas de cantores e cantoras americanos dos anos 1940 e 1950 - a era clássica, pré-Elvis, das grandes vozes, dos cantores que ainda se vestiam nos alfaiates e não nas costureiras. E resolvi fazê-la do jeito mais difícil: escolhendo para levar para a bendita ilha um único álbum de cada artista - sem apelar para o recurso das obras completas ou das coletâneas tipo the best of. Como sabe muito bem o leitor, todos esses discos, gravados originalmente em vinil, tiveram edições em CD e devem estar hoje, na íntegra, na internet.

Bem, sem ordem de preferência - eu prefiro todos -, aí vão.

Sinatra? Songs for Swingin' Lovers, claro. Louis Armstrong: Satchmo Plays King Oliver. Bing Crosby: Bing With a Beat. Fred Astaire: The Astaire Story. Mel Tormé: Swings Shubert Alley. Nat King Cole: Just One of Those Things. Billy Eckstine: Basie/Eckstine, Inc.. Tony Bennett: The Tony Bennett-Bill Evans Album. Sammy Davis, Jr: Sammy Swings. Dick Haymes: Rain or Shine. Bobby Darin: At the Copa.

Billie Holiday: Lady in Satin. Ella Fitzgerald: 30 by Ella. Carmen McRae: After Glow. Sarah Vaughan: Vaughan and Violins. Doris Day: Duet (with André Previn). Peggy Lee: Dream Street. Anita O"Day: Drummer Man. Julie London: Sophisticated Lady. Dinah Shore: Dinah Sings, Previn Plays. Judy Garland: Alone. Rosemary Clooney: Blue Rose.

Quero crer que os nomes de muitos desses cantores sejam reconhecíveis hoje até pelos menores de 60 anos. Afinal, durante décadas, foram tão mundialmente famosos quanto, hoje, os grupos de rock. O mercado era tão forte que todos gravavam pelo menos dois álbuns por ano - um romântico, atapetado de violinos, e outro, jazzístico, dançante, mas ambos ideais para criar uma certa atmosfera entre duas pessoas. Além disso, alguns deles, como Frank Sinatra, Bing Crosby, Fred Astaire, Doris Day, Judy Garland e Julie London, eram também estrelas do cinema e faziam igualmente dois ou mais filmes por ano. Como a maioria desses filmes tinha suas bandas sonoras lançadas em discos, era comum, portanto, que o mercado recebesse três ou quatro álbuns de cada um a cada 12 meses. E, quantos mais saíssem, mais seriam devorados por seus adoradores.

Eles eram os verdadeiros cantores populares de seu tempo, astros dos grandes auditórios e frequentadores das paradas de sucessos. Por trás deles, no entanto, havia outra camada de cantores: os exclusivos e sofisticados, de público pequeno, atrações de minúsculos clubes noturnos, mas respeitados por não fazerem concessões ao gosto vulgar, nem estarem preocupados com a vendagem de seus discos. Na verdade, não faziam o menor esforço para gravar, daí a comparativa modéstia de suas discografias. Eram os cantores cult e, muitos deles, invejados até por seus colegas ricos.

Eis alguns e seus discos representativos, também sem ordem de preferência:
Johnny Hartman: The Voice That Is; Mark Murphy: Rah!; Bobby Troup: Bobby Troup!; Joe Williams: Something Old, New and Blue; Billy Daniels: You Go To My Head; Joe Mooney: Lush Life; Bill Henderson: Something"s Gotta Give; Matt Dennis: Plays and Sings; Jackie Paris: Songs by Jackie Paris; Joe Derise: House of Flowers; Bobby Short: Songs by Bobby Short; Lambert, Hendricks & Ross: Sing a Song of Basie.

E muitos, muitos mais.
June Christy: Something Cool; Jo Sttaford: Jo + Jazz; Teddi King: Bidin" my Time; Blossom Dearie: Soubrette Sings Broadway; Lee Wiley: Night in Manhattan; Chris Connor: A Portrait of Chris; Sylvia Syms: Lovingly; Jeri Southern: When Your Heart"s on Fire; Rose Murphy: Jazz, Joy and Happiness; Maxine Sullivan: Uptown; Annie Ross: A Handful of Songs; Mabel Mercer: Merely Marvelous. Idem.

Eram os cantores para quem os compositores gostavam de escrever e para quem ensinavam suas novas canções - para que estes as cantassem e mostrassem a outros como elas deveriam ser cantadas. E o mais incrível é que até estes génios secretos, que somente eu e alguns amigos conhecíamos no Rio - e cujos discos só conseguíamos comprar nas lojas mais remotas de Nova Iorque - estão hoje na internet, ao alcance de um clique!

Divirta-se e lembre-se: esta é apenas a minha ilha. Mas você é bem-vindo a ela.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova (Tinta-da-China).

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