PS e as presidenciais. O "poder" está com Marcelo, a ala esquerda com Ana Gomes

Cúpula socialista apoia a Marcelo, enquanto os nomes mais à esquerda do partido, com destaque para Pedro Nuno Santos, se perfilam ao lado de Ana Gomes.

Anunciada a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa começa agora o alinhamento final dos apoios ao atual Presidente da República. Nomeadamente no PS. Logo na segunda-feira, no mesmo dia em que Marcelo anunciou formalmente que se candidata a um segundo mandato, mais um nome veio juntar-se à lista de socialistas que já declararam o voto - ou manifestaram essa intenção - no chefe de Estado. Agora foi o ex-ministro e atual eurodeputado Pedro Marques - o nome escolhido por António Costa para encabeçar a lista do PS nas últimas eleições para o Parlamento Europeu - que veio dizer que "nestes tempos de incerteza" apoia a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda que reconhecendo a "competência, o mérito e o legado de Ana Gomes".

Entre os nomes que apoiam Marcelo Rebelo de Sousa contam-se o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, o primeiro socialista a vir dizer publicamente que votaria no atual Presidente - "se as eleições fossem amanhã". Este "amanhã" data de abril de 2019, foi dito então em entrevista ao jornal Público e reafirmado em maio deste ano.

Se a segunda figura do Estado vota em Marcelo, a terceira figura do Estado não quis precisar, mas foi dizendo, em entrevista à rádio Observador, que sabe em quem vai votar "e não será em branco" - mas não o divulga nem o divulgará, em nome do "especial recato" a que está obrigado como primeiro-ministro. O voto de António Costa fica, portanto, matéria para adivinhação. Mas, recorde-se que a complicada relação do PS com as presidenciais de janeiro próximo começou quando, em maio, o primeiro-ministro prometeu voltar à Autoeuropa na mesma altura de 2021, "no primeiro ano do segundo mandato" de Marcelo Rebelo de Sousa.

Já um nome bastante próximo do primeiro-ministro, Augusto Santos Silva, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, conta uma longuíssima lista de elogios ao Presidente da República - admitiu mesmo um apoio expresso do PS a Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais, manifestando-se contra essa hipótese em relação a Ana Gomes. Também o ex-ministro José António Vieira da Silva deixou expressa a preferência por Marcelo.

Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa e um dos nomes apontados à sucessão de Costa, é outro socialista que vai votar Marcelo nas próximas presidenciais. "Seria um candidato a quem daria o meu apoio", já tinha dito o autarca, que concretizou essa intenção de voto na reunião da Comissão Nacional do PS que deliberou sobre as eleições presidenciais de janeiro próximo.

Esquerda do PS com Ana Gomes

Do outro lado da corrida presidencial, com Ana Gomes, perfilam-se boa parte dos nomes associados à esquerda do partido. A começar pelo ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos - um preanunciado futuro candidato à liderança do partido - que avisou logo em julho, em entrevista à RTP, que não votaria num nome da direita: "Ou apoio um candidato da área do PS ou, não havendo um candidato da área do PS, votarei num dos candidatos da esquerda, nomeadamente no candidato ou candidata do BE, ou no candidato ou candidata do PCP."

"Não há nenhum problema com Marcelo Rebelo de Sousa, só que eu sou socialista", justificou o ministro, que foi bastante crítico da forma como a direção do partido conduziu todo o processo das presidenciais. Críticas repetidas na Comissão Nacional do PS que aprovou a moção que dá liberdade aos militantes socialistas para votar em qualquer candidato do campo democrático, e onde o atual ministro anunciou o apoio a Ana Gomes.

Pedro Nuno Santos não está sozinho. Pouco depois da reunião do PS, Duarte Cordeiro, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, disse no Facebook reconhecer "aspetos positivos no mandato do atual Presidente da República, designadamente o seu contributo para a estabilização da vida política nacional e o seu papel no combate a esta pandemia". "No entanto, entendo que não devo apoiar uma candidatura de direita, com uma visão política da sociedade distinta da minha. Votarei na candidata presidencial Ana Gomes", anunciou.

Tiago Barbosa Ribeiro, deputado e líder do PS Porto também escolheu o Facebook para declarar apoio à candidata socialista - "Questões como a defesa do Estado social, do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da regionalização, dos direitos sociais e laborais, da relação entre instituições, da defesa de uma Europa liderante num mundo multipolar, entre outras, traduzem alinhamentos nos princípios e diferenças que não se anulam (nem devem anular) entre esquerda e direita. Para mais num contexto de crise social e económica em que o próximo Presidente da República vai exercer o seu mandato." Ivan Gonçalves, atual deputado e ex-líder da Juventude Socialista, também está ao lado de Ana Gomes. Tal como Maria Begonha, a anterior secretária-geral da JS, que é também deputada.

Quem também declarou o seu apoio à antiga embaixadora foi Manuel Alegre, assim como o antigo ministro João Cravinho.

Bastante fora deste quadro - nos antípodas do PS mais chegado à esquerda - está Francisco Assis, um crítico da primeira hora da aproximação do PS ao Bloco e PCP, que viria a traduzir-se na geringonça, mas que foi também um dos primeiros nomes a apelar a uma candidatura de Ana Gomes. "Não há personalidade em melhores condições do que Ana Gomes para ser candidata à Presidência da República. E também acho que era bom que a esquerda democrática tivesse um candidato. Se se candidatar seguramente vou apoiá-la", disse logo em janeiro deste ano, em entrevista à Rádio Renascença, muito antes de Ana Gomes avançar.

Mas o apoio dos socialistas não se limita a Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa. João Ferreira, o candidato do PCP, também vai receber votos de deputados socialistas - será o caso de Isabel Moreira, que vê no candidato comunista "um democrata, avesso a populismos". E é também o caso de Ascenso Simões, que declarou o seu apoio no Facebook: "Ferreira tem uma visão da função presidencial muito semelhante à minha e o voto nesta candidatura é, também, uma apreciação do valor da pluralidade da nossa democracia nestes tempos duros."

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