Festa do Avante! "Houve muito alarido num copo de água"

À direita, as críticas aos três dias da Quinta da Atalaia continuaram mesmo depois de a festa ter acabado. Mas os politólogos ouvidos pelo DN consideram que o balanço até foi positivo porque mostrou que o PCP continua a conseguir a ser um partido superorganizado. "Houve muito alarido num copo de água", diz André Freire.

Com todas as ressalvas sobre os futuros resultados eleitorais do PCP, os politólogos tendem a desvalorizar qualquer impacto negativo da Festa do Avante! junto do eleitorado comunista, apesar de toda a polémica em torno da iniciativa. Há mesmo um consenso que o partido de Jerónimo de Sousa conseguiu voltar a mostrar "organização" e o seu lado "institucional" enraizado na democracia portuguesa. O problema, admitem, foi o caminho para aí chegar.

"O eleitorado do PCP vai lá ligar a estas coisas, não há custo político", afirma José Adelino Maltez sobre a polémica gerada em torno da festa, realizada em tempo de pandemia, sobretudo entre os comentadores políticos e os setores mais à direita. O politólogo sublinha que a Festa do Avante! é uma espécie de "romaria tradicional", onde se "cumpriram as regras" e onde a "mobilização exprime as crenças e a vida de acordo com os princípios do partido".

"O eleitorado do PCP vai lá ligar a estas coisas, não há custo político"

Com convicções mais à direita, José Adelino Maltez confessa que ele próprio foi à Quinta da Atalaia algumas vezes. "Senti-me muito bem enquanto cidadão que se tenha mantido a festa." E, para exaltar o valor da iniciativa que vai além da política, diz em tom irónico: "Se não organizassem a Festa do Avante!, arrancavam-nos um dedo."

Apesar de um balanço final positivo, António Costa Pinto considera que o PCP perdeu a "batalha inicial da comunicação" sobre a sua iniciativa, quando reagiu de uma forma muito defensiva e sublinhando o caráter anticomunista de todos os que levantaram objeções à sua realização. Devia, diz o politólogo, ter mostrado como crédito iniciativas já concretizadas durante a pandemia que correram bem, apesar de também polémicas, como o 1.º de Maio.

Mas quando se entra no campo eleitoral do PCP as coisas mudam. Para António Costa Pinto, "o efeito da polémica é despiciendo, porque o eleitorado comunista não é sensível a este tipo de coisas". Lembra até que a Festa do Avante! costuma ter uma forte participação de pessoas de toda a Área Metropolitana de Lisboa em número muito superior ao dos militantes comunistas, pelo que a baixa afluência, por exemplo, nos espetáculos, como foi relatado na comunicação social, se deve a isso mesmo.

"o efeito da polémica é despiciendo, porque o eleitorado comunista não é sensível a este tipo de coisas"

O discurso de encerramento de Jerónimo de Sousa acabou por atenuar, diz o politólogo, qualquer consequência negativa da festa no plano político, já que no sanitário "cumpriu todas as regras". "O líder do PCP manteve o partido demarcado do governo e deu a entender que não será pelos comunistas que poderá haver uma crise política. Este vai ser o tom do PCP no período subsequente, em que fará a demarcação pelas movimentações sociais sem quebrar as negociações para o Orçamento do Estado para 2021."

André Freire vai ao encontro dos argumentos do PCP sobre as críticas à Festa do Avante!. "Houve uma grande polémica por má vontade, numa campanha contra a realização do evento, com comparações injustas com outras iniciativas, numa tentativa de combater o PCP", sobretudo por parte dos partidos à direita. "Não houve festivais de verão porque os organizadores reconheceram que não eram capazes de garantir todas as condições exigidas pela DGS, o PCP conseguiu", afirma. O também politólogo sublinha que "se o PCP tem algum atributo específico é precisamente o da organização e de ser um partido institucional que cumpre as regras".

"Houve uma grande polémica por má vontade, numa campanha contra a realização do evento , com comparações injustas com outras iniciativas, numa tentativa de combater o PCP"

Os ataques da direita à iniciativa, considera, "não foram pelas condições sanitárias, foram pelas políticas". Um combate que visa "enfraquecer" o partido nas relações com o governo socialista. André Feire inscreve as críticas de Marques Mendes, antigo líder do PSD, à festa nesta estratégia.

As críticas da direita

No seu habitual comentário de domingo na SIC, Marques Mendes afirmou que, se a Festa do Avante! tivesse sido reduzida só ao comício final (só à parte política), toda a polémica que envolveu o certame "não teria existido".

Já Rui Rio fez um balanço negativo da festa, cuja realização já tinha censurado. Rui Rio considerou que "o PCP percebeu o erro que cometeu" ao organizar o evento neste período de pandemia.

"Faço um balanço negativo, e nem o Partido Comunista conseguiu mobilizar as pessoas que gostaria. Do lado da saúde pública, ainda bem, mas penso que o PCP terá percebido o erro que cometeu", disse o presidente do PSD, à margem de uma visita a uma escola de Vila do Conde, no distrito do Porto.
Rui Rio rebateu, ainda, as críticas que Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, fez, no domingo, no discurso de encerramento da Festa do Avante!, considerando que este "não esteve bem".

"Ouvi o secretário-geral do PCP dizer algo extraordinário, afirmando que queriam 'calar o Partido Comunista, mas não conseguiram'. Isso não faz sentido, o PCP diz o que quer, não tem de usar um festival de música para se exprimir politicamente. Ninguém o quis calar, o PCP não esteve bem", argumentou.

"O PCP percebeu o erro que cometeu"

O presidente dos sociais-democratas considerou que "é clara" a abertura do PCP para negociar o próximo Orçamento do Estado com o PS, mostrando-se expectante em ver como o "governo vai lidar com um rol de reivindicações" dos partidos da esquerda parlamentar. "O governo está a construir o Orçamento com o PCP e o Bloco de Esquerda. Os 900 milhões de euros que o Estado pode vir a pagar ao Novo Banco é uma matéria que os três têm de resolver, não é comigo", acrescentou Rui Rio.

Sobre a posição do seu partido no debate e votação do Orçamento do Estado, o líder do PSD está à espera de que "o documento, e as suas normas, seja apresentado na Assembleia de Republica para então dar a sua opinião e decisão".

O líder do CDS disparou contra o PCP pelas "atitudes de vandalismo" praticadas à porta da Festa do Avante! contra cartazes da JSD e da JP. Segundo Francisco Rodrigues dos Santos, ocorreu a destruição de um cartaz da Juventude Popular, que plasmava claramente as incongruências da realização da Festa do Avante! numa altura em que são pedidos sacrifícios aos portugueses. Defendeu que o relatório da DGS tornava "claro o risco de saúde pública iminente" com a realização da iniciativa.

"Em todas as reuniões que tivemos com o Infarmed, as recomendações dos especialista de saúde pública era evitar os eventos de transmissão por covid-19. E é evidente para todos nós que o Avante! foi avante, quando os grandes eventos, até grandes feiras, e que não estão regulamentadas e em que não é possível o seu regresso às suas atividades, como acontece com alguns festivais".

Para o líder do CDS, parece que para o governo de António Costa e para a DGS, "para os amigos, tudo pode acontecer e para aqueles que não são amigos aplica-se a lei com toda a sua dureza e com a sua força coerciva mais implacável".

Com Lusa

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