20 anos depois da estreia, Quaresma volta a Portugal para ser rei em Guimarães

À beira de festejar os 37 anos, o extremo português entra pela porta do castelo para se tornar a mais cintilante estrela do Vitória. Em 2000, o treinador Jean Paul lançou-o no futebol sénior, mas recorda como foi difícil lapidar o diamante que viveu os melhores anos sob o comando de Jesualdo Ferreira.

Vinte anos passaram desde o dia em que Ricardo Quaresma se estreou no futebol sénior. Foi a 27 de agosto de 2000 que foi lançado aos 16 anos na equipa B do Sporting num jogo com o Olhanense, a contar para a zona sul da então denominada II Divisão B.

Esse foi o primeiro de uma série de 752 jogos como futebolista profissional ao serviço da seleção A e de sub-21, mas também pelo Sporting, Barcelona, Chelsea, Inter Milão, Al Ahli, FC Porto, Besiktas e Kasimpasa. 20 anos depois da estreia, Ricardo Quaresma prepara-se para iniciar uma nova etapa no Vitória de Guimarães, onde a poucos dias de festejar os 37 anos promete voltar a espalhar magia nos relvados portugueses.

Para já, os vimaranenses já o catalogaram como rei da equipa orientada nesta época por Tiago Mendes. E, de facto, dificilmente o Vitória teve nos seus quadros um jogador com tanta reputação internacional, afinal Ricardo Quaresma, além de uma carreira recheada de títulos, tem uma enorme popularidade, como confirmam os 3,1 milhões de seguidores na rede social Instagram ou os 3,5 milhões de fãs no Facebook.

O DN voltou às origens daquele que no Dragão ficou conhecido como Mustang e Harry Potter. Jean Paul foi o treinador que lançou o jovem Quaresma naquele jogo do Sporting B com o Olhanense. Não consta que tenha sido uma estreia brilhante, até porque, além de não ter marcado, foi substituído aos 67 minutos e os leões perderam, em Alvalade, por 2-1.

Mais talentoso do que Cristiano Ronaldo

"O Ricardo Quaresma é bem capaz de ter sido o jogador mais talentoso que passou pelas minhas mãos, pela criatividade que tinha e pela capacidade de improvisar. E olhe que treinei o Cristiano Ronaldo", começou por dizer Jean Paul, de 68 anos, que atualmente está a trabalhar na área da formação do Benfica.

"Ninguém conseguia prever o que ele ia fazer a seguir. O que eu batalhei para que ele fosse mais objetivo para não se perder em fintas. Dizia-lhe para procurar a baliza e ele às vezes fintava um jogador e voltava para trás para o fintar outra vez", conta, admitindo que Ricardo Quaresma "sentia que sozinho conseguia resolver os problemas e não foi fácil torná-lo mais coletivo".

Jean Paul recorda que o quis a trabalhar com ele "para que o pudesse controlar". "Ele era muito jovem e, quando acabavam os treinos, ele esperava por mim para que eu o levasse no meu carro, pois ele morava perto de mim na margem sul do Tejo. E no tempo que demorava a viagem eu aproveitava para lhe fazer lavagens ao cérebro", conta em jeito de graça o treinador com uma vasta experiência na área da formação.

Ricardo Quaresma era, no fundo, um autêntico quebra-cabeças para os seus treinadores. "Tinha um feitio próprio dos génios. Não tinha regras e tivemos de procurar moldá-lo", sublinha.

Jesualdo, o treinador que o fez brilhar

A estreia na equipa principal do Sporting deu-se, curiosamente, no jogo da primeira jornada da época 2001-02, frente ao FC Porto, clube onde mais tarde alcançaria os maiores sucessos da carreira. Ricardo Quaresma foi lançado aos 22 minutos para o lugar do lesionado Sá Pinto e acabou por fazer a assistência para o único golo da partida marcado pelo romeno Marius Niculae.

De leão ao peito, fez 74 jogos e marcou dez golos, até que, em 2003, o Barcelona acertou a sua contratação por 6,35 milhões de euros, mais o passe de Fábio Rochemback, que se mudou para Alvalade. Só que no Camp Nou nunca se conseguiu impor sob as ordens do holandês Frank Rijkaard e, um ano depois, rumou ao FC Porto, envolvido na contratação de Deco pelos espanhóis.

No Dragão, viveu os melhores anos da sua vida. Foram quatro épocas de explosão de Quaresma, sobretudo quando passou a ser treinado por Jesualdo Ferreira. "Normalmente, um jogador com personalidade e carácter tão forte como o Ricardo não é fácil impor-se, pelo que o sucesso depende um pouco do perfil do treinador e não é por acaso que esteve a um grande nível com Jesualdo, porque, além da organização coletiva, é um técnico que também se preocupa em trabalhar o jogador, apoiando-o nas coisas boas e corrigindo-o com uma maior proximidade", explicou Jean Paul.

No verão de 2008, o FC Porto arrecadou 24,6 milhões de euros com a sua transferência para o Inter Milão, onde foi treinado por José Mourinho. Após seis meses difíceis (19 jogos e um golo), foi emprestado ao Chelsea, que se revelaria uma experiência ainda pior. Em 2009, regressou ao Inter para fazer parte da equipa que conquistou a Liga dos Campeões com Mourinho, mas Quaresma voltou a ter pouca participação na equipa (apenas 13 jogos) e foi então que foi vendido ao Besiktas, por 7,3 milhões de euros.

Na Turquia, tornou-se um ídolo dos fanáticos adeptos do clube de Istambul, mas após duas temporadas decidiu, surpreendentemente, ir para o Al Ahli do Dubai. Só que ainda era cedo para ir ganhar dinheiro e por lá ficou pouco tempo. Regressaria ao FC Porto para mais duas épocas que foram um pouco mais pálidas, mas durante as quais recebeu o carinho dos adeptos, apesar de alguns problemas com o treinador Julen Lopetegui.

Professor para os mais novos que arrastará multidões

Os caminhos do futebol levaram-no de volta o Besiktas, onde foi rei e senhor durante quatro épocas, até ser surpreendido com a decisão do presidente em dispensá-lo. Apesar de os rivais quererem contratá-lo, optou pelo Kasimpasa para não passar a ser odiado no Besiktas. Agora, está de volta a Portugal para representar o V. Guimarães.

"Não me surpreende que, a poucos dias de fazer 37 anos (a 26 de setembro), que se mantenha a jogar ao mais alto nível, pois hoje em dia há um conjunto de meios que permitem aos jogadores maior longevidade", assumiu Jean Paul, admitindo que a contratação de Ricardo Quaresma pelos vimaranenses tenha o propósito de "haver uma referência no plantel para ajudar os mais novos", pois têm sido muitos os jovens que têm chegado ao Berço.

Na prática, de acordo com Jean Paul, o extremo "pode assumir um papel de professor, colocando a sua experiência e maturidade ao serviço da equipa para ajudar o desenvolvimento dos mais jovens". Mas o papel de Quaresma pode ser igualmente o de cativar ainda mais os adeptos do V. Guimarães, afinal "trata-se de um clube que arrasta multidões", razão pela qual o antigo técnico do Sporting admite que "Ricardo vai ligar-se bem com os adeptos muito fervorosos".

O facto de o Vitória ser treinado por Tiago Mendes, com quem Quaresma jogou na seleção nacional, poderá ter sido importante para esta sua decisão de se juntar à equipa, razão pela qual Jean Paul está convencido de que o técnico vimaranense "vai tirar o máximo de rendimento" do extremo, admitindo até que possa ter outras funções em campo: "Não me surpreenderia se o Quaresma jogasse mais em zonas interiores para aproveitar a sua velocidade de decisão, uma vez que a velocidade de deslocamento não deverá ser a de outros tempos."

Para já, é certo que Ricardo Quaresma vai usar a camisola número 10 do Vitória de Guimarães, que será o nono clube de uma carreira profissional de 20 anos. Será mais um capitulo de um dos mais talentosos futebolistas que o futebol português já produziu.

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