Sete ministras, sete (e duas chamam-se Fatima)

Mesmo quem pouco sabe de árabe conseguirá identificar com facilidade vários nomes de mulher na lista dos ministros marroquinos a quem Mohammed VI deu ontem posse, até porque duas delas se chamam Fatima, nome da filha do profeta e muito popular no mundo islâmico. Assim, além de Fatima Ezzahra Mansouri, ministra da Gestão Territorial e do Urbanismo, e de Fatima-Zahra Ammor, ministra do Turismo, há que contar também com Nadia Fetah Alaoui, Nabila Rmili, Leila Benali, Aouatif Hayar e Ghita Mezzour. No caso de Fetah Alaoui e de Rmili, as pastas que assumem são de especial importância, pois a primeira terá a responsabilidade pela Economia e Finanças de um país que joga forte na diversificação do tecido produtivo (é a quinta economia de África) e a segunda terá sob sua responsabilidade a Saúde numa altura em que a pandemia dá finalmente sinais de ceder, com a vacinação a avançar, depois de um duro ano e meio.

À frente do governo está Aziz Akhannouch, um político com experiência ministerial e também um dos empresários mais bem sucedidos do reino. Não foi surpresa a sua nomeação depois de umas legislativas que resultaram numa estrondosa derrota do Partido da Justiça e do Desenvolvimento, islamita, que há dez anos fornecia os primeiros-ministros a Marrocos, sempre sob a vigilância de um rei que assume o papel de garante da estabilidade. Desta vez, depois de conhecidos os resultados das eleições de 8 de setembro, um governo de coligação sob a liderança da Reunião Nacional dos Independentes surgia não só como a solução óbvia dada a nova composição do parlamento, como por ser bem mais em consonância com as ambições modernizantes do monarca. Aliás, não é segredo a proximidade de há muito entre Akhannouch e Mohammed VI.

Nação de sucesso crescente nos últimos anos, mas com muitos desafios pela frente (por exemplo, fronteira fechada com a Argélia desde 1994 - e agora corte de relações decidido por Argel - custa vários pontos percentuais ao PIB de ambos os países), Marrocos desde a independência em 1956 tem sido um membro do campo ocidental. E é premiado por isso de várias formas, como a estreita parceria com a União Europeia ou, recentemente, o reconhecimento pela América da soberania sobre o Sara Ocidental, as províncias do sul que continuam disputadas pelos independentistas da Polisario, apoiados pela Argélia. Na enésima tentativa de solução pacífica para uma disputa que vem de 1975, a ONU acaba de nomear como negociador Staffan de Mistura, um diplomata italo-sueco.

Mas apesar da tensão persistente com a Argélia (a Guerra das Areias foi em 1963) e da importância para a identidade marroquina de que se reveste a antiga colónia espanhola, a realidade deste país de quase 40 milhões de habitantes tem de ser tida em conta noutras dimensões, como o dinamismo da sua sociedade civil em geral e a emancipação feminina em particular. E daí a relevância das sete ministras (mesmo que seja importante sublinhar a continuidade de Nasser Bourita nos Negócios Estrangeiros e de Abdelouafi Laftit no Interior), pois testemunha a tal realidade de Marrocos que nos passa despercebida, mesmo sendo o vizinho do sul. Em termos de igualdade de género, a Tunísia tem dado cartas no Magrebe, e agora até tem uma primeira-ministra, mas Marrocos evolui na matéria e rapidamente. E recordo que já em 1984, quando Nawal El Moutawakel se tornou campeã olímpica, a festa nacional em torno da atleta marroquina deixou claro a mentalidade do povo. Aliás, El Moutawakel mais tarde até foi ministra.

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