O anúncio da crise e o centralismo

Os avanços e os recuos negociais desta semana em vários dossiês, a opereta bufa do IVA da eletricidade e a chegada em força da propaganda política vestida dos chavões "responsabilidade" e "coligações negativas" anunciam um novo governo de gestão.

1 Nos últimos quatro anos tivemos uma espécie de governo de gestão. Depois do cumprimento dos acordos de reposição de rendimentos entre PS, BE e PCP rapidamente se percebeu que não era possível qualquer tipo de entendimento entre os três partidos sobre questões relevantes. Os exemplos são inúmeros, mas basta lembrar o desacordo absoluto em temas como a Segurança Social ou a legislação laboral.

Já aqui o escrevi muitas vezes, mas estranho seria que tivesse acontecido o contrário. As diferenças entre os três partidos são inultrapassáveis. Há um mundo de convicções ideológicas e políticas que os divide.

Como é suposto um governo governar e implementar um programa, muito poucos terão ficado surpreendidos com a falta de acordo entre os ex-geringonços: se já tinha sido impossível entenderem-se quando tinham um acordo escrito - mesmo que em bases reduzidas -, o que seria sem qualquer tipo de entendimento.

Só que aqui entra um pequeno detalhe: o resultado eleitoral. Os eleitores quiseram um governo liderado pelo PS, mas que o obrigasse a obter acordos com os outros partidos. O problema é que nem o BE nem e o PCP rezam pela mesma cartilha do PS, nem o PSD pode deixar de se assumir como alternativa - os riscos para o sistema se assim não o fizesse seriam enormes.

Os avanços e os recuos negociais desta semana em vários dossiês, a opereta bufa do IVA da eletricidade e a chegada em força da propaganda política vestida dos chavões "responsabilidade" e "coligações negativas" anunciam um novo governo de gestão. Se para a aprovação do primeiro Orçamento foi um drama destes, imagine-se o que será a sessão legislativa com tantos casos de mais do que previsível dissensão entre os vários partidos.

A dramatização que o PS fez em redor do IVA da eletricidade foi apenas um aperitivo para o banquete propagandístico socialista dos próximos tempos. Quem não votar nas propostas do governo será um irresponsável (o PS a fazer de partido responsável, sobretudo no tema IVA da eletricidade, lembra a frase célebre de Jorge Coelho: há muita falta de memória na política e nos políticos); se o PSD, o BE e o PCP votarem juntos alguma medida que achem boa para o país, ou chumbem outra que achem má, estarão a fazer uma coligação negativa. Estará de volta o "deixem-nos trabalhar" de Cavaco Silva.

O PS sabia perfeitamente o que se ia passar nesta discussão, como sabe o que se vai passar a seguir: a aprovação das principais medidas vai depender do medo que consiga criar às oposições, sobretudo à do BE e do PCP. Pois é, as notícias da morte do voto útil eram claramente exageradas e a possibilidade de os socialistas culparem os seus antigos parceiros por uma crise política estará sempre na agenda. Mais, a gestão do timing da crise será a própria agenda.

E, claro, é o PS que comanda o tempo e isso, como em tudo na vida, é quase tudo. Como os cidadãos julgarão os movimentos dos partidos, como avaliarão os verdadeiros responsáveis por uma eventual crise são outros quinhentos.
O PSD terá de se manter no rumo que parece ter escolhido, o de provar que o PS não consegue entender-se com os antigos parceiros, logo não é capaz de assegurar um governo sólido. Para isso é preciso deixar bem claro, e repetir as vezes que forem precisas, que António Costa foi claro em relação a quem eram os parceiros preferenciais.
Um governo que irá governar em função da escolha do tempo certo para provocar uma crise não são boas notícias, mas é o que iremos ter.

2 Não estou certo, longe disso, se a melhor solução para o alargamento do metro de Lisboa será a que está em curso. Sei, porém, que não devem ser os deputados na Assembleia da República a decidir qual deva ser a opção e muito menos que bloqueiem decisões já tomadas, com financiamento negociado (através de fundos comunitários, diga-se) por quem conhece o terreno e as implicações.

Pelo menos, esta inconcebível deliberação dos deputados teve um mérito: mostrar que a pulsão centralista está bem viva. E sim, é mentira que as estruturas partidárias queiram descentralizar, quanto mais regionalizar. Não querem saber de quem está no local, de quem conhece os problemas das populações ou de decisões que tenham em conta os verdadeiros interesses das pessoas a que dizem respeito. O sonho desta gente é poder decidir rigorosamente tudo desde o seu gabinete em Lisboa. Localização de escolas na Gafanha da Nazaré? Os deputados decidem. Instalação de uma conduta de água em Alter do Chão? Os deputados irão pensar. Centro de dia em Vieira do Minho? Os deputados tratam disso.

Nem Lisboa escapa à fúria centralista. Aliás, também não deixa de ser bom que isto se passe em Lisboa, para que o resto do país fique ciente de que a fúria centralista pouco tem que ver com a cidade e os seus habitantes. É uma coisa bem mais funda, entranhada no poder central, o medo de perder o poder absoluto, a convicção de que "eles" é que sabem.

Ainda estou para perceber como é que os partidos que colaboraram nesta farsa podem defender a descentralização, mas de todos o que mais me surpreende é o PCP. Os comunistas têm sido consistentes na defesa da regionalização e agora apoiam uma medida que é o exato oposto do que sempre defenderam.
Para piorar tudo, um debate sobre uma linha de metro de uma cidade fez-se em sede de discussão de Orçamento do Estado. Tudo demasiado mau.

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