O exercício internacional do racismo

A independência dos EUA foi decisão de homens que, como diria claramente Thomas Jefferson, assumam o direito à revolta sem assumirem serem eles próprios a longa mão europeia lançada sobre os vencidos, e extintos, aborígenes. De facto, a limpeza do território foi um exercício da diferença de raças, depois assente na importação de negros escravos, cujo estatuto mudaria pela guerra entre norte e sul, sublinhado pelo assassínio do vencedor Lincoln. Referindo-se por então à Europa na terceira pessoa, era como que pressionado pelo separatismo o Ocidente, até que as duas guerras mundiais exigiram as alianças. Daqui em diante, até ao anticolonialismo do século XX, o modelo colonial foi intitulado por Rudyard Kipling como sendo o "fardo do homem branco".

Foi este fardo do império euromundista que levou o general Smuts, criador do sistema de mandatos, com vantagem da África do Sul, mas profundamente racista, a avisar: "Existem 180 milhões de pretos na África, e perto de nove milhões na União... de qualquer modo, brancos e pretos têm de encontrar uma maneira de viverem juntos neste continente. Se não, teremos de novo a história da Índia: the whites will be the ones to go." A santidade de Mandela amenizou a sociedade da África do Sul, mas o número de guerras multiplicou-se, com gravidade, para todas as antigas colónias europeias, não apenas as de etnia africana, mas também várias orientais. Os movimentos de libertação levaram a atual União Europeia, que não perdeu a memória de ter sido a "Luz do Mundo", a meditar no aviso de Anatole France (1905) contra "la folie colonial", que fez de África o último continente a terminar com o domínio europeu, reformulando politicamente a Europa Ocidental: atenuar as incompatibilidades nacionais, incluindo racionalizar diferenças e conflitos históricos, manter as diferenças culturais, não enfrentar esquecimentos de que cada etnia é o resultado histórico de uma fusão de diferenças, embora por vezes como que aristocratizando a pretensa origem de um grande povo identificado.

Ora, neste século de globalismo de ruturas identificadas, parece avultar que não é apenas a raça diferente que cria ruturas, são antes questões de história colonial, de identidade cultural, incluindo diferenças religiosas, e tendo agora como causa mais grave o problema das migrações causadas por pessoas que fogem dos riscos de origem e buscam um futuro num destino que mal conhecem. Os Estados procurados, tendo experiência do conflito entre deveres humanitários e incapacidade de regular a admissão sem riscos, deixam todavia de invocar de regra o racismo, para discutirem sobretudo culturas, valores e emoções, como identificou Corentin Brustlein, especialista de estratégia terrorista. O que parece evidente é que continuam a dar supremacia, no exame das imposições, às identidades nacionais, não invocando o racismo mas antes o perigo de os emigrantes, pela sua cultura, afetarem a identidade da cultura nacional. Em França, que acarinha a memória de ter sido a luz do mundo, é corrente um exemplo em relação com a cultura muçulmana que nacionais temem ser uma causa de risco para, designadamente, problemas sociais.

Os debates mais orientados deixaram de invocar a qualidade de pessoas em busca de trabalho, ou simplesmente emigrantes, mas como muçulmanos, o que permite não discutir a origem diferente dos Estados de onde procuraram sair. Curiosamente, não é qualquer posição crítica em relação aos valores religiosos, que não são os mais invocados no destino que os emigrantes procuram, é o que talvez chamamos vida habitual, que não impede que seja o espírito da laicidade que deixa de estar presente, e que noutros países europeus é considerado.

Anda citado o conselho atribuído a um holandês, não identificado pela imprensa, que será o seguinte: "Se não está preparado para se conformar com os nossos valores e obedecer às nossas leis, o conselho mais oportuno é: procure um país onde vos sintas como em vossa casa." De facto, é o espírito do racismo que parece contribuir para a linguagem que evite a palavra que provoca as ruturas do globalismo, mas se não evita tais ruturas, não evita as questões inquietantes que se traduzem na entrada de inidentificações agudas de violação das leis de segurança. Não pode ignorar-se que a revogação legal da escravatura, sobretudo para africanos, um povo que exige deveres a todos os antigos soberanos, como os que o foram no extinto império euromundista, ou ao povo dos Estados Unidos, novo desde que a guerra civil levou a extinguir os nativos, depois a escravatura do sul, igualdade legal que talvez tenha inspirado o assassínio de Lincoln, e fez dos factos sociais um drama discriminatório com várias vítimas. Vencida a pandemia, é de esperar que os vivos, de qualquer das etnias, assumam que a história justa não é sempre enriquecida apenas pelos soberanos.

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