O arquiteto que vai ao fundo do mar imaginar os seus oceanários

Quando o DN perguntou a Peter Chermayeff em 2018, de volta a Portugal duas décadas depois da inauguração do seu Oceanário em Lisboa, o porquê da sua relação criativa com o mar, o arquiteto respondeu: "É uma viagem pessoal que em certa medida começou na minha infância, ao crescer em Cape Cod, no Massachusetts, perto do mar. Cresci exposto a tudo isto: peixes, pesca, brincar ali, velejar. E fui criado num mundo artístico, por um pai arquiteto, professor, designer. Fui seu estudante em Harvard, o que foi só por si toda uma experiência. Ele era muito duro comigo, mas era duro com toda a gente."

O pai era Serge, nascido na Rússia mas homem do mundo, que escolheu a América depois de ter vivido em Londres, onde nasceu Peter (em 1936) e também outro Chermayeff que se tornou famoso, Ivan, que morreu em 2017 e é autor tanto do logótipo da Mobil como de um painel de azulejos no Oceanário que foi construído para a Expo"98. A família Chermayeff tinha entre os amigos nos Estados Unidos Walter Gropius, o arquiteto alemão fundador da Bauhaus, de quem Peter diz ter sido como um avô para ele e o irmão.

"Peter Chermayeff é na minha opinião "o" arquiteto mundial dos Aquários. Não terá certamente sido quem fez o maior número, mas foi quem fez os melhores e mais inovadores. O primeiro aquário de grandes dimensões do mundo foi o de Boston, aberto em 1969 e de sua autoria. Desde aí, não parou", afirma João Falcato, CEO do Oceanário de Lisboa, hoje gerido pela Fundação Oceano Azul, criada pelo grupo Jerónimo Martins, que recebeu do Estado a concessão por um período de 30 anos.

"O que diferencia os aquários de Chermayeff é o seu conceito, a existência de um tema e todos os detalhes estarem pensados na perspetiva da experiência do visitante e do bem-estar dos animais. Não conheço nenhum outro arquiteto que tenha criado experiências de partilha com o meio marinho tão únicas como ele, todas elas diferentes. Os Aquários de Peter são criados com base nas emoções que provocam em quem os visita, através da sua aparente simplicidade, tornando-os quase eternos, funcionando tão bem hoje como funcionavam há 20 anos. Só assim se justifica o Oceanário de Lisboa ter sido considerado o melhor aquário do Mundo, mais de 20 anos depois da sua criação, sempre fiel ao seu conceito original. Como todas as obras-primas, é extremamente fácil estragá-las quando as tentamos modernizar", sublinha João Falcato, que antes de assumir tarefas de gestão trabalhou como biólogo marinho.

Peter Chermayeff tinha 26 anos quando fundou com um grupo de gente hipertalentosa, incluindo o irmão Ivan, a Cambridge Seven Associates. Conceber aquários não era uma vocação de juventude mas foi-se tornando a sua vida, tal como fazer mergulho. Esta última parte tornou-se essencial para o trabalho, pois, como o próprio disse na tal entrevista ao DN, "só quando se tem uma ideia do que é a vida na água se pode reproduzi-la num edifício. Ajudou-me muito. Nunca fui um mergulhador muito aventureiro, de ir muito fundo, mas fui a sítios fantásticos, como o Blue Corner, em Palau".

A estrutura em Lisboa continua fiel ao seu criador, garante João Falcato: "Apesar do Oceanário de Lisboa ter sofrido grandes melhorias ao longo dos seus mais de 20 anos de existência e 25 milhões de visitantes, o conceito original foi sempre reforçado e o Peter mantido a par e envolvido no obrigatório processo de renovação. É essa provavelmente a grande inovação do Oceanário de Lisboa. Foi onde Chermayeff reuniu as aprendizagens de construção de muitos outros aquários por todo mundo e as reuniu de forma única criando, na minha opinião, a sua obra-prima."

O CEO do Oceanário de Lisboa e o arquiteto cultivam uma relação próxima. E que tem beneficiado o projeto. Diz o biólogo marinho que, "ao contrário da grande maioria das suas outras obras, o Oceanário manteve o Peter e as suas ideias, conceitos e ensinamentos, sempre ligados à instituição (a renovação do átrio do Oceanário de 2018 é obra sua). Este relacionamento de mais de 20 anos levou a termos uma relação de amizade e respeito que muito valorizo. Conhecemo-nos bem, a forma de sermos, a forma de trabalhar, o que nos permite reunir o brilhantismo da arquitetura com a eficiência de operação de forma única. Com mais de 80 anos, o Peter é a criança mais velha que conheço. Tem uma imaginação, uma energia e uma vontade de fazer acontecer que só é normal em pessoas com metade da sua idade. É um fantástico contador de estórias e um apaixonado pela vida subaquática e sua conservação".

Cem anos mais antigo do que o Oceanário de Lisboa é o Aquário Vasco da Gama, em Algés. João Falcato diz ser possível "ver continuidade na inovação e liderança que o Aquário Vasco da Gama representou certamente no seu tempo e o que a construção do Oceanário e a Expo"98 representaram cem anos depois. O Aquário Vasco da Gama é hoje o Aquário mais antigo do mundo ainda em operação. É uma joia única que deve ser acarinhada como tal, visitada e conhecida por todos os que puderem".

Não sei se Peter Chermayeff alguma vez visitou o aquário fundado no reinado de D. Carlos, no quarto centenário da viagem marítima para a Índia, mas é evidente que o navegador que lhe dá nome também o influenciou no Oceanário. "O António Mega Ferreira e o Cardoso e Cunha foram ter comigo a Boston. Eles trouxeram-me para começar o trabalho, ver o sítio da Expo, perceber o planeamento que estava a ser feito. Começámos a trabalhar com algo que enquadrasse a história de Portugal e os oceanos. Cheguei rapidamente à conclusão de que devíamos fazer um aquário que celebrasse toda a terra como um só oceano, porque o Vasco da Gama foi do Atlântico ao Índico e era claro que tudo estava ligado. Escolhemos essa ideia", contou ao DN.

Mais Notícias