Eras sem fim

Quando morre uma estrela do cinema internacional, diz-se que é o fim de uma era. Mas, o que fazer com os gloriosos sobreviventes daquela era?

Em 1948, Tony Curtis e Walter Matthau eram dois jovens atores de Nova Iorque que sonhavam com o cinema. Tony, muito bonito, foi convidado a fazer um teste no estúdio da Universal, em Hollywood. Walter, mais talentoso, mas feio, ficou para trás, torcendo pelo amigo. Três meses depois, Tony voltou a Nova Iorque para pegar nas suas coisas e radicar-se na Califórnia. Da janela do táxi que o trazia da estação, viu casualmente Walter a passar pela rua. Pôs a cabeça para fora e, em vez de dizer-lhe que passara no teste e a Universal o contratara por sete anos, gritou: "Walter! Dei uma queca com Rhonda Fleming!".

A ruiva e bela Rhonda Fleming, tão jovem quanto eles, já era então uma estrela do cinema. Mostrava-se tão bem nos filmes coloridos que a tinham cognominado de "Rainha do Technicolor". Pena que só lhe dessem papéis bobos, em filmes ridículos como Escrava e Rainha e Piratas Marroquinos, e ela, boa atriz em potencial - boa cantora, também -, nunca teve o prestígio que merecia. A própria Rhonda um dia queixou-se: "Nunca fiz um filme como Casablanca." Em 1948, no entanto, namorá-la era como acertar na lotaria ou ganhar três Óscares na mesma noite. Pois isso aconteceu com Tony Curtis. Mas, como se sabe, a fila anda e Tony Curtis e Walter Matthau já morreram há muito tempo. E Rhonda Fleming, aos 97 anos, continua viva, ativa e em Hollywood. Talvez ainda ruiva.

Há dias, na morte de outra antiga estrela do cinema, Olivia de Havilland, famosa por E Tudo o Vento Levou, aos 104 anos, os obituários falaram, como sempre, no "fim de uma era". É uma expressão quase inevitável para declarar que, com a perda dos seus nomes mais marcantes, um grande período da história parece ter acabado. Com isso, a cada morte de uma estrela do passado, a "era do cinema" chega repetidamente ao fim. Pois, apesar de mortes recentes, como as de Doris Day - com a qual, juro, ainda não me conformei - e de pequenas deusas como Marie Laforêt (de La Fille aux Yeux d'Or, 1961), Sue Lyon (de Lolita, 1961) e Honor Blackman (de Goldfinger, 1963), a dita era recusa-se a terminar.

Neste momento, além de Rhonda Fleming, outras grandes estrelas daquela época continuam por aqui, espero que lúcidas e saudáveis. Eva Marie Saint (de Há Lodo no Cais) está com 96 anos; Angela Lansbury (de O Enviado da Manchúria), com 95; Gina Lollobrigida (de Pão, Amor e Fantasia), com 93; Jane Powell (de Sete Noivas para Sete Irmãos), e Vera Miles (de O Falso Culpado), com 91; Joanne Woodward (de As Três Faces de Eva) e Tippi Hedren (de Os Pássaros), com 90.

Na categoria juniores, Angie Dickinson (de Rio Bravo), Carroll Baker (de A Voz do Desejo) e Leslie Caron (de Um Americano em Paris, chegaram aos 89; Monica Vitti (de A Aventura), aos 88; Kim Novak (de Vertigo - A Mulher Que Viveu Duas Vezes), aos 87; Sophia Loren e Shirley MacLaine, aos 86; Julie Andrews e Brigitte Bardot, aos 85. Todas são de um tempo em que as estrelas do cinema nunca se deixariam ser fotografadas de roupão e papelotes em casa e muito menos sairiam à rua sem maquilhagem para fazer compras no supermercado. Aliás, as estrelas do cinema não faziam compras em supermercados - os estúdios, que as queriam o dia inteiro diante das câmaras, inclusive aos sábados, supriam as suas despensas. Diz-se da estrelíssima do cinema mudo, Gloria Swanson, que, no seu apogeu na MGM, nos anos de 1920, nunca abriu uma porta - as portas abriam-se sozinhas quando ela se dignava a passar por elas, inclusive a da casa de banho.

E os homens? No outro dia perdemos Kirk Douglas - também aos 104 anos e também prematuramente. Mas, para que não se diga que a imortalidade contempla apenas as mulheres, há muitos astros que sobreviveram a si mesmos e continuam, fagueiros e pimpões, entre nós: Mel Brooks e Tony Bennett, aos 94 anos; Sidney Poitier e Harry Belafonte, aos 93; Christopher Plummer (de Música no Coração), Clint Eastwood e Gene Hackman, aos 90 - aliás, Sean Connery também completará 90 anos no próximo dia 25. Entre os miúdos desta turma, Jean-Louis Trintignant (de Um Homem e Uma Mulher) e Robert Duvall (de Apocalypse Now), estão com 89; Joel Grey (de Cabaret - Adeus Berlim), com 88; Jean-Paul Belmondo e Michael Caine, com 87; Roman Polanski, com 86; Woody Allen e Alain Delon, com 84; Robert Redford e Warren Beatty, com 83. E ainda há outros, que ficam no berçário.

Mas o meu favorito entre os atores é Norman Lloyd, um nome menos conhecido do público, mas imortal entre os fãs de Alfred Hitchcock. Ele interpretou o vilão nazi que despenca da Estátua da Liberdade no filme Sabotagem, de 1942 - o herói, Robert Cummings, tenta salvá-lo, segurando-o pela manga do casaco, mas as costuras deste desfazem-se e ele cai lá de cima. Norman Lloyd fez pequenos, mas importantes papéis em outros filmes de Hitchcock, principalmente para a televisão. Pois está hoje com 106 anos e, acredite ou não, até ao ano passado continuava trabalhando. E, entre as atrizes, a minha favorita só pode ser a nossa amiga Fernanda Montenegro, que emplacará 91 no próximo 16 de outubro e, sempre que falo com ela, saio com a certeza de que sobreviverá ao mundo.

Algum dia, alguém escreverá outro artigo como este, também para contestar o conceito do "fim de uma era" - só que citando os astros e estrelas que estão hoje na casa dos 70. As eras não têm fim.

Jornalista e escritor brasileiro

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