Desconfinar com festivais e touros, mas sem bola?

Itália, Espanha e outros países europeus começam a ficar, de novo, muito preocupados com o nível de contágio por covid-19. À medida que as populações desconfinam, empurradas pelo calor do verão e pela necessidade psicológica de voltar a ter uma vida (quase) normal, o coronavírus ressurge com novas forças. Há já quem apelide situação de segunda vaga da pandemia.

Em Portugal, a situação regista uma melhoria contínua, mas o perigo não desapareceu. À medida que o verão aquece, os ajuntamentos de jovens aumentam e agosto é um mês decisivo para perceber como evoluiu a crise sanitária, ao mesmo tempo que muitos portugueses querem ir para a rua, para as praças, esplanadas ou praias. Agosto é também o mês dos emigrantes e basta circular nas estradas nacionais e ir à praia, de mar ou de rio, para perceber que muitos já chegaram para matar saudades dos seus familiares e, como é habitual, trouxeram a família para passear na terra natal. O importante é que as férias não se transformem num pesadelo para muitos e para o SNS.

A luta não acabou e continuar a dar o exemplo é meio caminho andado para conter a pandemia em Portugal. A economia precisa de ser desligada do ventilador para respirar, sozinha e saudável, mas não pode ser à força. Desligar muito antes do tempo certo tem fortes riscos para o doente.

O verão é também sinónimo de festivais, um negócio que cresceu em Portugal nos últimos anos e que passou, inclusive, a atrair público internacional por mérito dos cartazes e das organizações exemplares. Nos últimos anos, os festivais de verão viraram uma espécie de catarse, para miúdos e graúdos, depois de um ano inteiro de trabalho. Mas há festivais e festivais.

A Festa do Avante! é muito mais do que um festival de música, é um manifesto político do Partido Comunista Português. 
É um evento cuja edição de 2020 continua a ter a capacidade de levantar forte contestação. Porquê? Porque habitualmente junta cem mil pessoas e esse não parece ser um número prudente para um ajuntamento, seja ele de que cor partidária for. Neste ano, a organização ainda não revelou quantos bilhetes vão ser vendidos. Certo é que de dia 4 a 6 de setembro a festa vai acontecer e atrair muita gente, ou não fossem os Xutos & Pontapés cabeças-de-cartaz. Por muito que a organização garanta que os concertos vão ter lugares sentados e marcados, é muito difícil imaginar os portugueses a assistir a um concerto dos Xutos agarrados a uma cadeira, sem sair do sítio, sem saltar, sem cantar e com a máscara, sem emoções, abraços, gritos e mantendo o distanciamento. Os Xutos serão um desafio para o PCP e para o público.

A cultura precisa de ser reanimada, mas sem exceções às regras. É por isso difícil de entender porque continuam os estádios de futebol vazios. Se os portugueses aguentam uma tourada ou um concerto dos Xutos & Pontapés sem sair da cadeira e sem infringir as regras, não aguentarão assistir a um jogo?

Os homens da bola têm razão quando perguntam "porque é que a abertura de espírito em relação à cultura não é igual para o futebol?". A FPF está preocupada e os clubes ainda mais, pois estão a perder milhões em receitas de bilheteira. Em termos nacionais, este desporto contribui com 549 milhões de euros para o PIB e mais de 2600 postos de trabalho diretos. Pinto da Costa - com quem, muitas vezes, é difícil concordar - diz que "o país está sem rei nem roque" e que, "se as touradas recebem público e a Festa do Avante! também, porque não recebem os estádios os adeptos?" Desta vez, Pinto da Costa tem razão. Se há espaços gigantescos para eventos, esses espaços são os estádios de futebol. Lá fora, os alemães já aprovaram o regresso aos estádios, com regras: os lugares em pé acabam, não há álcool e há distanciamento. Mas a bola vai girar no relvado e no dia 18 de setembro há público nas bancadas. Por cá, a bola está parada e já se admite que na próxima época os estádios possam voltar a não contar com adeptos nas bancadas. Dar o exemplo, mas com igualdade - sem discriminação positiva de uns e negativa de outros - é fundamental.

Jornalista

Mais Notícias