As abelhas de Notre Dame (2.ª parte)

Estranhamente, a Virgem Maria e Jesus em seus braços estavam imaculados e sereníssimos, resplandecentes na alvura do mármore.

O fogo avançava pela torre norte. Se ela desabasse, a catedral ruiria em estrondo, num lapso de poucos minutos. Nem dava para imaginar.

Com os sinos de todas as igrejas de França a troar em desespero, o general Jean-Claude Gallet, responsável pela lendária brigada de sapadores bombeiros de Paris, decidiu tentar o impossível para salvar Notre-Dame. Uma manobra de alto risco, autorizada pessoalmente por Emmanuel Macron.

Às suas ordens, embrenharam-se pelas chamas dentro 55 elementos do GRIMP, o Groupe de Reconnaissance de d'Intervention en Milieux Périlleux, uma unidade de elite especializada em actuar em meios hostis e adversos. Subiram até lá acima, a 43 metros de altura. De um lado, a praça fronteira à catedral, onde está colocada a marca do quilómetro zero da nação; do outro, a imensa cratera do telhado em ruínas, devorado pelas labaredas gigantes - e pela incúria dos homens.

Uma equipa do GRIMP, vá-se lá saber como, conseguiu penetrar na torre norte, a temperaturas altíssimas, entre fumos sufocantes. Daí, fustigou os sinos majestosos com potentes jactos de água, para que arrefecessem, tentando salvar a todo o custo a velha estrutura de madeira, vinda da Idade Média, que suportava as toneladas de bronze das campânulas. Um pequeno grupo foi para a torre sul, para proteger os dois colossos sonoros, Emmanuel e a sua irmã Marie.

Gallet mandou evacuar todo o interior da igreja e fez avançar o Colossus, a arma mais poderosa do seu arsenal, o robô da brigada, um drone terrestre de meia tonelada, capaz de disparar um jacto de água de três mil litros por minuto. Não havia tempo para pensar nos danos colaterais, nos estragos que uma máquina monstruosa como aquela poderia fazer dentro de Notre-Dame, como iriam sobreviver as centenas ou milhares de obras de arte que a catedral albergava. Os maiores tesouros, é certo, já tinham sido resgatados por uma equipa de historiadores e levados em segurança para o Louvre. Mas restava ainda muita coisa, as telas maiores, as esculturas pujantes, o mobiliário lavrado, tudo aquilo que, pela sua dimensão ou por outros motivos, os especialistas não tinham conseguido pôr a salvo.

A operação foi acompanhada ao segundo por telémetros de laser colocados no interior do templo. As notícias que transmitiam não eram boas: a estrutura da Notre-Dame estava a sofrer uma pressão insuportável. Quando o general Gallet soube que a empena norte tinha deslizado um centímetro, ficou gelado. Segundo os manuais, um edifício encontra-se à beira do colapso quando a sua estrutura sofre um desvio de dois, três milímetros. A empena norte da catedral deslizara um centímetro, e o pior poderia estar para vir.

Ao longe, viam-se os homens do GRIMP a lutar corpo a corpo com as chamas, sem tréguas. Olhados à distância, na noite já cerrada, as lanternas dos seus capacetes faziam-nos parecer pirilampos enlouquecidos de fúria, sem largar a presa. Como refere Agnès Poirier em Notre-Dame. The Soul of France (Oneworld, 2020), uma biografia da catedral que contém a descrição mais completa do grande fogo de 2019, em incêndios desta dimensão coloca-se sempre a dúvida, inquietante e hamletiana: entrar, não entrar? Ao contrário da maioria das corporações de bombeiros de todo o mundo, a tradição dos sapadores de Paris era entrar nos edifícios em chamas e combater o fogo olhos nos olhos, a poucos metros de distância. O general Gallet discutira várias vezes os prós e contras dessa estratégia com colegas seus de outras paragens e, naquela noite de 2019, recordou-se da conversa tida com um amigo americano, Joe Pfeifer, o primeiro chefe dos bombeiros a acorrer às Torres Gémeas de Nova Iorque na manhã de 11 de Setembro de 2001. Até nisso a opção de Gallet foi de alto risco: ao decidir mandar retirar os seus homens do interior de Notre-Dame, concentrando esforços nos jactos lançados por um drone e numa equipa de elite de meia centena de heróis colocados lá no alto, o general rompia, em larga medida, com a tradição secular da brigada que chefiava. Se algo corresse mal, a sua cabeça estaria a prémio na hora de apurar responsabilidades.

Diz-se que a sorte protege os audazes. Sem registar uma única baixa, por volta das onze da noite Jean-Claude Gallet pôde dizer ao Presidente que o incêndio na torre norte estava praticamente controlado. Meia hora depois, com a tranquilidade trazida pelas notícias da frente, Emmanuel Macron dirigiu-se à nação, por momentos unida em torno do drama de Notre-Dame. Ladeado pelo primeiro-ministro Édouard Philippe, e à sua direita pela presidente da edilidade, Anne Hidalgo, tendo junto a si o presidente da Assembleia Nacional, o arcebispo de Paris e o general Gallet, Macron começou por manifestar diante das câmaras de televisão a gratidão de uma nação inteira aos 500 bombeiros envolvidos naquela operação tremenda. De seguida, mencionou os católicos, disse que a França estava com eles, na sua dor, no seu sofrimento, mas procurou mostrar que aquela catedral era bem mais do que o local de culto de uma só religião. Notre-Dame, disse, "é a nossa história, a nossa literatura, o nosso imaginário colectivo, o lugar onde vivemos os nossos maiores momentos, as nossas guerras, as nossas libertações".

Desconhece-se se Emmanuel Macron, ao dizer o que disse, conhecia ao certo a história de Notre-Dame, tudo quanto ali se passara em 850 anos de existência. O essencial, sem dúvida, pois o essencial aprendem os franceses nos bancos da escola. Quanto ao resto, talvez um assessor mais esclarecido o tenha informado, talvez alguém lhe tenha explicado que, no Dia da Libertação, o general Charles De Gaulle desceu os Campos Elísios em delírio e fora até ali, à igreja da Île de la Cité, mandada edificar pelo bispo Maurice de Sully, onde Napoleão foi coroado pelo Papa, o único templo que a Revolução poupou, o monumento que ameaçava ruína até ser salvo por uma novela de Victor Hugo e pelo engenho e a arte de Viollet-le-Duc. Nesse dia memorável, 25 de Agosto de 1944, as coisas estavam ainda tão incertas que o Te Deum em Notre-Dame decorreu sob a ameaça de atiradores furtivos e de raides aéreos dos alemães. Da galeria norte da catedral, snipers atiraram sobre a multidão que aguardava em festa le grand homme, o salvador de França e da sua honra, manchada pelo colaboracionismo e por Vichy. O general avançou imperturbável sob a imensa nave (e logo ele, que pela sua estatura era um alvo fácil), enquanto se ouviam gritos de feridos e barulhos de disparos. Nas emissões radiofónicas, ainda hoje é possível ouvir a voz do locutor entrecortada pelo som de rajadas. Apesar de ter mantido um extraordinário sangue frio, ou o que parecia sê-lo, De Gaulle percebeu que tinha de abreviar a solenidade. Era demasiado perigoso, para ele e para os presentes, continuar a ouvir preces e cânticos à mistura com o som das balas a fazerem ricochete naquelas pedras sagradas, nas colunas, nas paredes, no chão, no tecto. Logo que terminou o Magnificat, levantou-se, deu sinal de que estava tudo terminado. Saudou alguns populares, deixou que lhe beijassem as mãos, o general Leclerc acompanhou-o até à saída, onde o herói de França entrou num carro rumo à sua nova casa, na Rue Saint-Dominique. Não muito depois, a Luftwaffe fez um ataque vingativo a Paris que destruiu mais de quinhentas casas e, entre mortos e feridos, fez mais de mil vítimas.

Terminada a sua alocução aos franceses, em que anunciou o começo imediato das obras de restauro, e fez a firme promessa de que, num prazo de cinco anos, Notre-Dame iria ser ainda mais bela do que dantes, Macron virou-se para Gallet e perguntou-lhe se poderiam entrar na igreja por alguns minutos. O Presidente e uma pequena comitiva franquearam o grande portal, caminharam nave dentro e, numa noite impregnada pelo horror mas também pelo sublime, tiveram uma visão quase epifânica: entre a nave e o coro, cobertas de cinzas e da água dos bombeiros, a cruz dourada e a Pietà surgiam diante dos seus olhos, deslumbrantes. Estranhamente, a Virgem Maria e Jesus em seus braços estavam imaculados e sereníssimos, resplandecentes na alvura do mármore. À direita de Nossa Senhora, outra estátua de mármore, Luís XIII, prostrado de joelhos perante a Virgem e, à esquerda, uma outra estátua, a do seu filho, Luís XIV, que oferecera à catedral o seu sino mais poderoso.

Por volta das duas da madrugada, Jean-Claude Gallet voltou à catedral deserta, silenciosa e inundada como um navio prestes a naufragar. Lá em cima, o céu de Paris estava ainda alaranjado pelos seis incêndios que permaneciam activos e que só seriam definitivamente extintos ao fim de alguns dias. A nave de Notre-Dame encontrava-se mergulhada na obscuridade, do exterior vinham ruídos longínquos, abafados pelas paredes quase milenares. Naquilo que restava do altar principal, e que mal se descortinava entre os escombros de madeira carbonizada, o general reparou num enorme livro aberto, encadernado a couro, com as páginas cobertas por uma fina camada de poeira. Aproximou-se, intrigado, e, entre as cinzas, uma palavra destacou-se aos seus olhos: espérance. Gallet, um veterano do Afeganistão, um homem prático pouco dado a misticismos, um agnóstico de ferro, recordou esse momento como o mais marcante daquela noite.

Os trabalhos de rescaldo demoraram vários dias. O balanço das perdas não foi mau de todo, sobretudo se pensarmos na tragédia que teria ocorrido se acaso uma das torres caísse, arrastando a outra e de seguida a fachada, as paredes laterais, o que sobrasse do edifício. Ou se pensarmos que, entre as cinzas e a água, ou por causa das operações dos bombeiros, poderiam ter sido destruídos objectos venerados como relíquias: a túnica de São Luís, o seu látego e, acima de tudo, a coroa de espinhos de Jesus Cristo. Salvaram-se os vitrais translúcidos, quase todos, e ao raiar do dia seguinte os que permaneciam lá fora, expectantes, puderam ver com os seus binóculos que, milagrosamente, a grande rosácea permanecia intacta. Sobrevivera também o grande órgão de Notre-Dame, que em 2013 tinha sido objecto de um restauro profundo, em que foram limpos à mão, um a um, os seus 7374 tubos. O órgão estava coberto de cinzas, provavelmente danificado num ponto ou noutro da sua complexa estrutura, e, como é óbvio, teria de ser inteiramente limpo de novo. Mas, também por milagre, a água dos bombeiros poupara-o. Melhor dizendo, a secção do telhado da catedral que ficava por cima do órgão não desabara, vá-se lá saber como, e, desse modo, o instrumento não sofrera o impacto directo dos jactos de água, que teria sido fatal.

Por outra coincidência feliz, que os crentes tomam por milagre e fruto de intercessão divina, as 16 gigantescas estátuas de cobre, representando os 12 apóstolos e os quatro evangelistas, tinham sido removidas quatro dias antes do incêndio. No âmbito dos trabalhos de recuperação do pináculo e da cobertura, as imagens, cada qual com mais de três metros de altura e 150 quilos de peso, tinham sido levadas para Périgueux, na Dordonha profunda, para serem restauradas pela firma Socra, uma empresa que fizera intervenções na Praça da Concórdia, na Catedral de Bordéus, na Galeria dos Espelhos de Versalhes, no Mont Saint-Michel e em muitos outros lugares. Por uma coincidência infeliz, que os crentes tomam por castigo dos céus, foi um descuido nas obras de conservação e restauro que levou Notre-Dame à beira da destruição irreversível e completa.

Apesar das boas notícias, os danos eram enormes, incomensuráveis, e o balanço do que ali se perdeu ainda não está inteiramente feito. A comoção daquelas horas, a transmissão televisiva urbi et orbi das imagens dantescas da catedral em chamas e, enfim, a absoluta singularidade de Notre-Dame para o orgulho nacional fizeram que, em pouco tempo, o dinheiro começasse a afluir em quantidades nunca vistas. Logo a meio da madrugada, o octogenário François Pinault, patriarca de uma das famílias mais ricas de França, anunciou uma doação no valor de cem milhões de euros, provenientes do fundo financeiro familiar. Para evitar as críticas do costume, os Pinault advertiram logo que aquele donativo não pretendia ter o tratamento fiscal privilegiado legalmente aplicável aos actos filantrópicos. Não muito depois, Bernard Arnault, o homem mais rico de França, líder do império de luxo LVMH, duplicou a oferta de Pinault, seu eterno rival, e anunciou um donativo de 200 milhões de euros. Seguiram-se a família Bettencourt, dona do grupo L'Oréal, e a petrolífera Total, que ofereceu cem milhões de euros. A onda de benemerência não parecia ter fim e propagou-se em poucas horas ou dias, com donativos de cinco, dez ou vinte milhões de euros de empresas e de famílias como Decaux, Bouygues, Ladreit de Lacharrière ou a americana Disney.

A par disso, sucederam-se milhares de donativos de cidadãos anónimos, ofertas de quantias por vezes irrisórias, mas comoventes, como as de crianças agradecidas a Quasímodo ou de idosos que não hesitaram em doar parte das suas magras pensões de reforma (o vigário-geral de Paris recordou com especial emoção a carta de uma octogenária que dizia que, apesar de viver com dificuldades, queria oferecer dez euros para o restauro da catedral, pois 15 de Abril era o seu dia de aniversário, e passara-o a rezar em lágrimas pela salvação de Notre-Dame). Dois meses após o incêndio, o conjunto dos pequenos donativos anónimos alcançava a extraordinária quantia de 80 milhões de euros, tanto mais importantes quanto podiam ser mobilizados de imediato para as obras mais urgentes, ao contrário das grandes doações que, pelo seu valor, exigiam burocracias arrastadas e contratos complexos entre os filantropos e o Estado francês.

Estranhamente, ou talvez não, a benemerência dos milionários não foi bem acolhida por todos. E, mais estranhamente ainda, ou talvez não, a contestação surgiu do seio da Igreja ou, melhor dizendo, de algumas vozes mais radicais da Igreja. Entre elas, a do padre jesuíta Gaël Giraud, para quem o caudal de donativos só comprovava que os ricos deveriam pagar ainda mais impostos e a taxas mais elevadas, não se compreendendo que alguém tivesse dinheiro suficiente para despender cem ou 200 milhões de euros na reconstrução de um edifício. Além de um aumento brutal da carga fiscal sobre as grandes fortunas, Gaël Giraud, sacerdote e economista, instou a Igreja a desviar uma parcela substancial dos donativos e a canalizá-los para os imigrantes e para os três milhões de crianças francesas que vivem abaixo do limiar de sobrevivência. Não percebeu que, por muito boas que fossem as suas intenções, não foi para os refugiados nem para as crianças pobres que milhares de pessoas fizeram os seus donativos. E foi mais longe: segundo ele, o incêndio de Notre-Dame espelhava as fragilidades de um sistema tecnológico desumano, que era capaz de colocar um homem na Lua mas não tinha força suficiente para proteger um templo trôpego e idoso, velho de oito séculos. Resvalando no delírio, o jesuíta culpou os mercados financeiros pelo incêndio de Notre-Dame e, numa paráfrase escusada de Greta Thunberg, concluiu que a tragédia era a prova provada de que "a nossa fábrica social está a arder".

O padre Giraud não foi o único a deixar-se levar pelo onirismo. Logo que surgiram os primeiros projectos de reconstrução, uma fase em que se cruzaram as mais variadas e fantasiosas ideias, um conhecido gabinete sueco de arquitectura propôs que a cobertura da catedral fosse transformada numa piscina imensa, um reservatório de captação da água das chuvas, enquanto uma firma francesa advogou a construção de uma estufa e outra a implantação de um parque florestal onde as espécies animais ameaçadas pudessem encontrar refúgio. Discutiu-se acaloradamente se o pináculo a erguer de novo deveria ser de cristal, de vidro ou de titânio e alguns sugeriram que não se deveria sequer reconstruir o pináculo, substituindo-o por um facho de luz apontado aos céus. O arquitecto Norman Foster opinou que o novo pináculo deveria ser "contemporâneo e muito espiritual", o que, como bem observa Agnès Poirier no livro atrás citado, é o mesmo que dizer coisa nenhuma. Numa sondagem publicada pelo Le Figaro, uma maioria tangencial de inquiridos pronunciou-se a favor de uma reconstrução integral de Notre-Dame tal qual se encontrava antes do incêndio - e, como foi anunciado há poucas semanas, foi essa solução sensata que acabou por prevalecer.

Foram muitos os acasos virtuosos de uma noite de tragédia

Marie-Hélène Didier, a conservadora dos Monumentos Históricos que nessa noite dirigiu as operações de resgate dos tesouros e das relíquias, regressou a Notre-Dame logo na manhã seguinte, acompanhada de um punhado de bombeiros. Foi quase a correr até ao transepto, cujo pilar sudoeste tinha junto a si a Vierge à l'Enfant, também conhecida como Notre-Dame de Paris, uma imagem do século XIV, oferecida em 1819 à catedral de Paris e, desde então, a sua obra mais venerada e amada. Nossa Senhora estava intacta, com o seu olhar melancólico e o seu sorriso trocista, um rosto com uma densidade de sentimentos contraditórios que fascina quem o observa desde há duzentos anos. A surpresa maior e mais comovente: apesar de cobertas de cinzas e muitas delas ainda a escorrer água, todas as peças da catedral, todas as estátuas, todas as pinturas, estavam totalmente preservadas. A derrocada do pináculo, que deixou boquiabertas de horror milhões de pessoas em todo o mundo, revelou-se, afinal, um acontecimento salvífico. Ao desabar sobre o transepto, o pináculo gerou um efeito de sucção e converteu-se numa chaminé que absorveu a maioria do fumo negro. Se tal não tivesse acontecido, o negrume teria devastado as pinturas e os mármores delicados. Mais uma coincidência feliz, que os crentes tomam por milagre ou fruto de intercessão divina.

Na alvorada de dia 16 de Abril, quando as chamas ainda ameaçavam diversos pontos da catedral, Sybille Moulin, uma jovem bióloga de 33 anos, vibrou com um acontecimento minúsculo, que a todos passou despercebido. As fotografias aéreas de alta precisão mostravam três pontinhos quase imperceptíveis no telhado, no local mais devastado pelo calor e pelas chamas. Ali, no epicentro da tragédia, permaneciam incólumes três ninhos. Não muito depois, o sacristão da catedral mostrou-lhe um vídeo em que se via nitidamente centenas de abelhas a esvoaçarem felizes, indiferentes às tragédias dos homens. Anos antes, em 2013, Sybille e o seu chefe, Nicolas Géant, tinham colocado três colmeias no cimo de Notre-Dame, no âmbito de um movimento para fazer regressar as abelhas às grandes cidades como Paris, que tem actualmente mais de 700 colmeias a céu aberto, muitas delas colocadas no topo de edifícios como a Opéra, o Musée d'Orsay ou o Grand Palais. Em Notre-Dame viviam - e vivem - mais de 200 mil abelhas melíferas europeias (Apis melifera), que produzem uma média de 25 quilos de mel por ano, vendido exclusivamente aos funcionários da catedral. Sybille Moulin conhecia a resiliência das suas abelhas, sabia do que elas eram capazes de fazer para se manterem vivas. Tinha-as visitado dez dias antes do incêndio, mas a visão das chamas fê-la temer o pior. Na verdade, como era possível sobreviver no meio de labaredas com vários metros de altura, com temperaturas de muitas centenas de graus centígrados? Como era possível ficar vivo com milhares de litros de água disparados a alta pressão? Um ser humano jamais conseguiria escapar dali com vida. As abelhas, porém, têm as suas estratégias certeiras, manhas com 480 milhões de anos. Sempre que sentem o perigo, activam um peculiar mecanismo de segurança: ao primeiro sinal de fumo, mergulham a fundo no mel e cercam a rainha para a proteger. Foi isso que as salvou, foi isso que lhes permitiu resistirem a uma ameaça que não teria poupado a maior parte dos outros animais, especialmente os mamíferos como nós.

No grande incêndio de 15 de Abril, não houve vítimas mortais. A morte, porém, sempre esteve muito mais perto dos seres humanos do que daquelas abelhas da Notre-Dame.

Para a minha Mãe, que chorou por Notre-Dame

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Nota: esta coluna dará férias aos seus leitores até ao final do mês de Agosto.

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