Parabéns, Brasil. Pelos 199 anos

Começa hoje a contagem decrescente para o bicentenário do Brasil como nação independente. Será certamente um dia de festa esse 7 de setembro de 2022, 200 anos exatos depois do célebre Grito do Ipiranga. Mas hoje, data do 199.º aniversário da histórica decisão de D. Pedro, teme-se que a clivagem política entre apoiantes e opositores do presidente Jair Bolsonaro prejudique o habitual clima festivo no feriado e afete a imagem do Brasil. Não falta quem acuse o chefe do Estado de ser uma ameaça à democracia, não falta também quem aponte o dedo aos críticos do presidente dizendo não respeitarem a escolha democrática feita nas urnas em 2018.

Esta clivagem extrema não é exclusiva do Brasil, pois basta olhar para os Estados Unidos desde as presidenciais de 2016, primeiro os democratas a fazerem tudo para uma destituição de Donald Trump, e depois das eleições de 2020 muitos republicanos a recusarem até reconhecer a vitória de Joe Biden. Contudo, a falta de diálogo político ameaça mais um país como o Brasil, mais desigual socialmente e menos desenvolvido economicamente do que o outro gigante do continente. Com 330 milhões de habitantes, enquanto os brasileiros são 220 milhões, os Estados Unidos têm o maior PIB mundial enquanto o país lusófono se fica pelo oitavo , nove vezes menos rico, apesar de sectores de ponta, da agropecuária à aviação.

Algumas vozes insistem em apontar a raiz das fragilidades brasileiras aos antigos colonizadores portugueses. E isto quase dois séculos depois de uma independência que Portugal reconheceu logo ao fim de três anos (a Espanha tardou 50 anos a admitir que o Peru já não lhe pertencia). Com humor, um dia vi um brasileiro responder ao seu compatriota que elogiava os tempos dos holandeses no Nordeste (e como teria sido bom que tivessem sido esses outros europeus a colonizar...), dizendo que sim, fingindo concordar, para sublinhar cinicamente que tivesse a ocupação no século XVII se prolongado no tempo e estendido territorialmente e hoje o Brasil seria "um imenso Suriname".

D. Pedro, o primeiro imperador do Brasil, era o herdeiro do trono português e acabou por ser rei de Portugal, ainda que efémero. Só por si isso explica que a independência brasileira não foi igual à das colónias espanholas. Também fez muita diferença no processo de independência que o Rio de Janeiro tivesse acolhido durante 13 anos D. João VI, que fez questão de dar à cidade o brilho de capital imperial, com o Palácio de São Cristóvão ou o Jardim Botânico. E na realidade, desde 1815, quando em Viena a Europa debatia o pós-Napoleão, o Brasil já tinha deixado de ser colónia - o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves passara a existir por decisão de D. João VI, a conselho do Duque de Palmela, que por sua vez se teria inspirado numa recomendação que Talleyrand lhe fizera nas negociações na capital austríaca. O Brasil também nunca se fragmentou, apesar de tantas tentações separatistas, e é impossível explicar essa resiliência sem olhar para a herança deixada por Portugal. Tal como a pujança cultural nasceu da matriz portuguesa, ainda que com tantos outros contributos, que vão do africano ao italiano.

Saltemos para 2021. Ou até para 2022. O nosso embaixador em Brasília, Luís Faro Ramos, em entrevista hoje ao DN não foge a perguntas sobre a delicadeza do momento político brasileiro nem dos desafios que traz à relação bilateral. Mas é claro na sua avaliação positiva dos laços emocionais entre os dois povos e otimista sobre uma relação muito reforçada pela língua comum. Que Portugal seja o país em destaque na Bienal do Livro de São Paulo é importante.

Agora, como no festejo do bicentenário, Portugal deve mostrar como considera o Brasil um país especial, um país que lhe é especialmente querido por razões históricas, e fazer aquilo ao seu alcance para reforçar as relações. Os primeiros a agradecer serão os muitos portugueses que escolheram o Brasil para viver, também os muitos brasileiros que do lado de cá do Atlântico constroem a sua vida. Parabéns, Brasil. Pelos 199 anos.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

Mais Notícias

Outras Notícias GMG