Os Açores ou as Berlengas da Europa

Nos últimos anos, três factos externos alteraram o lugar de Portugal no mundo. A transição americana para o Pacífico retirou relevância estratégica à nossa posição geográfica entre os Estados Unidos da América e a Europa. A presidência de Trump azedou as relações entre os aliados da NATO, reforçando quem questiona, ou mesmo quem quer pôr em causa, a Aliança. E o Brexit deixou-nos isolados (na companhia dos irlandeses) na frente atlântica da Europa. Isto tudo sem que seja evidente que Portugal adaptou, consequentemente, a sua visão do mundo e dos seus interesses. Pelo contrário.

Um dos efeitos acumulados pela mudança na América, a governação de Trump e o Brexit é que a Europa distanciou-se dos Estados Unidos e tornou-se mais continental. Mais do que nunca, preocupa-se com a vizinhança a leste e no Mediterrâneo. O seu backyard problemático. De resto, mesmo a Espanha e a França, nossos parceiros euro-atlânticos, têm mais interesse no que se passa no mar que une a Europa ao Médio Oriente e ao Norte de África do que no que foi o lago do Ocidente. Nós, a par dos irlandeses, somos os grandes prejudicados por esta mutação.

A ideia de que Portugal é um país atlântico e que deve sê-lo na Europa, não é romantismo nem saudosismo. Não é só geografia, que é fundamental. Nem história ou cultura, que também contam. É a diferença entre sermos do centro ou da periferia. Quanto mais continental a União Europeia for, mais Portugal será as Berlengas, em vez dos Açores, da Europa.

Sem grande discussão, deveria parecer evidente que Portugal tem, e teria, todo o interesse em manter e reforçar os laços atlânticos. Com a América, que para além de Trump (ou, oxalá, de Biden), temos muito com quem conversar, mas mais ainda. O Atlântico liga-nos à América Latina, à costa ocidental africana, ao Norte da Europa. E, no entanto, não se nota que tenhamos como estratégia reforçar a dimensão atlântica da Europa (ter mais programas de investigação, cimeiras, fundos com relevância, programas de cooperação e de aprofundamento das relações, como os países de Leste forçaram a que se desenhasse para leste e para o mar Negro).

Em todo o programa do trio das presidências da União Europeia de que Portugal faz parte, com a Alemanha e a Eslovénia, o Atlântico não é referido uma única vez. O mar Negro, duas. Tantas quantas a relação transatlântica. A China, três. África, várias vezes. Como se a nova irrelevância deste nosso lugar fosse para aceitar sem contestação.

Há, notoriamente, algumas exceções a esta visão. Estranhamente, não tanto nos Negócios Estrangeiros, onde o Atlântico costumava ser o mantra, mas sobretudo na defesa e na ciência e tecnologia, tirando partido do potencial dos Açores, do espaço à segurança. É esta lógica que nos devia guiar.

Se Portugal não acredita que o reforço das relações transatlânticas (plural intencional) é do seu interesse geopolítico, dependerá de serem os países continentais a fazê-lo, ou não. Se acontecer, estará em curso uma mudança do lugar de Portugal no mundo e na Europa que não nos convém. E em boa parte teremos contribuído para ela.

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