"Com militares chamados mais cedo teríamos mais eficácia contra a covid"

Conversa à mesa com o presidente da Câmara de Cascais sobre a garagem do pai que servia de sede ao PSD no Verão Quente de 1975, o carisma de Francisco Sá Carneiro, a luta dos cascalenses contra a pandemia e ainda a necessidade de ir trabalhar no setor privado depois de cumprir mais um mandato para poder assegurar uma velhice desafogada.

Carlos Carreiras escolheu o Furnas do Guincho para este "Almoço Com..." e o dia não podia fazer mais justiça ao sítio: um sol de outono fabuloso e ondas de grande porte a embater nas rochas e quase, quase a molhar a clientela na esplanada do restaurante. Umas cabeças loiras sentadas na mesa ao lado da minha e do presidente da Câmara de Cascais levantam-se várias vezes para tirar fotos, e na realidade não foram só os estrangeiros, pois ouvi também em bom português a admiração pela beleza do mar. "Realmente, se o autarca cascalense pretender impressionar um visitante, esta paisagem é a ideal", comento eu para um Carlos Carreiras acabado de chegar de uma reunião com feirantes, na qual combinou dias de mercado e regras sanitárias, mais uma das tarefas extra que a covid-19 lhe trouxe. "Não lhe minto se disser que esta pandemia é o maior desafio da minha vida política", nota. Voltaremos ao tema, porque Cascais tem estado na primeira linha do combate ao vírus, até com testes para toda a população, 214 mil pessoas, e gratuitos.

"Bebo água", justifica-se Carlos Carreiras. "Nunca fui apreciador de bebidas alcoólicas. Nem em jovem. Uma das explicações possíveis é um dos meus avôs, pequeno produtor em Pampilhosa da Serra, estar a fazer a pisa das uvas e a minha mãe, grávida de mim, ter ficado adoentada com os gases do vinho. Depois, em rapaz, o meu avô levava-me a fazer a prova, dando-me 25 tostões por copinho, que eu provava só um bocadinho enquanto ele dizia que era fraquinho, um vinho para meninos", acrescenta. E nisto de procurar justificação ainda me conta que, quando há uns anos andava pelo Brasil "a montar fábricas de cerveja", não podia fugir aos brindes a toda a hora com os distribuidores, "até parecia esquisito", e uma vez mais foi ficando com aversão ao álcool. Não resisto a sublinhar que também Donald Trump é conhecido por nunca beber vinho, antes Coca-Cola ou Pepsi, e recebo de volta a primeira resposta 100% política da nossa conversa: "Quando o embaixador americano me pediu para ser recebido aqui em Cascais, disse-lhe logo que não gostava do presidente dele."

Recusamos uns camarões de entrada, mas deixamos vir para a mesa o tradicional pão e manteiguinhas. Carlos Carreiras passa os olhos na ementa, mas sem demora pergunta se têm os filetes de cherne. Sim. "Então acompanhados com arroz de marisco, por favor." Perante tanta confiança, e sendo eu um setubalense apreciador dos sabores do mar, peço o mesmo. É mais ou menos nesta altura da conversa que fico a conhecer que embora natural de Lisboa, de Santos-o-Velho, onde nasceu em 1961, o meu convidado tem raízes em Ílhavo, familiares que andaram na pesca do bacalhau na Terra Nova, e que o avô materno tinha vindo para a capital como pescador. "Ainda me recordo de ele chegar a casa com tanto peixe que passávamos semanas e mais semanas a comer o que tinha pescado", diz, num tom divertido. Não conhecia este licenciado em Contabilidade e Administração e gestor de empresas hoteleiras e de grande consumo agora autarca, mas já me tinham alertado que ia almoçar com um bom conversador.

De Carlos Carreiras, em termos de carreira política, sabia que é desde 2011 presidente da Câmara Municipal de Cascais (e de 2005 a 2011, vice de António Capucho), que foi vice-presidente do PSD entre 2014 e 2016 (com Passos Coelho líder) e que também chegou a ser presidente do Instituto Sá Carneiro. Ora, a propósito de Francisco Sá Carneiro, sobre cuja morte na queda de um avião se assinalam 40 anos daqui a um mês, comento estar a ler a biografia escrita por Miguel Pinheiro e pergunto se chegou a conhecer o antigo primeiro-ministro. "Nunca tive uma relação próxima, até porque era muito miúdo, mas tive algumas situações em que estivemos muito próximos fisicamente. Ele tinha um carisma muito forte. Hoje, o mundo vive com um défice muito grande de líderes. Sá Carneiro era claramente um líder. Tinha um conjunto de qualidades, certamente com um conjunto de defeitos, mas eu tive o privilégio de só conhecer as qualidades. Não lidei com tanta proximidade que pudesse conhecer esses mesmos defeitos. Depois, foi assassinado - sempre considerei que Camarate foi um assassínio, não dirigido a ele, dirigido a Adelino Amaro da Costa - numa idade muito jovem e também se criam os mitos por via dessas circunstâncias. Mas, de facto, Sá Carneiro era um líder carismático. Arrastava multidões", responde-me Carlos Carreiras, que se assume como de centro-esquerda.

E como começou a ligação do atual autarca de Cascais com o PSD? "Vem de uma relação familiar, muito especialmente do meu pai que foi fundador do PSD em 1974. O meu pai foi, para todos os efeitos, um grande mestre para mim. Nos primeiros tempos, eu vivia numa freguesia - São Domingos de Rana - que era a única comunista no concelho de Cascais. A sede do PSD de São Domingos de Rana era na minha garagem. Depois, houve todo aquele período revolucionário em que o meu pai esteve muito envolvido e muito exposto. Um dos exemplos de que me lembro foi quando teria os meus 14 anos, no Verão Quente de 1975, nós assustávamo-nos porque começaram a aparecer umas latas à porta de casa a dizer que eram bombas para matar os fascistas. Aquilo a princípio era um susto, mas como tudo na vida nós vamo-nos adaptando e, na verdade, não tinham uma bomba, mas sim uma pedra. Portanto, a primeira coisa que eu fazia quando saía de casa era dar um pontapé na lata. Assim, esta militância social-democrata entrou de forma muito, muito forte e levou, mais tarde, a uma adesão a uma figura muito carismática que foi Sá Carneiro. Portanto, tinha o PSD entranhado em mim. Hoje, considero que estou muito afastado do PSD."

Chega a comida. Os filetes de cherne correspondem às expectativas. E os pratinhos, com o arroz a envolver camarões descascados e berbigões, revelam-se o acompanhamento ideal.

Sobre o sentir-se afastado do partido, Carlos Carreira esclarece que é mesmo do PSD como um todo, apesar de não esconder que não se revê também em Rui Rio, o presidente. "Sinto-me longe do PSD mesmo, do próprio aparelho. Nunca escondi que não me revejo também no líder, não tanto nas ideias, mas na forma de atuar. Hoje, estou muito afastado do próprio partido. E quando me perguntam qual é o meu partido, respondo que o meu partido, hoje, é Cascais, não tenho nenhum outro", sublinha, por entre mais uma garfada de arroz de marisco. O mar, esse, continua a testar a resistência das rochas sobre as quais se ergue o restaurante escolhido pelo político depois de desafiado pelo DN para esta rubrica que mistura perfil, entrevista e um pouco de análise gastronómica.

Aproveito quando proclama que o seu partido é Cascais para perguntar um pouco em estilo de provocação porque é que, a quem olha de fora, como eu, um setubalense que trabalha em Lisboa, parece que o concelho às vezes pratica o comunismo, com os transportes públicos gratuitos e um cartão social entregue a milhares de famílias. A resposta vem tanto em tom de crítica como de esclarecimento: "Está a interpretar mal o conceito de comunismo. Aqui a grande questão é que, nesta perspetiva e dentro do tal conceito de social-democracia na sua base mais pura - é preciso criar riqueza para depois a poder distribuir pelos mais fragilizados - é isso que estamos a fazer. Portanto, esta preocupação social, e aí encontra-se muito a simbiose entre a social-democracia e a democracia-cristã, tem que ver com eu considerar que se num momento como este o Estado não está presente, não consigo identificar em que outro momento o Estado possa ter de estar presente."

Replico que o momento é grave, com a crise gerada pela pandemia, mas que algumas medidas, como as dos transportes, são prévias. "Isso tem que ver também com questões de ordem ambiental, com o nós precisarmos de reformar a nossa organização de sociedade do ponto de vista ambiental, isso é óbvio. Temos de cada vez mais evoluir para o transporte coletivo em detrimento do transporte individual", responde, acrescentando que Cascais é uma câmara com recursos, mas não é a única, ou seja, "há muitas outras câmaras, especialmente as de maior dimensão, que nunca tiveram tanto dinheiro como estão a ter agora, e nem todas têm as mesmas políticas como prioridade".

Um casal de turistas, e agora são bem menos do que antes em Cascais, levanta-se para fotografar mais umas ondas. Falo da beleza da vila, dos reis depostos e presidentes exilados que nela procuraram refúgio ao longo dos tempos, e Carlos Carreiras admite que sim, que "a vila é especial, mas Cascais é um concelho muito heterogéneo. Muitas vezes, de fora, olham para nós com algum preconceito e com algum pré-conceito errado, porque, de facto, nós temos aqui algumas assimetrias também. Cascais é glamour, mas não é tudo glamour. Ainda existem algumas desigualdades e daí ser necessário, cada vez mais, promover uma comunidade mais coesa".

A resposta do concelho à pandemia tem sido elogiada e Carlos Carreiras explica porque se envolveu de corpo e alma, a ponto de partilhar no seu Facebook informação da evolução do número de doentes e de não hesitar em apontar o dedo a jovens que vão a festas a Lisboa e regressam infetados: "Em primeiro lugar, pela dimensão e pela intensidade é o maior desafio que eu alguma vez tive na vida, e já tive outros, mas este, de facto, é de uma dimensão e de uma brutalidade com que nunca tinha lidado. Depois, deu-me a possibilidade de me realizar, se é que posso usar este termo, do ponto de vista também daquilo que é a minha fé, ou seja, um homem ao serviço dos outros. Nunca tive nenhum momento em que tenha estado mais ao serviço dos outros do que estou agora nestas circunstâncias. Depois, levou-me a aprender muita coisa que nunca me passou pela cabeça aprender."

Sobre a ideia de testar todos os munícipes, explica que resultou do aconselhamento que pediu, exatamente porque ninguém sabe de tudo: "Aconselhei-me com uma equipa que trabalha comigo, nomeadamente com o acompanhamento muito próximo do vice-presidente da câmara, o Miguel Pinto Luz, mas eu tive uma perceção no início - falava-se muito que isto era uma guerra e que tínhamos de combater o inimigo - e fiz aquilo que costumo fazer, ou seja, dentro da tal lógica de falar sobre tantas coisas que não sei, aconselhei-me com quem sabe. Aqui foi, por um lado, com a Academia, ou seja, as universidades e, por outro lado, dentro da lógica da guerra, com oficiais generais que me aconselharam numa relação de amizade e não de outro tipo. Acho que isso foi uma falha que o país teve e que está agora a corrigir, o não ter chamado os militares, que são estruturados na formação e são estruturados na própria hierarquia de uma forma diferente e que aqui se aplicaria, e espero que venha a aplicar-se cada vez mais. Não tenho qualquer tipo de dúvida de que se os militares tivessem sido chamados mais cedo teríamos mais eficácia contra a covid. Depois também me aconselhei com especialistas, e aqui estamos a falar de áreas muito específicas dentro da própria ciência."

O facto de não criticar nem o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa nem o governo de António Costa, "um governo que é de um partido diferente do meu", é explicado exatamente por ter noção das dificuldades. "Não consigo imaginar o que é isto multiplicado à escala nacional. Portanto, admito que quer o senhor Presidente da República, quer o senhor primeiro-ministro, quer mesmo os ministros, estão a ser chamados ao maior desafio da vida deles."

Recusamos as sobremesas, apesar de um bolo de chocolate estar neste início de tarde a mostrar-se popular em várias mesas, e pedimos café. Casado, pai de cinco filhas, já com netos ("estou agora a aprender como é que ajudo a educar rapazes, pois especializei-me em educar raparigas"), Carlos Carreiras desmente quaisquer intenções de um dia ser candidato em Lisboa. E explica: "A questão é que, de facto, tenho dito que política executiva para mim é a autárquica e é Cascais. Porquê? Porque, por um lado, eu tenho de sentir e Cascais eu sinto por inteiro, se fosse noutro município qualquer eu não tinha essa capacidade de sentir tão forte como sinto em Cascais, pese embora ter nascido em Lisboa, mas saí de lá aos 4 ou 5 anos. Toda a minha vida foi feita em Cascais e, por isso, tenho de facto Cascais entranhado em mim, e autárquica porque me dá uma perspetiva de proximidade às pessoas, de não poder fingir que não se passa nada quando se passa, de ter um alerta mais próximo - quando cometo algum erro consigo ser alertado mais rapidamente para corrigir. Assim, a política executiva é só a autárquica e só em Cascais. Tenho 59, espero fazer mais um mandato - ainda tenho uma eleição pela frente -, portanto, no limite acabarei esta função executiva, autárquica e em Cascais com 64 anos. Considero que ir para outra câmara teria de ser num projeto a 12 anos - o suficiente para poder implementar uma política de reforma, mas não o posso fazer porque preciso de ir trabalhar no privado."

Faz uma pausa e puxa de um cigarro, para logo admitir que "fumar é a maior estupidez que faço na vida". Voltamos ao tema da vida depois da política, um regresso provável à atividade de gestor. "Eu tenho evitado dizer isto publicamente porque muitos dos que me possam ouvir até podem fazer uma avaliação negativa, mas a verdade pura e dura é esta: eu tenho vivido das poupanças que fui construindo quando estava na iniciativa privada. Portanto, hoje não espero ter uma velhice rica - o meu projeto de felicidade nunca passou pelo acumular de bens -, mas sim uma velhice desafogada, serena."

E não esconde achar que os políticos são mal pagos em Portugal. "Isso é uma questão óbvia. Eu costumo dar um exemplo: a Câmara Municipal de Cascais tem um orçamento de 250 milhões de euros, ou seja, tem uma receita de 250 milhões de euros. Se comparar com qualquer empresa que tenha uma faturação de 250 milhões de euros... nem é preciso ir a empresas com este nível de faturação, se for uma empresa com três vezes menos a faturação das receitas de Cascais, qualquer gestor dessas empresas ganhará certamente cinco, seis, sete vezes mais aquilo que eu ganho como presidente de câmara. Embora eu considere que somos mal pagos, também considero que estamos numa missão. Quem vem para estes cargos tem de assumir uma perspetiva de se dedicar à missão que escolheu, neste caso a autárquica e Cascais. Portanto, também não vejo, com tanto sofrimento que existe na própria sociedade e com tão baixos rendimentos que existem, nos próximos anos uma possibilidade de os políticos poderem vir a ser mais bem remunerados. Não é só o presidente de câmara que é mal pago, é mal pago o primeiro-ministro, é mal pago o Presidente da República, é mal pago o ministro", remata, saindo apressado, pois vai ter de se reunir via Zoom, a partir dos Paços do Concelho, com a Assembleia da República.

RESTAURANTE FURNAS DO GUINCHO
2 pães e manteigas
2 filetes de cherne
1 água purificada
2 cafés
TOTAL 47,20 euros

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