Maria Salazar, a coronel médica que leva sabedoria aos lares de idosos

Desde há um mês, as Forças Armadas já fizeram ações de formação aos funcionários de 631 lares de todo o país. Todo o plano de ação foi arquitetado por uma mulher que nunca sonhou ser militar e que agora faz a diferença.

É quase impossível Maria Salazar passar despercebida quando anda, quase sempre em velocidade e com passadas longas, nos corredores do quartel-general da Direção de Saúde Militar (DIRSAM) do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA).

Se o sonante apelido, instintivamente, já provoca reações, o seu elegante 1,87 metros, dentro de um uniforme camuflado, e os olhos vivos que espreitam debaixo da máscara não deixam mesmo ninguém indiferente.

Mas, mais do que isso, o seu trabalho tornou-se uma peça fundamental em centenas de lares de idosos por todo o país, com um plano pioneiro que está a levar conhecimento e ensinamentos aos funcionários destas instituições sobre como prevenir o contágio pelo novo coronavírus.

Maria Salazar, 49 anos, coronel da Força Aérea, médica formada na Faculdade de Medicina de Lisboa, com a especialidade de Gastroenterologia, é quem está à frente do programa das Forças Armadas para as ações de sensibilização em lares, em apoio ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS).

Até 5 de novembro, cerca de um mês depois do arranque desta gigantesca operação, foram já visitados pelos militares 631 lares.

Até 5 de novembro, cerca de um mês depois do arranque desta gigantesca operação, foram já visitados pelos militares 631 lares, do total de 2770 que o MTSSS atribuiu às Forças Armadas, a cujas ações de formação assistiram 7748 funcionários.

Escapa com ligeireza às perguntas mais pessoais e devolve quase sempre respostas que envolvem o trabalho. Ainda conseguimos a confidência de que nunca sonhou ser militar. "Foi por mero acaso", admite a oficial. "Por curiosidade e insistência de uma grande amiga fui assistir a uma sessão de esclarecimento na Força Aérea, no âmbito de um concurso que se destinava a recrutar médicos para o quadro permanente do Hospital Militar. Foi muito importante e apelativo saber que havia ali uma alternativa para a minha carreira. Como estava a pouco menos de dois meses de ter de escolher a especialidade, entrando na carreira militar teria acesso imediato ao que queria, gastroenterologia, ainda com a mais-valia de ficar colocada em Lisboa, quando naquela altura, na minha geração, não só era difícil ter acesso logo a vagas para esta especialidade no Serviço Nacional de Saúde como também nos primeiros anos seria sempre colocada noutras zonas do país", conta, de um fôlego.

"O facto de ter estudado na Escola Alemã e estar habituada a ambientes disciplinados e a hierarquias era uma vantagem, que depois se comprovou como uma ótima base para me adaptar à vida militar."

Depois veio a dúvida de quem nunca tinha pensado numa carreira militar. "Será que vou conseguir habituar-me? Acreditei que sim. Por um lado, o facto de ter estudado na Escola Alemã e estar habituada a ambientes disciplinados e a hierarquias era uma vantagem, que depois se comprovou como uma ótima base para me adaptar à vida militar. Mas também cresci com o meu pai, que cumpriu o serviço militar na Marinha e era oficial da Reserva Naval, sempre com muita estima pelas Forças Armadas. A única coisa que ele me disse quando o informei de que tinha concorrido à Força Aérea foi 'ao menos podia ter sido a Marinha!'", assinala com um sorriso nos olhos.

Pensar fora da caixa

Maria Salazar é filha do economista Ernâni Lopes, falecido em 2010, que foi ministro das Finanças de Mário Soares, governador do Banco de Portugal e também fundador da Associação dos Oficiais de Reserva Naval.

"Focada, inteligente e dinâmica. Pensa fora da caixa", diz-nos um oficial que trabalha com a coronel. "A grande mais-valia de ser médica militar é fazer muitas coisas em áreas completamente diferentes. Sou gastrenterologista, tenho competências em medicina aeronáutica e assumi diferentes chefias", reconhece a médica.

Antes desta nova missão, ainda quando a pandemia era observada ao longe, Maria Salazar estava envolvida numa nova estrutura do EMGFA, a Unidade de Ensino, Formação e Investigação da Saúde Militar.

"Há anos que se fala nesta nova unidade, que faz parte da grande reforma da saúde militar. Serve de elemento diferenciador na criação de novas aptidões na saúde militar para os três Ramos", explica a médica. Mas "quando caiu a bomba em março, pouco antes da declaração do estado de emergência, no dia 18", passou "a fazer parte da task force Covid-19".

Nos cenários e no planeamento que tinham começado a ser traçados pelos analistas militares, desde fevereiro, antes de a pandemia se instalar no nosso país, os lares de idosos surgiam já à cabeça das preocupações, a começar pelos três do Instituto de Ação Social das Forças Armadas (IASFA).

"Víamos o que estava a acontecer em Espanha, e a apreensão era enorme. Decidimos logo trabalhar com um dos nossos lares, em projeto-piloto. Partir do zero, ver tudo o que estava feito, planos, organização. Ficámos satisfeitos com o que vimos. Testámos toda a gente: residentes, funcionários, todos os que ali entregavam mercadorias. Para nossa surpresa, naquela estrutura tão bem organizada, havia três idosos positivos. Foi um momento muito difícil, com funcionários e familiares com muito medo. Decidimos que a única forma de os ajudar era estar lá com eles o tempo todo. Foram revistos todos os procedimentos, recordados todos os passos, coisas que não podem ser esquecidas, como lavar as mãos. O truque está mesmo nas coisas simples. Nada pode falhar. O segredo é mesmo a formação. Foi uma equipa do Hospital das Forças Armadas fazer essa formação e esteve lado a lado com eles o tempo todo, até a desenhar os circuitos no chão. Depois disto, instalou-se a serenidade", recorda.

Mais de 300 militares no terreno

Com a segunda vaga a aproximar-se, o Governo pediu ajuda ao EMGFA. Era preciso voltar ao terreno e levar conhecimento, insistir nas tais "coisas simples". Com os procedimentos já testados nos lares do IASFA, o diretor da Saúde Militar, major-general Jacome de Castro, entregou a Maria Salazar esta missão. "Entre a decisão do MTSSS e mandarmos as equipas para o terreno foi uma semana, um recorde", frisa a coronel.

As equipas que na primeira vaga tinham feito as ações de sensibilização nas escolas, nas prisões e noutros organismos foram de novo ativadas e alvo de formação específica atendendo às necessidades destas estruturas residenciais.

Com uma lista de 2770 lares no mapa, atribuídos pelo MTSSS, prepararam 139 equipas (130 do Exército, cinco da Marinha e quatro da Força Aérea), com mais de 300 militares dos três ramos, e em apenas um mês já foram a 631 lares.

"A presença dos militares é um fator muito importante para transmitir confiança e credibilidade às pessoas."

"A presença dos militares é um fator muito importante para transmitir confiança e credibilidade às pessoas", salienta a coronel médica. Estas equipas tiveram formação nos conteúdos específicos para os lares e também foram treinadas em comunicação.

O primeiro passo, quando chegam, é verificar, através de uma check list, o que está a ser feito e reforçar, na formação, os conteúdos que sejam necessários.

O plano gizado por Maria Salazar consiste em duas fases: uma é constituída pelas ações de sensibilização, "numa abordagem prática, adequada ao dia-a-dia da instituição"; a segunda, uma estreia absoluta, são sessões de esclarecimento online, em tempo real.

Coordenados pelo capitão-tenente Luís Farinha, médico anestesista da Marinha, médicos, enfermeiros e farmacêuticos militares estão diariamente junto aos computadores na Dirsam e, através, da plataforma Teams, vão esclarecendo as dúvidas dos funcionários dos lares.

"Percebem que não estão sozinhos, há sempre alguém deste lado para ajudar", afirma a coronel médica, mostrando a sala onde estão os operacionais no Teams desse dia, com auscultadores e microfone, a falar para o computador, em cujo ecrã se veem as imagens de técnicos e funcionários de lares.

A previsão de Maria Salazar é que todas as ações de sensibilização terminem até ao fim do ano e que as sessões no Teams se prolonguem durante mais cerca de um mês depois disso. "As maiores preocupações que temos sentido da parte dos lares prendem-se com a reorganização dos recursos humanos, caso alguém fique infetado. Muitas instituições não têm possibilidade de ter equipas em espelho. A manta é muito curta", assinala esta responsável.

"É preciso contrariar o medo para se conseguir trabalhar. O medo bloqueia o encontrar soluções."

Em jeito de balanço, de "lições aprendidas", que começaram nos lares do IASFA, esta oficial da Saúde Militar destaca uma: "É preciso contrariar o medo para se conseguir trabalhar. O medo bloqueia o encontrar soluções."

Forças Armadas no combate à covid-19

Além das ações nos lares, as Forças Armadas estão noutras frentes da guerra contra a pandemia:

- disponibilização de sete centros de acolhimento com um total de 504 camas;

- ações de descontaminação, pelo Exército;

- núcleo de Apoio à Decisão, com quatro oficiais do EMGFA, para assessorar a ARSLVT na gestão de camas hospitalares;

- acolhimento de 49 doentes de covid-19 nos hospitais das Forças Armadas, transferidos de vários hospitais da zona norte, de Loures e Setúbal;

- identificação e gestão de 7890 voluntários da "Família Militar", que se disponibilizaram para apoiar nos centros de acolhimento de doentes, em caso de necessidade.

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