Estados Unidos: depois da confusão

O assunto desta semana tem sido a eleição presidencial norte-americana. Não pretendo agora entrar na embrulhada em curso. Quero apenas abordar dois aspetos que me parecem merecer mais atenção.

O primeiro é sobre o "bife". Em 1984, uma empresa de hambúrgueres criou uma frase publicitária que foi de imediato apropriada pela classe política. A frase era: onde está o bife? Ou seja, para além da verborreia, digam-nos quais são as propostas concretas que fazem? A pergunta permanece no arsenal político e tem muita força argumentativa.

Neste ano o bife eleitoral foi uma mistura de perspetivas económicas, gestão da pandemia e luta pela igualdade racial. Foram estas as bandeiras que mobilizaram os eleitores, para além do profundo gosto ou desgosto que cada candidato suscitava. Ficou claro que os cidadãos participam mais no ato eleitoral quando o bife é consistente, feito de grandes causas.

A economia parece ter sido o motivador mais importante da afluência às urnas. Isto faz-me lembrar a célebre expressão utilizada pela campanha de Bill Clinton em 1992: "É a economia, estúpido!" Donald Trump representava, para os seus apoiantes, a melhor aposta em termos de recuperação económica. Estavam convencidos de que a covid seria resolvida em breve, com a descoberta da vacina apropriada. O importante era poderem contar com um presidente ultraliberal na área económica e com um pé leve em matéria fiscal. Trump conseguiu vender essa imagem, bem como a representação de um oponente que estaria nas mãos da ala mais esquerdista do Partido Democrata, ou seja, que seria uma marionete dos radicais socialistas.

Do lado de Joe Biden, o bife esteve na pandemia, na repetição da acusação da incompetência de Trump e da falta de respeito pela salvaguarda da vida dos seus concidadãos. A isso acrescentou um acompanhamento de questões sociais à volta das iniquidades raciais e da violência contra os cidadãos negros. Esse hambúrguer político era uma refeição completa. Mas havia um senão: o seu oponente explorou a imagem de bom senso e equilíbrio que Biden transmitia, transformando-a numa fragilidade. Projetar energia faz parte das qualidades de quem manda. Assim, temos agora um líder que precisa de trabalhar a sua imagem e mostrar que pode combinar humanismo com firmeza, incluindo na frente externa.

E chegamos ao segundo aspeto. A União Europeia precisa de tirar duas ou três conclusões de tudo isto.

A primeira é que Joe Biden, confirmada a sua vitória, terá necessariamente de se concentrar sobre a política interna americana, para alargar a sua base de apoio e resolver uma boa parte da bipolarização, rancor e ódio que existem no país. Em termos de política externa, para além de um regresso moderado ao multilateralismo, terá de se focalizar nas relações com a China e os vizinhos desta. Restar-lhe-á pouca disponibilidade para os assuntos europeus.
A segunda é que uma boa parte dos americanos tem uma visão da política, da economia e das relações sociais muito distinta da europeia. A contínua divergência de valores leva ao enfraquecimento da aliança com a Europa. A distância política entre os dois espaços geopolíticos será cada vez maior. Temos, por isso, de trabalhar mais arduamente para uma Europa que seja tão autónoma quanto possível nas áreas da defesa e segurança, da economia digital, da energia e dos sistemas de pagamentos internacionais. As chantagens que a administração cessante nos fez, procurando o nosso alinhamento com as suas decisões unilaterais de sanções económicas e financeiras, ensinou-nos que devemos criar os nossos próprios mecanismos nestas áreas.

Terceiro ponto, a Europa deverá reforçar a sua política externa, para ganhar espaço e independência em relação às decisões tomadas em Washington. A política externa europeia continua fraca, apesar dos recursos postos à disposição do Serviço Europeu de Ação Externa. Temos de ser francos e tratar decididamente desta fraqueza. É um perigo andar a reboque de outros poderes.

Esta eleição deveria conduzir a uma relação internacional mais equilibrada e construtiva. O lado europeu tem de saber aproveitar a oportunidade e tornar-se um parceiro mais forte, mais interventivo e mais independente. Se o fizer, podemos dizer obrigado a Donald Trump por nos ter forçado a abrir os olhos.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

Mais Notícias