Duas pestes

Sempre que ocorre uma ameaça de saúde pública com características de pandemia, existem, nos melhores cenários, dois momentos inevitáveis: a) o do medo, que pode ganhar contornos de pânico; b) o do veredicto crítico dos especialistas retrospetivos, aqueles que depois de tudo ter passado, sem deixar os destroços que se temiam, censuram as autoridades sanitárias por alarmismo e excesso de zelo... O covid-19 não constituirá exceção. As situações extremas destapam sempre as facetas mais sombrias e detestáveis da condição humana. A diferença no espectro de reações entre as pandemias pré-industriais e as pandemias modernas - dominadas pela eficácia da tecnologia farmacêutica, que leva à arrogância de Trump ordenando o desenvolvimento de uma vacina por decreto presidencial - reside mais na superfície, pois na exuberância patética de fundo tudo permanece idêntico.

Na Grande Peste Negra do século XIV, que, depois de seguir a Rota da Seda e ter entrado na Europa pela Sicília (final de 1347), se espalhou pela Europa continental, causando um declínio duradouro na população europeia e mundial de que temos estimativas aceitáveis (a população só recuperaria os efetivos do século XIV no século XVII), o que domina é a impotência e o desespero. O testemunho literário deixado por Boccaccio no Decameron (1353) documenta em primeira mão a fuga do contágio nas cidades, para o refúgio no isolamento campestre. Sabemos também que a busca de um bode expiatório levou a uma sucessão de massacres em larga escala das comunidades judaicas europeias. Nas pandemias contemporâneas, a mortalidade tende a ser incomparavelmente menor. Contudo, se os avanços na medicina nos permitem preservar a saúde, mesmo em tempos de perigo generalizado, há uma outra ameaça quotidiana e gigantesca que a expansão do covid-19 tem trazido à luz do dia.

Repetidamente, os registos da NASA e de outras instituições científicas, ligadas à rede mundial de sistemas de monitorização do estado do ambiente planetário, revelam-nos diminuições espetaculares nos indicadores de impacto negativo da ação humana sobre o ambiente, em particular nas emissões de gases com efeito de estufa. Primeiro na China, e agora um pouco por todo o mundo, à medida que o vírus se vai espalhando. Os economistas orgânicos vão juntar ao receio do covid-19 o pânico da recessão. Mas isso é mera poluição de palavras vazias e sinal de ausência de pensamento. O covid-19 devolve-nos, sem maquilhagem, o rosto assustador da verdadeira peste do nosso tempo. A nossa servil e suicida adição ao encarniçado crescimento exponencial, que corrói os próprios ecossistemas de que depende a nossa sobrevivência como civilização! Que seja um vírus a ter sucesso onde todas as políticas públicas de ambiente e sustentabilidade têm falhado, levando a moderar o consumo, a produção, as viagens, o ritmo e a intensidade do trabalho, a colocar um freio numa "economia que mata" - na designação realista do Papa Francisco - só nos pode convocar para um humilde exercício de meditação.

Professor universitário

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