A epidemia que veio pela informação

O coronavírus pode ser contido. Já a gripe espanhola, em 1918, matou milhões antes de o mundo despertar para a sua existência.

As primeiras suspeitas de casos de coronavírus chegaram a Portugal e ao Brasil e, mesmo que descartadas como alarmes falsos, deixam um travo amargo na boca. Há sempre o medo de que a pessoa espirrando ou tossindo ao nosso lado seja um transmissor - quem sabe não acabou de sair de um restaurante chinês, onde comeu um rolinho de primavera ou um porco doce-azedo? Devido à origem da doença - a China -, passamos a desconfiar até de um inocente pato laqueado. Em consequência, pelo menos no Brasil, tanto os restaurantes chineses quanto as lojas de artigos baratos, de plástico, controladas por eles, estão sendo evitados pela população. O absurdo revela um preconceito - porque, em 2009, os Estados Unidos nos mandaram a muito mais perigosa H1N1/09, ou gripe suína, e ninguém deixou de comer no McDonald's ou de comprar as bugigangas da Apple.

Mas há também analistas sérios, para quem, pior do que a epidemia do coronavírus, foi a epidemia da informação disseminada pela China, de que havia um vírus à solta, uma gripe, e de que por sua causa uma cidade inteira seria isolada - com o que levou-se o pânico e a paranoia ao mundo. Se o coronavírus tivesse surgido no Butão ou na Groenlândia, talvez fosse diferente. Ele seria controlado, ninguém ficaria sabendo e não estaria acontecendo a bancarrota da economia, o cancelamento de linhas aéreas, o esgotamento dos estoques de máscaras cirúrgicas e álcool em gel e, pior do que tudo, a condenação dos beijos e abraços como atos de risco. Os chineses podem ter-se precipitado - o que é perigoso numa época como a nossa, em que a informação viaja a uma velocidade maior do que a nossa capacidade de avaliá-la.

Em 1918, o mundo também viveu uma epidemia, mas foi muito diferente. Em abril daquele ano, já nos estertores da Grande Guerra (aquela que, por causa da Segunda, seria depois chamada de Primeira), um vírus surgido em alguma parte dos Estados Unidos, viajou para a Europa nos navios que conduziam as tropas americanas e provocou uma estranha gripe. Como atingiu primeiro as zonas litorâneas, presume-se que tenha sido transmitida por marinheiros em viagem, contaminando as tropas em terra e espalhando-se pelas populações civis. A Europa e a África foram as primeiras afetadas. Mas a gripe logo chegaria também à Índia, ao Sudeste da Ásia, à China, ao Japão e às Américas Central e do Sul. E antes fosse apenas uma gripe.

Começava por uma aguda dor de cabeça, seguida de calafrios que nenhum cobertor conseguia aplacar. Em seguida, vinham as dores em todos os ossos do corpo, a diarreia e a letargia. Devido à oxigenação insuficiente, o rosto ficava roxo ou azulado e os pés, escuros - era a cianose. Sucediam-se sufocações e espasmos de sangue ao tossir - eram os pulmões, cheios de um líquido avermelhado. Em três dias, sobrevinha a morte por parada respiratória. Os seus alvos favoritos eram as crianças com menos de 5 anos e os adultos de 20 a 40 e acima de 70. De abril a julho, já houvera um primeiro surto, comparativamente brando, que se limitou à França e, de repente, desapareceu. Mas, em setembro, a praga voltou com força total e disseminou-se pelo globo, já com o nome de espanhola.

Nunca se soube ao certo o que a provocou - a ciência suspeitava de algo novo, chamado "vírus", mas os microscópios ainda não tinham como alcançá-los. Só se sabe que a espanhola não veio da Espanha. Deram-lhe este nome porque, ao contrário dos outros países europeus, que a contraíram quase ao mesmo tempo, só a Espanha não escondeu os seus primeiros casos - o mundo logo ficou sabendo que um terço da população de Madrid adoecera, inclusive o rei Alfonso XIII.

O telégrafo, o cabo submarino e o telefone já existiam, mas o mundo só ficou sabendo que havia uma gripe depois que ela matara alguns milhões. Na França, morreram de saída o dramaturgo Edmond de Rostand, autor de Cyrano de Bergerac, e o poeta Guillaume Apollinaire, inventor dos Caligramas. Na Áustria, Sophie, filha de Sigmund Freud, e o mestre da Secessão, o pintor Egon Schiele. Nos Estrados Unidos, Rose Cleveland, que havia sido primeira-dama do país; Henry Ragas, pianista da Original Dixieland Jazz Band, que, apenas um ano antes, gravara o primeiro disco de jazz da história; e os irmãos John e Horace Dodge, tubarões da indústria automobilística. A espanhola não respeitava talentos, títulos, contas bancárias e nem mesmo a fé - em Portugal, duas de suas primeiras vítimas foram Francisco e Jacinta, os meninos do "milagre de Fátima".

Não sei como foi em Lisboa, mas no Rio, numa população de 1200 mil habitantes, 600 mil foram infetados, dos quais, em pouco mais 15 dias, nada menos do que 15 mil morreram. Pense agora no que podia significar a morte de quase mil pessoas por dia numa cidade de 1918.

As pessoas caíam doentes e, em pouco tempo, os hospitais deixaram de comportá-las. Elas morriam, eram recolhidas e empilhadas em caminhões e carroças e levadas para os cemitérios. Muitas, por falta de transporte, eram deixadas na rua, mesmo. Deixou de haver enterros, por falta de madeira para os caixões e marceneiros para fabricá-los - além disso, os coveiros também começaram a morrer. Os mortos passaram a ser despejados em valas comuns e incendiados. O comércio fechou as portas e, com isso, vieram os saques. Raspadas as prateleiras dos armazéns, sucederam-se o desabastecimento e a fome. Tudo parou. A vida desapareceu dos escritórios, fábricas, teatros, bares, tribunais e até dos bordéis - o Rio tornou-se uma cidade-fantasma, de portas e janelas fechadas. Mas o vírus penetrava pelas frestas. Diz-se que todas as famílias da cidade foram atingidas.

O martírio atravessou setembro e entrou por outubro. E, de repente, a gripe deu sinais de ceder. As pessoas começaram a não morrer - ao contrário, pareciam ressuscitar, a ganhar vida, a querer cantar. Abraçaram-se, abriram as janelas, saíram às ruas. O Rio renasceu. Assim como chegara sem avisar, a gripe foi embora. Milagre? Não. As pessoas apenas haviam ficado imunes.

Não sei quantos já morreram até agora, na China e nos países afetados, por causa do coronavírus. Mas leio que a espanhola pode ter matado 60 milhões de pessoas naqueles dois meses de 1918 - dez vezes mais do que a Grande Guerra em quatro anos. E até hoje a sua história não foi contada direito. Talvez porque falte informação.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de Carnaval no Fogo - Crónica de Uma Cidade Excitante Demais (Tinta da China).

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