"Quando abrimos o consulado, Thomas Jefferson era secretário de Estado e George Washington presidente"

A 7 de julho, o consulado dos Estados Unidos da América nos Açores celebra 225 anos. É o mais antigo no mundo em funcionamento contínuo. Para assinalar a data, o DN conversou com a cônsul Kathryn Hammond.

Formada em História e especialista na área da segurança, Hammond serviu na embaixada americana em Cabul (2009-2010), no consulado no Rio de Janeiro (2010-2012) e entre 2015 e 2017, esteve em Libreville, no Gabão, como oficial de Segurança. Mãe de um menino com 15 meses, a cônsul garante que este é o lugar mais seguro onde viveu e não podia ter escolhido melhor do que os Açores para passar estes estranhos tempos de pandemia.

Chegou aos Açores em julho de 2019 como cônsul dos EUA, este é o consulado mais antigo em funcionamento contínuo, abriu a 7 de julho de 1795. Sentiu o peso da história sobre si quando soube que vinha para cá?
Acho que senti ainda antes de chegar. Comecei a ler sobre o consulado muito antes de vir para cá. E uma das coisas que fazemos - qualquer pessoa que vá assumir uma posição de liderança - é frequentar um curso em Washington. E temos de pensar no primeiro discurso que vamos fazer quando chegarmos ao nosso novo posto. Nunca deixei de pensar como quando este consulado abriu pela primeira vez Thomas Jefferson era o nosso secretário de Estado, George Washington era presidente. Não se pode recuar mais do que neste consulado. E esteve sempre em funcionamento, continuamente. Hoje continuamos a aprender coisas sobre a nossa história, novas informações sobre os nossos cônsules. Um sobre o qual li agora serviu em Ponta Delgada e voltou 20 anos depois e serviu no Faial. Tivemos alguns que repetiram. E consigo perceber porquê. Eu costumo brincar que se tivesse a oportunidade abria um consulado em Santa Maria e instalava-me lá durante uns anos.

Houve alguns pesos-pesados a servir nos Açores. O primeiro cônsul foi John Street, em 1795, houve três gerações da família Dabney, William Hunt, que nasceu escravo. As pessoas nos Açores ainda lhe falam desse legado?
Sem dúvida. E ainda é mais forte fora de São Miguel. Quando fui a Santa Maria, em agosto de 2019, não consegui ir muito longe sem que alguém me lembrasse da ligação aos EUA. E sempre que vou ao Faial não posso entrar numa loja sem que o dono me dê as boas-vindas e me lembre de que os Dabney costumavam ir lá. Há sempre uma ligação à história dos EUA, o que torna o meu trabalho tão mais fácil. Apenas tenho de entrar nos sítios e sentir esse orgulho! É maravilhoso.

Portugal foi um dos primeiros países a reconhecer a independência dos Estados Unidos. Nestes últimos quase dois séculos e meio, os Açores e os açorianos têm sido essenciais para essa relação especial?
Sem dúvida. Mesmo antes de Portugal reconhecer a independência dos EUA, já havia americanos aqui nos Açores, por isso podemos dizer que essa relação começou ainda antes da independência. Quando olhamos para alguns dos principais acontecimentos da história, podemos encontrar alguma ligação aos Açores: Guerra Civil, Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial. Até houve uma delegação, se lhe podemos chamar assim, dos confederados aqui durante a Guerra Civil americana, houve cônsules confederados nos Açores. Havia um consulado na Terceira na altura e até houve alguns funcionários que embarcaram por engano num navio confederado e depois tiveram de dar explicações a Washington.

Antes de vir para Portugal, tinha contacto com a comunidade portuguesa e lusodescendente nos EUA?
Sim, claro. Sou de Nova Iorque mas o meu avô viveu em Cape Cod, no Massachusetts, durante anos. Não me lembro de ele ir à padaria portuguesa, mas a minha mãe garante que sim. Deve ser daí que me vem o gosto pelo pão português. Acho que a minha ligação à comunidade portuguesa nos EUA cresceu verdadeiramente depois de vir para cá. Tenho comunicado com os portugueses de Nova Iorque, há muitos em Long Island, os de Fall River, New Bedford, Providence, também na Califórnia. Recebi uma carta de um luso-americano que conheci no campo de golfe no verão passado a perguntar-me qual era o melhor sítio para ver o jogo dos Patriots nos Açores. Confessei que não sabia, mas convidei-o a vir a minha casa porque eu tenho o canal. Entretanto, ele ajudou a recolher fundos para construir um monumento aos portugueses em Providence. Posso dizer que a ligação à comunidade portuguesa agora é mais forte para mim.

Essa relação muito próxima marca o trabalho no consulado em Ponta Delgada? Quantas pessoas têm nacionalidade americana nos Açores?
O número real é difícil de saber, uma vez que há tantas pessoas com dupla nacionalidade e esses entram com o passaporte português. Gosto de brincar com a minha equipa, que 10% da população do Corvo é americana. Claro que o Corvo tem apenas 400 pessoas, mas houve 40 que se registaram como americanas. Mas também há muitos americanos que aparecem de férias e passam pelo consulado para dizer olá. Alguns ficam surpreendidos por haver aqui um consulado. E quando lhes digo que é o mais antigo, ficam ainda mais espantados. Nos últimos cinco anos, o número de americanos a visitar os Açores aumentou 350%. É enorme.

Com Portugal na moda, os americanos começam a ver os Açores como destino turístico?
Sim, já perdi a conta aos casais que vieram cá em lua-de-mel. Outros vêm só de férias. Uns amigos nossos vieram cá, apaixonaram-se e quando demos por isso estavam a instalar-se aqui. Eles veem nos Açores o mesmo que eu vejo, é espantoso! Quero reformar-me e vir para cá. É uma coisa em que eu e o meu marido estamos a pensar a sério.

Tem um filho, ele gosta dos Açores?
Tem 15 meses, neste momento gosta da mãe e do pai [risos]. Mas é verdade que adora as vacas. Quando andamos de carro por São Miguel, ele faz "mu" a todas as vacas. A primeira palavra que disse em português foi "oito" e agora já consegue dizer "boa!". Uma coisa que vai ficar para sempre nas nossas memórias é que foi aqui que ele deu os primeiros passos. E este é um dos sítios mais seguros onde já vivi. Poder criar o nosso filho aqui não tem preço. É maravilhoso. Se juntarmos a isto o facto de Portugal - apesar de os casos estarem a aumentar um pouco - ter feito uma belíssimo trabalho na gestão da pandemia, é algo que faz o meu marido repetir que não podíamos ter escolhido um sítio melhor para estar neste momento.

Em pleno século XXI, podemos dizer que os Açores deram muito mais aos EUA do que pescadores e caçadores de baleias - políticos, atores, etc. Ajudam a passar um legado que vem de trás?
Sem dúvida. Houve até um momento em que o The New York Times tinha um romance com os Açores. Agora tudo está em pausa por causa da pandemia, mas mal as viagens recomecem vamos voltar a ter milhares de americanos a entrar nos Açores. E tenho a certeza de que muitos deles não são lusodescendentes, cada vez são mais americanos sem qualquer ligação a Portugal a vir cá fazer turismo. E os números vão aumentar. Há um verdadeiro desejo por um estilo de turismo que se coaduna com o que os Açores têm para oferecer: as paisagens, as baleias, o golfe. Tento sempre "vender" os campos de golfe açorianos aos meus amigos nos EUA porque são lindos. Há muita coisa aqui para os americanos descobrirem.

Em fevereiro, deu uma entrevista à Lusa sobre a Base das Lajes na qual dizia que Portugal devia dar o primeiro passo no que se refere aos Acordo Bilateral de Cooperação e Defesa. Pode explicar melhor o que queria dizer?
O que eu queria dizer - e se calhar na altura a mensagem não passou da melhor forma - é que temos estruturas para isso, sempre tivemos um diálogo aberto. O nosso embaixador, George Glass, tem um canal de comunicação bastante bom com o presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro. Tudo isto faz que se quisermos discutir temos linhas abertas para o fazer. Estamos sempre dispostos a ouvir e a dialogar. Dentro de umas semanas vamos ter aqui a reunião da Comissão Bilateral Permanente entre Portugal e EUA. O encontro neste ano vai ser virtual, mas vamos debater alguns destes assuntos. Historicamente, as Lajes sempre foram uma parte muito importante da nossa relação com Portugal e com os Açores, mas estamos constantemente à procura de novas áreas de cooperação.

Pode dar-nos um exemplo?
Fiz parte recentemente de um painel com elementos do Governo Regional e da Fulbright, e uma das iniciativas é levar cinco alunos dos Açores para os Estados Unidos e vice-versa. Já foram selecionados três estudantes para a primeira ronda. São jovens muito dinâmicos e espero recebê-los aqui. Ontem à noite jantei com uma assistente de Inglês da Fulbright vinda dos EUA, e ouvir a experiência dela, afetada, claro, pela pandemia, mas decidida a ficar por cá, dando aulas virtuais e adaptando-se, foi muito positivo. Ela tinha ido ver as baleias pela primeira vez, porque os barcos voltaram a funcionar no domingo, e estava maravilhada porque tinha medo de não o conseguir fazer antes de voltar para os EUA. Eu própria estou ansiosa por viajar pelos Açores neste verão. Vamos à Terceira e estamos a pensar ir às Flores no mês que vem. Estou a seguir o desafio do Governo Regional de fazermos férias nos Açores. Já estava a pensar ficar por cá neste ano, por isso foi fácil aceitar o desafio. Estamos ansiosos por, na terça-feira, celebrarmos os 225 anos do consulado. Vai ser uma celebração reduzida. Tínhamos pensado ter cá o embaixador Glass e ele ia viajar pelas nove ilhas dos Açores durante um mês. Infelizmente não vamos poder fazer isso, mas vamos visitar o túmulo do primeiro vice-cônsul, que está aqui sepultado, mesmo à esquina da minha casa. Mal podemos esperar.

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