A guerra que o avô da família portuguesa de Sam Mendes contou

Nascido numa família madeirense, o avô de Sam Mendes contou a sua história de sobrevivência nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Alfred Mendes foi a inspiração para "1917", o Melhor Filme do Melhor Realizador nos Globos de Ouro.

Antes de segurar neste domingo as duas estátuas dos Globos de Ouro que o reconheciam como o Melhor Realizador pelo filme 1917 e outra pelo Melhor Filme, 1917 também, o cineasta Sam Mendes já tinha sido premiado a 27 de dezembro pela rainha Isabel II para receber o título de Sir. A razão era a mesma, a atividade que tornou conhecido este descendente de portugueses: a arte do teatro e do cinema, que já lhe concederam uma lista infindável de prémios e até um Óscar pelo filme Beleza Americana.

A ascendência portuguesa de Samuel Alexander Mendes não é coisa rara em Hollywood, afinal o ator Tom Hanks (Prémio de Carreira nos mesmos Globos de Ouro) também é descendente de um bisavô português, Emmanuel Rose, e Keanu Reeves replica a ascendência portuguesa por ser filho de Rose Miguel.

A ligação a Portugal de Sam Mendes conta poucas gerações de permeio e deve-se ao seu avô, Alfred Mendes, que é também o responsável principal pelo filme 1917 ter acontecido na carreira do neto, devido às histórias sobre a Primeira Guerra Mundial que este escreveu. Não é por isso fruto do acaso que o mais recente filme que o coloca na estrada principal para os Óscares, 1917, é dedicado ao avô e que o argumento que escreveu a meias com a sua habitual parceira, Krysty Wilson-Cairns, incorpora muitas das suas memórias de família.

O avô Mendes era filho de um imigrante português que partiu da Madeira quando os ingleses deixaram de usar mão-de-obra escrava nas plantações agrícolas das Caraíbas e aportaram na ilha portuguesa para recrutar os naturais com o objetivo de os levar para Trindade e Tobago.

A emigração não é o tema do filme mas sim a armadilha em que dois soldados vão cair durante a guerra de trincheiras que caracterizou o primeiro grande conflito mundial do século XX. Mas 1917 nunca surgiria na cabeça de Sam Mendes se não fosse a produção literária do avô, reconhecida. Aliás, Alfred Hubert Mendes é reconhecido como um dos grandes contistas e romancistas de Trindade e Tobago, um dos principais autores que se popularizaram nos anos 1930 através da revista Beacon (daí fazer parte do grupo de escritores Beacon) e que se antecipou em muito à moda literária que hoje existe nos Estados Unidos da América de se contar as histórias dos imigrantes ouvidas às anteriores gerações.

A importância de Alfred Mendes enquanto escritor foi tanta que o Prémio Nobel da Literatura de 1992, Derek Walcott, disse ser ele "o pai da literatura caribenha". Segundo Ferreira Fernandes, autor de Madeirenses Errantes, onde narra num extenso capítulo a história do avô de Sam Mendes, "Alfie Mendes tem um conto em que relata a ligação das famílias protestantes relacionadas com os portugueses que foram para Trindade e Tobago" e outras histórias literárias, representativas da corrente de literatura que é o primeiro representante, a Black Renaissance.

Apesar da ascendência portuguesa, desconhece-se qualquer visita do realizador à Madeira para conhecer a terra dos seus antepassados. Uma pergunta que já lhe foi feita durante as entrevistas a propósito do filme Skyfall e que o crítico do DN Rui Pedro Tendinha se recorda de Sam Mendes ter confirmado a ascendência mas também dizer que "até ao momento nunca se ter proporcionado uma visita".

Sam Mendes já reconheceu em várias entrevistas sobre o filme 1917 que sem esse registo literário de Alfred Mendes nunca teria avançado neste projeto. Esta viragem na sua carreira deve-se, segundo alguns críticos de cinema, à sua pretensão em se desligar de filmes como os 007 - Skyfall e Spectre - que realizou e devolvê-lo ao cinema que lhe deu o Óscar, o filme Beleza Americana.

1917 é dedicado ao avô, cujos contos foram a matéria-prima para o seu mais recente trabalho cinematográfico. Em entrevistas, Sam Mendes já caracterizou o avô como um "grande contador de histórias" e que usa um registo narrativo que agrada ao encenador de teatro que existe em si, pois Alfred Mendes "era muito teatral e criava diálogos bastante magnéticos e personagens muito carismáticas".

Entre as particularidades que Sam Mendes recorda do descendente de madeirenses está o hábito de lavar as mãos compulsivamente. Não será por acaso, explica: "O meu pai disse-me que era devido à sensação constante da lama das trincheiras em que tinha estado na Primeira Guerra Mundial."

Se em pequeno, Sam Mendes se espantava com essa obrigatoriedade de andar sempre de mãos lavadas do avô, só muito mais tarde é que o realizador conseguiu obter mais respostas de Alfred Mendes e ter uma visão do que fora a sua vida enquanto soldado. Como contou numa entrevista, Sam Mendes só foi capaz de convencer o avô a fazer revelações já nos anos 1970: "Após cinco décadas em que silenciou esses acontecimentos da sua vida, ele acabou por desabafar e contar muito do que vivera."

Segundo Sam Mendes, o avô foi mobilizado aos 16 anos e a aventura militar seduziu-o: "Só que nunca imaginou o que estava à sua espera. As suas narrativas passaram a ser sobre o sofrimento das trincheiras em vez de atos de bravura." Acrescenta: "Como era de baixa estatura, era frequentemente escolhido como mensageiro entre trincheiras, tanto que nunca esqueci essa imagem de um homem pequeno que deslizava num horizonte de neblina."

E o avô surge retratado conforme a memória de Sam Mendes, pois o argumento de 1917 conta a história de dois jovens soldados britânicos que têm de atravessar território inimigo e entregar uma mensagem de modo a impedir um ataque violento contra centenas de soldados. No entanto, essa dupla dirige-se para uma armadilha de que não desconfiam, recriando momentos épico da Primeira Guerra Mundial.

Para Sam Mendes, já o disse, a adaptação das histórias do avô lusodescendente pode não ficar por aqui.

Após ter estado na Primeira Guerra Mundial, Alfred Mendes foi trabalhar para Barbados enquanto escrevia as suas histórias e onde viveu até aos 94 anos (1897-1991). Para trás ficava a vida em Trindade e Tobago, onde viveu com os pais portugueses e os seus cinco irmãos, antes de ter ido estudar para a Inglaterra aos 15 anos e não ter ingressado na universidade como era o seu plano devido à participação na guerra. Quatro anos depois, com uma medalha ao peito, regressa a Trindade e Tobago. Ocupa-se literariamente primeiro com poesia e só depois surge a ficção na vida do seu avô, que irá inspirar décadas depois o filme 1917 do neto Sam Mendes.

O realizador nasceu na Inglaterra e é filho de Valerie Helene Mendes e Peter Mendes, respetivamente escritora de livros infantis e professor universitário. A sua carreira chamou à atenção dos media quando encenou Tchekhov com Judy Dench e posteriormente na Royal Shakespeare Company. Casou-se em 2003 com a atriz Kate Winslet, de quem se separou sete anos depois.

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