Cemitério afegão

É um mito que o Afeganistão seja um cemitério de impérios, por muito atrativa que seja a expressão para justificar as dificuldades que sucessivas potências, dos britânicos aos americanos passando pelos soviéticos, tiveram quando enviaram tropas para o país. Talvez seja abusivo lembrar Alexandre e Genghis Khan como conquistadores que se passearam por terras afegãs, afinal num caso foi há mais de dois mil anos, noutro há quase mil. Contudo, a distância histórica já não parece contar quando, para explicar o regresso dos talibãs e a retirada americana em 2021, se fazem analogias com o sucedido à União Soviética no século XX ou à Grã-Bretanha no século XIX. Afinal, a fórmula para a tal derrota dos impérios sempre foi a soma de uma conjugação de tribos guerreiras com uma geografia montanhosa ou semidesértica, tudo hostil à presença estrangeira.

Contudo, se algum império caiu por causa dos afegãos foi talvez o soviético em 1991. E, mesmo assim, os problemas estruturais da federação comunista que sucedera após a revolução de 1917 ao império russo eram bem mais importantes do que o atoleiro afegão. A economia deixara de funcionar com o mínimo de eficiência, as elites dirigentes, incluindo o presidente Mikhail Gorbachev, deixaram de crer no modelo de país criado por Lenine.

No caso dos britânicos, no século XIX, é certo que os antepassados desses mujaedines que fizeram a vida negra aos soviéticos massacraram as tropas coloniais em algumas ocasiões, sobretudo em 1842, durante a retirada de Cabul em direção à Índia. Mas a Grã-Bretanha acabou por conseguir uma espécie de tutela sobre o Afeganistão, evitando que caísse na esfera de influência da Rússia, que na época conquistou boa parte da Ásia Central, e não há notícia de que a rainha Vitória tivesse considerado o império em risco.

Ou seja, a retirada americana do Afeganistão deverá estar finalizada a 11 de setembro e não há grandes possibilidades de que abale os Estados Unidos. A guerra foi desencadeada por George W. Bush para retaliar a proteção dos talibãs a Bin Laden, mandante dos atentados de 11 de setembro de 2001, mas nunca foi popular entre os seus sucessores, fosse Barack Obama, Donald Trump ou agora Joe Biden. E as 3500 baixas da força internacional que servia de apoio ao exército afegão em formação, assim como os gastos numa guerra a 11 mil quilómetros de Washington, servem de argumento para a saída.

O mais dramático é que se as consequências para a América são mínimas (a não ser que um vazio de poder volte a transformar o Afeganistão em base do terrorismo jihadista), adivinham-se terríveis para muitos afegãos. Sentindo-se abandonados, os soldados governamentais afegãos estão a dar escassa luta aos talibãs e estes já sonham com a recaptura de Cabul, de onde foram expulsos há 20 anos. Também se imagina que governarão de forma tão obscurantista como antes, com tudo o que isso significa em termos de direitos humanos em geral e muito especialmente para o estatuto das mulheres.

Nos últimos anos, com os estudantes de religião confinados às montanhas, muitas afegãs tinham mostrado que o islão não as impedia de ser professoras ou médicas, muito menos de ir à escola. Tudo pode voltar agora ao princípio. E sentiremos que tanto esforço internacional para reconstruir o Afeganistão - até dois soldados portugueses mortos - de nada valeu. O Afeganistão, a menos que as potências mexam depressa os cordelinhos para a emergência de líderes talibãs mais moderados, corre sérios riscos de se tornar um cemitério não de impérios mas da sua efémera sociedade moderna.

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