Com o povo revoltado, Beirute espera pela comunidade internacional

Equipas especializadas em resgate, pessoal e equipamento médico estão no terreno ou a caminho. E depois? Os libaneses estão revoltados e a classe política dá sinais de continuar alheada.

Um habitante de Beirute diz a Emmanuel Macron que a ajuda de que o Líbano precisa é de "livrar-se desta classe política", composta por "terroristas", ao que respondeu: "O Líbano é um país soberano, não me cabe a mim fazê-lo, mas a vós." Só o facto de o chefe de estado francês ter saído à rua, ouvido e falado com as pessoas criou uma onda de comoção numa sociedade em que neste clima político algum o faria.

Revolta e desespero nas ruas de Beirute, onde se gritava "o povo quer a queda do regime", ou "Michel Aoun [o presidente] é um terrorista", e Emmanuel Macron respondeu com palavras de esperança e de desafio.

O francês prometeu uma iniciativa política que engloba uma conferência internacional de doadores em troca de reformas políticas, e disse que voltaria no próximo mês para ver o andamento da ajuda e para que esta "não caia nas mãos da corrupção".

Noutro momento, uma jovem confrontou o presidente de França, em inglês, que este estava a sentar-se com "senhores de guerra que andam a enganar o povo há mais de um ano. "Não estou aqui para ajudá-los. Estou aqui para ajudar-vos", respondeu Macron, tendo acabado o diálogo com um abraço.

A visita do presidente francês expôs mais do que a zona de desastre provocada pelas explosões de terça-feira. Expôs o desgaste total da classe dirigente libanesa, que arrastou uma sociedade até há anos com um nível de vida médio para a pobreza, graças à mistura da corrupção com o peso cada vez mais insuportável da interferência na vizinha Síria via Hezbollah.

Expôs uma elite que perante o sucedido tentou eliminar qualquer investigação séria ao criar uma comissão político-militar e que rapidamente começou a empurrar as responsabilidades, caso do primeiro-ministro Hassan Diab, que dizia "não estar consciente" do perigo, bem como o ministro Michel Najjar, que tutela o porto: "Nenhum ministro sabe o que está nos hangares ou contentores e não me compete saber."

Declarações que foram amplamente desmentidas pelas notícias nos meios locais de que desde 2014 havia avisos por parte das Alfândegas, e em dezembro de 2019, um relatório da agência Serviços de Segurança.

Em poucas horas uma petição online a solicitar que o Líbano fique sob tutela da antiga potência colonial, França, durante 10 anos, reuniu mais de 55 mil assinaturas.

Manifestações nas ruas

A ministra da Justiça Marie-Claude Najm foi confrontada por manifestantes no meio da rua, que exigiram a sua demissão e atiraram-lhe água.

À noite, no centro de uma capital às escuras, as forças de segurança lançaram gás lacrimogéneo junto do Parlamento, enquanto noutro ponto manifestantes cantavam "Badri Daher [diretor-geral das Alfândegas] é um terrorista".

Os manifestantes, que protestavam contra a tragédia, enquanto símbolo da incompetência e corrupção das autoridades, vandalizaram estabelecimentos comerciais e apedrejaram a polícia no quarteirão do parlamento. A resposta policial provocou feridos entre os manifestantes.

Entretanto, ativistas apelaram para uma grande manifestação antigovernamental no sábado, num evento intitulado "Pendurá-los na forca".

Dezasseis funcionários do porto de Beirute foram detidos, disse o procurador militar Fadi Akiki, em resultado de interrogatórios a 18 pessoas. Os detidos são funcionários portuários e aduaneiros, bem como trabalhadores de manutenção e os seus gestores, disse Akiki.

O banco central tinha ordenado o congelamento de bens de sete funcionários do porto e da alfândega, incluindo Badri Daher.

Numa cidade que ficou com uns 300 mil habitantes sem casa - e em que pelo menos 154 pessoas morreram, segundo os números atualizados esta sexta-feira pelo ministro da Saúde libanês, Hamadp Hassan -, Emmanuel Macron apelou a um inquérito internacional, subscrevendo os pedidos da população para uma investigação independente. "É necessária uma investigação internacional, aberta e transparente para evitar que as coisas permaneçam escondidas e que as dúvidas se instalem."

Recessão, hiperinflação, desemprego em níveis sem precedentes, mais de 50% da população no limiar da pobreza, terceira maior dívida do mundo, incapacidade para pagar as dívidas e um impasse, moeda desvalorizada 80% em relação ao dólar levaram o país à tempestade perfeita.

Os doadores internacionais e o Fundo Monetário Internacional sinalizaram que só há dinheiro em troca de reformas, mas o Hezbollah tem rejeitado ajuda com condições.

Quem estende a mão com o quê

Não é só de ajuda imediata de que o pequeno país do Mediterrâneo necessita: há uma urgência em obter ajuda internacional, e não só para a reconstrução do porto. Após o país ter entrado em incumprimento pela primeira vez em março, o governo prometeu reformas e dois meses depois apresentou um plano baseado na agricultura, no turismo e na banca.

Mas ao fim de 17 reuniões com o FMI para desbloquear milhares de milhões de dólares, os membros da instituição com sede em Washington deixaram a mesa de negociações. À AFP uma fonte disse que os representantes do FMI "não sentiram um compromisso sério por parte da delegação libanesa" em relação às reformas.
"Cada facção está a lutar pelos seus interesses pessoais enquanto o país arde", disse.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL

O FMI, pela mão da diretora Kristalina Georgieva, comunicou que está a explorar todas as formas possíveis de apoiar o povo libanês. "É essencial ultrapassar o impasse nas discussões sobre as reformas cruciais."

BANCO MUNDIAL

O Banco Mundial disse que iria mobilizar financiamento público e privado para a reconstrução e recuperação, e "estaria também disposto a reprogramar os recursos existentes e a explorar financiamento adicional para apoiar a reconstrução de vidas e meios de subsistência das pessoas afetadas por esta catástrofe", mas sem adiantar valores.

UNIÃO EUROPEIA

Bruxelas anunciou quinta-feira que desbloqueou 33 milhões de euros para financiar a ajuda de emergência ao Líbano e mobilizou recursos materiais, incluindo um navio-hospital italiano, para ajudar nos esforços de socorro. Esse valor deverá permitir cobrir as necessidades imediatas dos serviços de emergência e hospitais da capital, disse a Comissão Europeia.

Está também prevista uma conferência de doadores para mobilizar fundos adicionais para a reconstrução após uma avaliação do que é necessário.

Numa carta aos 27 membros da UE divulgada na quinta-feira à noite, a presidente da Comissão Ursula von der Leyen e o presidente do Conselho Europeu Charles Michel apelaram aos estados membros para "contribuírem para o caminho de recuperação que se avizinha".

Recordaram aos estados membros a "forte parceria" entre a UE e o Líbano, "um país de importância estratégica que acolhe o maior número de refugiados per capita". "Temos um interesse comum em agir agora para limitar a consequência desta tragédia", disseram.

Em conversa com o primeiro-ministro Hassan Diab, von der Leyen disse que a Comissão Europeia está pronta a ajudar o Líbano com apoio comercial e aduaneiro preferencial.

A UE também ativou o seu sistema de cartografia por satélite Copernicus para ajudar a avaliar os danos.

ITÁLIA

Além do navio hospital em missão coordenada com a UE, a Itália enviou especialistas, bombeiros e mais de oito toneladas de ajuda humanitária e que incluía equipamento médico, como kits cirúrgicos e de trauma.

"O que aconteceu é uma tragédia que atingiu o povo libanês, e do nosso ponto de vista ajudar um país amigo como o Líbano também significa parar um processo de desestabilização e instabilidade que corre o risco de ter um efeito sobre a migração"., disse o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano Luigi Di Maio.

FRANÇA

Enviou dois aviões com 55 pessoas, entre especialistas em buscas e salvamento, uma unidade de peritos químicos, 10 médicos, além de 6 toneladas de equipamento de saúde. O presidente francês prometeu, durante a visita a Beirute, enviar mais ajuda. Na próxima semana chega o porta-helicópteros anfíbio La Tonnerre que levará mais pessoal médico e equipamento, além de ter capacidade de internamento.

ALEMANHA

Seguiram de Frankfurt 47 especialistas em busca e salvamento acompanhados de cães de busca, além de 15 toneladas de equipamento. Através da Cruz Vermelha seguiram 1,2 milhões de euros para estabelecer postos de primeiros socorros em Beirute e fornecer equipamento médico.

GRÉCIA

Uma equipa especializada em buscas e salvamento de 12 pessoas, um cão de resgate e dois veículos para fins especiais.

HUNGRIA

Budapeste vai doar 1 milhão de euros em ajuda humanitária para ajudar nos esforços de salvamento e reconstrução.

CHIPRE

Nicósia, onde a explosão foi ouvida, enviou em dois helicópteros 10 socorristas e oito cães de salvamento. O ministro dos negócios estrangeiros cipriota disse que Nicósia tinha fretado um avião para entregar material médico e repatriar cipriotas que quisessem deixar Beirute.

REPÚBLICA CHECA

Uma equipa de 36 pessoas de busca e salvamento.

DINAMARCA

Ajuda no valor de 1,6 milhões de euros para financiar trabalhos de socorro e emergência, incluindo para hospitais, bem como para garantir comida, água e abrigo.

PAÍSES BAIXOS

Uma equipa de busca e salvamento com 67 pessoas.

NORUEGA

Quarenta toneladas de equipamento médico e 2,3 milhões de euros em ajuda financeira.

POLÓNIA

Material médico e 39 socorristas acompanhados de quatro cães.

REINO UNIDO

Um pacote de ajuda de 5,5 milhões de euros, incluindo ajuda de busca e salvamento e apoio médico especializado. O HMS Enterprise, navio hidrográfico que estava ancorado em Limassol, Chipre, está a caminho de Beirute para avaliar os danos no porto.

RÚSSIA

Cinco aviões com equipamento médico, um hospital de campanha e pessoal médico. O equipamento inclui um laboratório de testes de coronavírus e equipamento de proteção, entre outros materiais de socorro.

CANADÁ

O governo canadiano vai enviar 3,1 milhões de euros em ajuda, parte da qual de imediato para a Cruz Vermelha libanesa.

EUA
Um avião militar C-17 da base aérea de Al Udeid, no Qatar, entregou 11 paletes de ajuda, com mais dois carregamentos de alimentos e água entregues nas próximas horas.
"Os EUA estão ativamente empenhados em entregar alimentos, água e provisões médicas às Forças Armadas libanesas para satisfazer as necessidades críticas do povo libanês", disse o general Frank McKenzie.

AUSTRÁLIA
O governo australiano comprometeu-se com um montante inicial de 1,2 milhões de euros para o esforço de socorro. A ajuda será fornecida ao Programa Alimentar Mundial e à Cruz Vermelha para alimentos, cuidados médicos e artigos essenciais. O primeiro-ministro Scott Morrison diz que o seu país está a considerar novos apoios.

JORDÂNIA

Um hospital de campanha com 160 médicos e enfermeiros.

BANGLADESH

Alimentos de emergência, provisões médicas e uma equipa médica.

EGITO

Dois aviões com material médico.

INDONÉSIA
As forças de manutenção da paz indonésias, constituído por 1234 soldados integrantes das Forças Interinas das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) têm contribuído nas operações pós-desastre.

IRÃO
Nove toneladas de alimentos, bem como medicamentos, equipamento médico, pessoal médico e um hospital de campanha.

IRAQUE

Um avião com ajuda médica de emergência e 20 camiões-cisterna com gasóleo.

KUWAIT e EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

Ajuda médica e bens essenciais.

QATAR

Quatro voos com ajuda médica, dois hospitais de campanha de 500 camas cada, equipados com ventiladores e outros materiais.

TUNÍSIA
Dois aviões com alimentos e ajuda médica. A equipa médica poderá trazer até 100 feridos para os hospitais tunisinos.

TURQUIA
A Turquia enviou equipas de busca e salvamento juntamente com pessoal médico de emergência.

NAÇÕES UNIDAS
Libertou 9 milhões de dólares do Fundo Humanitário Libanês e financiamento adicional do Fundo Central de Resposta de Emergência (CERF). Destacou equipas para ajudar na resposta a emergências.

OMS e CRUZ VERMELHA - A Organização Mundial de Saúde e a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho enviaram material médico, incluindo equipamento de proteção pessoal, medicamentos e equipamento cirúrgico.

EMPRESAS

A Western Union anunciou que até dia 13 não vai cobrar transferências monetárias internacionais em dólares americanos ao Líbano.

A marca italiana de joalharia Repossi informou que as receitas totais das vendas do modelo de anel Berbere, à venda por 2900 euros, revertem para a Cruz Vermelha do Líbano.

* atualizada às 14.20

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