"Queremos criar médicos que se liguem aos doentes e que não sejam somente técnicos"

É um projeto de há muito tempo, quase desde a fundação, e já lá vão mais de 50 anos, mas só depois de 2016 foi possível alinhar tudo e todos, até internamente, para avançar. E, ao fim de quatro anos, depois de um chumbo amargo, em 2019, a Universidade Católica vê o seu curso de Medicina ser aprovado pela Agência de Avaliação e de Acreditação do Ensino Superior. O sim trouxe a polémica para o seio da classe, mas para a instituição trouxe o sabor a "justiça". "É um projeto transformador." À conversa com o DN, a reitora, Isabel Capeloa Gil, e o diretor do curso, António Medina Almeida, falam dos bastidores do projeto e do futuro.

E na sala de reuniões da Reitoria da Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, que aguardamos por Isabel Capeloa Gil, o sexto reitor da instituição, fundada em 1967, e a primeira mulher no cargo.

Desde quarta-feira que o seu dia é feito entre entrevistas a órgãos de comunicação social, reuniões de direção e os últimos preparativos para o novo ano letivo, com início na segunda-feira, em tempos de pandemia.

O motivo da azáfama redobrada nesta época é a acreditação do curso de Medicina pela Agência de Avaliação do Ensino Superior (A3ES), divulgada na terça-feira à noite. António Medina Almeida, médico, professor universitário e diretor do serviço de hematologia do Hospital Luz Lisboa e diretor do curso de Medicina, aguarda connosco.

O desafio lançado era uma conversa com a equipa que esteve na linha da frente deste projeto, falta o vice-reitor, o padre, médico e professor catedrático José Pereira de Almeida.

A conversa acaba por ser a quatro, e perante todos os antecessores de Isabel Capeloa Gil, expostos em telas na sala, e que também lutaram por este objetivo.

Como faz questão de sublinhar a reitora, "é um projeto que existe quase desde a fundação da universidade". Por isso, "o mérito é da instituição e de todos que nele têm participado".

Isabel Capeloa Gil entra a sorrir e a pedir um café. "Desculpem, tem sido uma correria. Foi mais uma entrevista, mas à rádio, não foi a um jornal", explica, como não tendo de nos preocupar com a concorrência.

Mostra-se feliz. António Medina Almeida diz mesmo: "Estamos satisfeitos e entusiasmados." Não foi um percurso fácil, e se antes de eles terem chegado ao projeto este não tinha sido possível concretizar por "não existirem as condições necessárias no país", nomeadamente "a dimensão de um hospital privado como o da Luz", agora, ou melhor desde 2016, que "era assim. Havia uma parceria triangular - Católica, Universidade de Maastrich, com o seu plano pedagógico, e a parceria com o Hospital da Luz, que nos permitiu avançar", refere Isabel Capeloa.

A reitora assume ter sido "uma decisão arriscada, claramente arriscada". "Havia muitos receios", mesmo internamente, "tanto poderia ser uma oportunidade transformadora" como "um desafio perdido e destruidor da própria instituição", mas a universidade assumiu esse risco e avançou.

E o sabor que registam hoje não é o de vitória - porque "não estamos num campo de batalha", argumenta, mesmo depois do chumbo amargo de 2019, que, concordam ambos, teve "razões políticas" e "não técnicas" - mas o de "justiça". "O curso é um projeto transformador", tem um "currículo exemplar" e "um corpo docente com competência científica e prestígio".

Curso aposta numa medicina tecnológica, num currículo de excelente qualidade e num ensino muito centrado nos alunos.

Condições sine qua non para a UCP. "A primeira condição era termos um projeto académico de grande qualidade, liderado por profissionais e professores muito qualificados e de grande prestígio na área." E apontando para António Medina Almeida refere: "O António não o pode dizer, mas eu posso. Ele foi um talento recrutado desde o primeiro momento para este projeto, o qual se deve muito ao seu empenho e à sua visão." Um projeto que quiseram assentar "em novos valores da medicina" e que quem o integrasse teria de ter também o cunho de "moeda nova". Ou seja, "não se começa um projeto novo com moeda antiga tem de ser com moeda nova", assume Isabel Capeloa.

Portanto, inovação e transformação eram alguns dos objetivos traçados à partida, e sem a preocupação de não haver prata da casa suficiente - doutorados e mestres em Portugal em número suficiente para formar a equipa de docentes. "A Católica tem o seu corpo docente, mas e é importante que se saiba que em Portugal existe uma pool enorme de doutorados que não têm qualquer relação com as faculdades de Medicina já existentes e que são profissionais de grande qualidade, alguns com vasta lista de publicações com impacto científico na área e outros com currículo de médicos extraordinários."

Pedro Simas e Paulo Oom na equipa

E quando perguntamos quem são riem-se os dois. Alguns, dizem, já participaram nesta primeira fase, integrando a comissão instaladora, com outros há pré-acordos e os convites serão formalizados agora. Mas há aqueles que já podem divulgar, como o do virologista Pedro Simas, que será o diretor do centro de investigação da faculdade - Center for Human Intelligence - e docente. Ou o professor Paulo Oom, especialista em pediatria e cuidados intensivos pediátricos, ou ainda, e de outra área, a professora Maria José Sousa, doutorada em Gestão. António Almeida refere ainda Luís Mascarenhas Lemos, professor de Anatomia da Universidade Nova de Lisboa, Rodrigo Sousa e José Loureiro. Os restantes ficarão para a apresentação oficial do curso, que deverá ocorrer "durante este outono".

A abertura do curso tem data marcada para setembro de 2021. No primeiro ano receberá apenas 50 estudantes, mas depois as turmas serão de cem alunos. O sentimento de missão cumprida, que teve agora a primeira conquista, com a aprovação técnica dos pares nacionais e internacionais do ensino superior e da medicina, já que o parecer da Ordem dos Médicos "não é positivo nem negativo", só virá quando "o primeiro aluno do curso pisar a faculdade", diz a reitora.

Até lá, e durante este ano, há que fazer acontecer. Ultimar as infraestruturas, com a construção do edifício da faculdade, na zona de Sintra, equipá-lo com a tecnologia necessária, porque esta "é uma das singularidades do curso: a aposta muito forte numa medicina baseada em tecnologia". Uma aposta que estimam irá custar em termos de investimento cerca de "quatro milhões de euros". A outra aposta, que Isabel Capeloa também enuncia como uma singularidade, "é a componente de investigação", que consideram essencial para a formação médica desde o início.

Duas apostas que acreditam darão ao curso a classificação de "melhor formação em Medicina no país", muito centrada no aluno, com muito acompanhamento, personalizada, e com "uma excelente qualidade académica, tecnológica, de investigação e prática clínica".

Acreditação reconhece qualidade

À distância regulamentar ditada pela covid-19, numa sala ampla, e sem máscaras, Isabel Capeloa Gil e António Medina Almeida não escondem a "satisfação" e o "orgulho" no projeto. "A decisão da A3ES dá-nos o sabor de justiça porque é uma acreditação que reconhece o projeto em todas as suas vertentes", refere António Almeida.

Isabel Capeloa aproveita para explicar que algumas das questões levantadas no parecer da A3ES, como o facto de a acreditação ter o selo de "condicional por um ano", são um procedimento normal. "São questões naturais, estranho seria que a agência não impusesse que daqui a um ano não tivéssemos de demonstrar que o edifício está pronto, que os órgãos da faculdade estão nomeados - temos comissão instaladora e agora com a integração do corpo docente iremos nomear o conselho científico e o conselho pedagógico".

E vão ter o edifício pronto daqui a um ano? Nenhum dos dois hesita: "Sim", avançam ao mesmo tempo. Mas se as questões agora colocadas pela agência são "naturais e razoáveis", o mesmo já não preconizam em relação ao chumbo dado no ano passado ao projeto apresentado em 2018. Esta decisão, dizem sem receios, teve "razões políticas", embora não as especifiquem.

Isabel Capeloa e António Almeida sabem bem que a criação de um curso de Medicina no ensino privado, e em concreto na UCP, não tem sido aceite de forma pacífica, quer entre os pares do ensino superior quer na classe médica e política, e até junto de outras instituições.

Nesta semana mesmo, até os estudantes de Medicina manifestaram receios sobre como será feito o acesso e a formação pós-graduada. O diretor do curso não acredita que a polémica ou as críticas, muitas vezes feitas em "tom mais agressivo", tenham que ver com "o medo da concorrência", acredita que seja pela exigência da qualidade, até mesmo quando se fala da posição da Ordem dos Médicos que, no ano passado deu parecer negativo.

"Nós, Católica, encaramos essas reações como uma preocupação em relação à qualidade. No fundo, aquela que sempre tivemos também, porque queremos ter a certeza de que o nosso curso vai fornecer a melhor formação médica aos nossos alunos e que as condições que vamos disponibilizar também serão as melhores. Não vemos estas reações necessariamente como uma agressão, se bem que às vezes o tom possa parecê-lo. Acredito que o que queremos todos é que a qualidade da medicina seja boa. E tudo o que nos disserem ser necessário acautelar faremos."

A mesma posição já não têm quando abordamos o chumbo de 2019, que a UCP não aceitou e recorreu da decisão. "O argumento de que não assegurávamos a formação pós-graduada era falacioso e decidimos recorrer fortemente", argumenta Isabel Capeloa.

Em causa estava precisamente o facto de a universidade não garantir o acesso dos formandos ao internato médico, mas isso "nenhuma universidade garante". Portanto, "esta razão não poderia ser uma razão para chumbar o projeto, extravasou claramente aquilo que era o âmbito da avaliação técnica", defende ainda.

"Todos os projetos que começam do zero são um processo de aprendizagem. Quem diz que tem um currículo escrito em pedra está a prestar um mau serviço ao ensino superior."

As vagas para o internato médico, ou mapa de capacidade formativa, são definidas anualmente pelo Ministério da Saúde, com base numa proposta feita pelo Conselho Nacional do Internato Médico e pela Ordem dos Médicos. Portanto, esta e garantia "é apanágio do governo" e não das universidades.

O primeiro chumbo desiludiu, mas não serviu, conforme contam, para desistirem, mas sim para"melhorar". "Todos os projetos que começam do zero são um processo de aprendizagem. Quem diz que tem um currículo escrito em pedra está a prestar um mau serviço ao ensino superior", defende a reitora. António Medina Almeida concorda e a rir diz mesmo que "as alterações que nos foram propostas nem sequer eram substanciais, mas fizemo-las". No caso das recomendações da Ordem dos Médicos: "Pediam menos carga horária para os professores e nós aumentámos a equipa de docentes, reduzimos a carga horária e melhorámos o currículo."

Os reitores e os cursos de Medicina

O desafio que tinham aceitado levar para a frente em 2016 - assim que Isabel Capeloa foi nomeada reitora e quando acharam que estavam reunidas as condições para o fazerem - não terminaria com o chumbo de 2019. Mas tiveram sempre alguém a dizer-lhes tanto nesta altura como no início que não iriam conseguir.

Um ano depois têm "o consolo e a satisfação" de ver o projeto aprovado. E Isabel Capeloa recorda o aviso de colegas da Universidade de Harvard, nos EUA, que lhe disseram: "Uma faculdade de Medicina é o que todos os reitores desejam, mas é o que destrói todos os reitores." Ri-se. Acrescentando que já começou a receber telefonemas de pessoas que antes lhe tinham dito: "Não vais conseguir" ou que "um curso de Medicina na privada nunca passará em Portugal", e que agora lhe dão os parabéns, comentando:"Sempre te disse que ias conseguir." Volta a rir-se.

Medicina: o curso mais caro da UCP

Depois de quatro anos fervorosos, de muito trabalho, de avanços e recuos, de mudanças de pessoas, de disciplinas, de um profundo processo de aprendizagem, a reitora da Católica e o diretor de curso focam-se no futuro, no mudar o mind set do ensino da Medicina e dos cuidados de saúde com este curso.

O curso vai ser em inglês o que dará aos alunos formação para concorrer, se quiserem, à especialidade em qualquer parte do mundo.

As propinas ainda não têm valor definido, mas há já uma certeza: "Será mais caro do que no ensino público", mas ao nível de qualquer outra universidade europeia para onde tantos alunos portugueses têm ido fazer formação, como Navarra, Pilsen ou Praga. "Estamos a calcular quanto custa a formação de um médico atualmente. O valor, até de acordo com números oficiais, deverá rondar os cem mil euros, cerca de dez mil anuais", assume a reitora, mas "estamos a tentar diminuir com recurso a apoios".

Outra coisa certa, e referida, "é que este curso não é financiado pelo Orçamento do Estado". Isso faz que "o custo da formação do médico seja integralmente pago pelo esforço dos estudantes e da universidade". Isabel Capeloa Gil reconhece que o valor de propina para Medicina será o mais caro da universidade, sobrepondo-se aos 800 euros mensais pagos pelos estudantes de Medicina Dentária, mas, sublinha que "a universidade está a tentar que fique abaixo dos mil".

De qualquer modo, a UCP "tem uma política de apoio social e os alunos que tiverem a vocação e o desejo de serem médicos "não será por uma questão de dinheiro que deixarão de fazer a formação na Católica". António Almeida acrescenta.: "A admissão será feita com base na excelência académica e em entrevistas pessoais. Os melhores, mesmo que não tenham capacidade para pagar propinas, serão abrangidos por projetos de apoio."

Rejeitando assim a ideia de que para o curso da UCP poderiam ir apenas os alunos que não conseguem entrar em outras faculdades.

"A nossa formação será a melhor do país em Medicina." Disto não têm dúvidas. "Os nossos alunos começarão por ter contacto clínico desde o início, o que não acontece no ensino público. Primeiro com doentes simulados, para aprenderem a comunicar com os doentes. É uma competência difícil", diz, confessando que quando teve na sua frente o primeiro doente "não sabia o que fazer, como iniciar a conversa ou como a gerir. É um desconhecido que ali está e um médico tem de saber comunicar".

Aluno será parte integrante das equipas

O curso assentará no ensino acompanhado, centrado no aluno, e este sempre como parte integrante da equipa, abolindo o sistema dos alunos que entram e saem de um serviço sem terem tempo de se adaptar. Aliás, "nos primeiros anos os alunos vão ter um ensino centrado neles, com metodologias que vão desde o ensino clássico ao ensino tutorial", explica o diretor.

"Vamos ter dez grupos de dez alunos, porque iremos ter cem por ano, que irão habituar-se a resolver os problemas que lhes serão colocados em grupo e na discussão com os pares."

Mais. "Vamos apostar muito nas aulas de simulação, com doentes simulados e muita informática", continua António Almeida. "Os alunos terão uma área de comunicação, com gabinetes de consulta, onde vão estar a observar doentes simulados, onde a conversa será gravada, para depois poderem rever o que fizeram e discutirem-no com os seus pares."

No ano clínico, e além dos blocos clínicos de medicina, cirurgia, pediatria, ginecologia-obstetrícia e neurociências que inclui psiquiatria e neurologia, "os alunos vão rodar pelos hospitais da Luz, Beatriz Ângelo, centros de saúde e hospitais das Misericórdias, com os quais também temos um acordo e foi uma introdução muito importante no protocolo do curso deste ano". Depois, "uma vez por semana regressam à faculdade para, mais uma vez, em pequenos grupos, relatarem o que viram. Esta parte letiva é para consolidar os conhecimentos que adquiriram".

Mas este último ano terá ainda um semestre de investigação, uma das apostas do curso. No edifício da faculdade "há um piso totalmente equipado dedicado à investigação", diz a reitora. "Para nós é fundamental começar logo na fase da formação a sensibilizar e a ativar as competências necessárias para que ao longo da carreira os médicos possam complementar aquilo que é o seu processo de aprendizagem e decidirem mais cedo o que querem fazer e para onde querem ir." Uma vertente de autoaprendizagem que, acreditam, "contribuirá de forma muito substancial para a qualidade da formação médica em Portugal e da própria profissão".

Os médicos que ali forem formados poderão "concorrer com todos os seus pares, como todos fazemos na vida, porque não vamos ter lugares garantidos", comenta Isabel Capeloa, argumentando ainda que "o objetivo do ensino superior é formar pessoas, é dar a melhor educação possível às pessoas para que possam fazer formação onde quiserem, seja em Harvard, Oxford ou Cambridge. Só têm de estar bem formados", rematando: "Não podemos estar a formar os médicos do futuro com base no que é uma visão do passado sobre o desenvolvimento das carreiras".

O "desenho" para um aluno ideal

Quando se pergunta se têm um perfil do aluno desenhado, Isabel Capeloa e António Almeida dizem ter "uma mente muito aberta sobre o que tem de ser um médico".

Sendo certo que "motivação" e "empenho" são palavras-chave para quem entrar no "duro" curso de Medicina. À partida, assumem, as notas terão sempre o peso maior, 85%, como no ensino público, mas vão privilegiar também a curiosidade, a criatividade, o pensamento crítico, a autonomia e sobretudo a empatia.

Seleção de alunos será mais personalizada do que nas faculdades do ensino público, mas de qualquer modo a média do secundário e dos exames finais é o que terá mais peso na candidatura.

A reitora justifica: "A medicina do futuro assentará muito mais na qualidade da prevenção do que no ataque à doença, mas os médicos continuarão a ser o recurso fundamental em caso de doença", continuarão a ser "os que terão o contacto com o ser humano no momento mais frágil da sua existência. E neste de que precisa o doente? De um profissional com competências técnicas extraordinárias, mas também de alguém com quem possa estabelecer uma relação, que lhe dê conforto e isso tem de ser cultivado".

No fundo, a seleção "assentará na vocação para a medicina", diz António Almeida. "Será uma seleção mais personalizada do que no ensino público, a média do secundário e dos exames nacionais continuará a ter o maior peso, mas vamos adicionar outras provas: o candidato terá de preencher um currículo padronizado sobre as atividades em que esteve envolvido - como trabalho de voluntariado - e uma entrevista." Aliás, "a faculdade receberá todos os candidatos para perceber como pensam. Haverá exercícios que vão desde a sensibilidade médica - e dá um exemplo: "Há um que tem a avó doente em casa, o que vai fazer?" - até aos problemas sociais".

A forma como olham para os problemas será a base para distinguir os alunos da Católica e os de outras faculdades. "Queremos que o ensino seja ativo, centrado no futuro médico, desde o momento da candidatura até ao final da formação."

Da medicina à ética e à religião

A conversa vai longa e depois da decisão da A3ES, do sabor a justiça, das apostas do curso, da polémica, não poderia faltar a dimensão humana, da ética e da religião, já que se trata de uma universidade "com uma identidade".

Também aqui a equipa do curso não tem dúvidas do que fazer: "Um estudante de Medicina tem de ser sensibilizado para a dimensão humana." Para começar, diz Isabel Capeloa, a "ética não é uma disciplina isolada, faz parte integrante de qualquer componente técnica".

A ética, e "independentemente de sermos uma universidade católica, é parte essencial em qualquer formação em medicina", porque "estamos a tratar da relação e do respeito entre pessoas, da dignidade da vida desde o nascimento ao momento mais frágil".

António Almeida especifica que "o currículo está organizado em módulos funcionais. E há um que se chama 'pensar e fazer', para se aprender a lidar com todos os aspetos da desordem do cérebro. E dentro de cada problema os alunos terão de resolver questões éticas".

"Os alunos irão deparar-se com problemas de fim de vida, questões de fertilidade, como lidarem com uma situação de doença, que o doente não quer que se comunique aos familiares, mas terão também todas as cadeiras específicas de Ética e de Bioética."

Mas quando se fala de ética, interrompe Isabel Capeloa, "há que pensar na questão ética que é a medicina como serviço", a qual "está claramente presente na visão que temos do curso". Por isso, assume, este curso terá uma disciplina optativa focada na "doutrina social da Igreja", que,"não é uma disciplina de religião", embora tenha como "objetivo fundamental dar aos estudantes uma visão atual e contextual sobre os movimentos de desenvolvimento social, económico e ambiental no mundo".

O objetivo é "permitir aos alunos dialogar com aquilo que é a complexidade do presente e estarem abertos a realidades diferentes". Aliás, é mais específica ainda: "Será um curso de Medicina que não formará médicos que queiram ser milionários à custa da exploração do sofrimento dos outros. Este é um princípio."

À pergunta que tantos colocam - porque não começam já este ano? -, Isabel Capeloa Gil e António Medina Almeida respondem: "Temos a dimensão curricular pronta, as equipas estão formadas, ultimámos os aspetos financeiros", mas "as infraestruturas e os equipamentos obrigam-nos a aguardar mais um ano. O que é pouco tempo para quem já tanto esperou".

Neste setembro, as esperanças são muitas e grandes. Acreditam que o projeto será "transformador na forma como se olha para os cuidados de saúde em Portugal". As críticas assumem-nas com a naturalidade do medo pelo novo, pelo desconhecido. À equipa foi feita "justiça", mas sabem que a missão vai continuar até formarem o primeiro médico.

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