Nem branco, nem preto, nem cigano

Catalogar - e julgar em função disso - a humanidade é próprio dos ignorantes, entre brancos e pretos, entre ciganos e "pessoas normais", entre gays e heterossexuais. É uma simplificação básica e primária, como se o ser humano pudesse ser resumido a um rótulo que não escolheu, mas que o define para todo o sempre.

Já o escrevi antes: estas simplificações, tão próprias dos dias que correm, são extremamente perigosas e não deixam espaço para os debates urgentes que precisam de ser feitos. Algumas das mais importantes discussões civilizacionais estão, por estes dias, conspurcadas por gente mal formada, ignorante e oportunista. Gente que ama tanto o palco onde pode verbalizar os seus pensamentos que acaba por arrebanhar pequenas multidões acéfalas e por permitir que outros wannabes saltem das cavernas onde andavam escondidos. Cegos a quem o espelho mente todos os dias.

É assim nos Estados Unidos, onde agora as ruas se enchem de raiva, de ódio e de dor pela morte de um inocente aos joelhos de um indigno fardado. E onde um homem legitimado pelo povo se entretém a atirar gasolina para uma fogueira, destruindo em menos de um fósforo o que outros demoraram séculos a construir.

É assim no Brasil, o maior país da América do Sul, entregue ao desgoverno de um criminoso contra a humanidade, que todos os dias atira para a morte aqueles que jurou defender e continua a comportar-se como um pirómano, indiferente à destruição que está a provocar.

E começa a ser assim por cá, onde os aspirantes a trumpistas e bolsonaristas vão fazendo o seu caminho divisionista da sociedade, protegidos por uma Constituição à qual cospem todos os dias, alimentados por um bando de cobardes e normalizados por um punhado de "gente séria" que faz carreira a divergir só porque dá mais cliques. E porque pensar pela própria cabeça dá muita dor de cabeça.

Chamar a estes personagens fascistas, racistas e xenófobos é dizer o óbvio, alimenta-os eleitoralmente e não acrescenta nada ao debate mais importante: como é que se vence uma batalha que nunca está verdadeiramente ganha?

A resposta mais vezes repetida - e verdadeira - passa por criar uma sociedade mais justa, com igualdade de oportunidades, em que todos tenham a vida que ambicionaram e pela qual trabalharam. Uma sociedade capaz de proteger os mais frágeis, independentemente da cor da pele, da etnia ou da orientação sexual. Um Estado onde a lei seja, de facto, cega e que puna da mesma forma um polícia caucasiano ou um civil negro, um político corrupto ou um gatuno pé descalço, se ambos cometeram um crime.

A conquista desta sociedade - que às vezes parece tão utópica - está ainda longe, com responsabilidades partilhadas entre quem, uma vez no poder, não foi capaz de a construir e todos nós que adormecemos no conteúdo e, sobretudo, na forma de os elegermos. Mas, se outra coisa não aprendermos com os erros do passado, que aprendamos pelo menos a lição do que se passa lá fora, nos Estados Unidos e no Brasil: é que, no fim do dia, os maiores criminosos não são brancos, nem pretos, nem ciganos. São os que fazem política a colar rótulos e a dividir a sociedade entre bons e maus. Esses são os criminosos impunes, defendidos pelo poder que lhes foi emprestado e que, se pudessem, nunca devolveriam.

Jornalista

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