Beau Bledsoe nas ruas de Alfama com a sua guitarra portuguesa.

Fado

A história do músico de Kansas que traz americanos para ouvir fado em Lisboa

Se há vida em que a palavra fado faz sentido é na do músico Beau Bledsoe. Aprendeu tudo sobre a música e a tocar guitarra em Lisboa. Voltou a Kansas City e todos os anos regressa, com americanos que vêm do Missouri para Portugal... ouvir fado. (Artigo publicado originariamente no dia 6 de julho de 2019)

Que as casas de fado andam cheias de turistas não é novidade. Já era assim antes da explosão do turismo em Lisboa e antes de Madonna as frequentar. Talvez por isso, porque o fado e os fadistas estão habituados a forasteiros, pouco mudou sob influência deles. Provavelmente até melhorou: há cada vez mais fadistas, multiplicaram-se os lugares para tocar e cantar, o mercado cresceu. E os fadistas continuam a cantar igual, de olhos fechados e peito cheio. Os guitarristas tiram os melhores sons das suas guitarras, como se de frente para uma plateia de entendidos estivessem sempre.

Nesta noite, na Mesa de Frades, há mais uma prova das virtudes disto tudo. Há um grupo, uma mesa corrida, 29 cabeças loiras e roupas claras indicando a sua proveniência: são americanos. Mas parecem conhecedores. Uns fecham os olhos, outros abanam a cabeça, com respeitosa consonância. E os que se atrevem a tirar uma fotografia fazem-no com som e flash do telemóvel desligados.

Do outro lado da sala estreita - foi uma capela, antigamente -, outro americano, Beau Bledsoe, olha para o grupo com orgulho. "Portam-se muito bem", sussurra, em inglês. Ele tem razão porque estão 29 americanos numa casa de fados tradicional de Alfama. Foi ele quem os trouxe, numa viagem por ele organizada, chamada "Portugal: fado, food and wine", desde Kansas City, no Missouri. E foi ele quem os "treinou" a ouvir fado, dando-lhes lições antes de chegarem.

O reconhecimento? Aquele comportamento respeitoso. "Estão tão apaixonados por isto..." A história que traz Beau e estes 29 americanos a Portugal começa em 2013, quando o músico de Kansas City, na América profunda, se cruzou com o fado. Por uma série de coincidências (POR LINK), ele e mais dois músicos conhecidos - a vocalista Shay Estes e o baixista Jordan Shipley, todos da mesma cidade - deram com a "música mais triste do mundo."

Beau já conhecia Carlos Paredes, "enorme para todos os guitarristas internacionais". A sua especialidade são as cordas e a música latina - flamenco, tango, música mexicana. Tem um grupo chamado Ensemble Ibérica. Mas nunca, nem no conservatório, se tinha debruçado sobre o fado. E ele - que vinha de um dos berços do jazz, Kansas City, onde o jazz desembarcou, vindo de Nova Orleães, tendo subido o rio Mississipi, onde Count Basie tocou pela primeira vez e nasceu Charlie Parker - rendeu-se ao fado. Formou um grupo chamado Fado Novato, gravou um disco, deu concertos para ganhar dinheiro e conseguiu uma bolsa para passar dois meses em Lisboa.

Foi no verão de 2013 que Beau passou a ser fadista adotivo, em noites de boémia e aprendizagem - até porque, como não há literatura em inglês, e menos ainda manuais de instruções de guitarra portuguesa, tinha aprendido quase tudo em vídeos no YouTube. Trouxera para Lisboa um instrumento feito, à maluca, por um luthier do Missouri - que dava para os gastos, nos EUA, mas que era impensável tocar em Portugal. Comprou uma nova, do renomado Fernando Meireles. Tocou, tocou muito, na rua, em casas de fado, em casa de fadistas e guitarristas.

Foi especialmente importante, na sua aprendizagem, Gaspar Varela, o bisneto de Celeste Rodrigues que é um prodígio da guitarra e a quem Beau "pagava lições com gelados", recorda, abraçado ao miúdo que agora já não é assim tanto (como aparece no vídeo recente de Madonna, o rapaz dos caracóis). E, com a sua timidez, sempre mais a observar do que a falar, Beau atravessou a desconfiança inicial da comunidade, passou a ser "um deles". "O americano", como lhe chamam.

Gaspar Varela, o bisneto de Celeste Rodrigues a quem Beau "pagava lições com gelados", recorda, abraçado ao miúdo que agora já não é assim tanto.

Voltou a Lisboa por mais três vezes, todos os verões, com grupos, pequenos, de turistas americanos, gente que já passou há muito da meia-idade, ex-advogados, ex-banqueiros, ex-comerciantes, sem problemas de dinheiro e muita vontade de ter experiências diferentes: cada um paga mais de dois mil dólares (fora avião) para vir uma semana mergulhar no mundo do fado e da gastronomia portuguesa (vinhos incluídos). É com o que angaria nestas viagens temáticas que Beau alimenta o seu grupo e a atividade musical - "funciona como uma espécie de recolha de fundos e vale mais ou menos um terço do nosso orçamento", explica.

É Gaspar quem convida Beau para tocar, nesta noite, na Mesa de Frades. "Vais tocar, Beau?", já lhe tinham perguntado alguns dos americanos que agora o recebem com palmas de superestrela. Sabiam que ele só o podia fazer se fosse convidado - esse ensinamento fez parte do workshop de etiqueta que Beau lhes transmitira antes da viagem.

Foi uma hora intensa, ainda em Kansas City, em que Beau abriu o mundo do fado a mais 29 americanos. Contou-lhe sobre as origens, os tradicionais "do livro de António Pereira, o mouraria, o menor, entre outros, como evoluiu o fado-canção, Amália e Max, os temas, Lisboa e Coimbra." Falou e tocou e mostrou vídeos. Ponto de honra da aprendizagem: calar-se quando a luz se apaga na casa de fados. Quanto eles apreenderam a mensagem está agora no silêncio com que ouvem. E nas caras entusiasmadas por Beau ir tocar. "Ele é um deles", repete Laura, uma das turistas.

Beau vai tocar com Gaspar, mais dois guitarristas e Rodrigo Costa Félix, o fadista de quem se tornou amigo, nesta jornada fado adentro. Rodrigo já fez um curso de fado na Universidade do Missouri e agora ajuda a organizar esta viagem turística que trouxe, pela quarta vez, um grupo de americanos a, como diz, "entrar neste mundo tão diferente do que eles já conhecem". A viagem é composta dos roteiros habituais, Castelo, Belém, Sintra. E à noite... fado.

Quatro dias, quatro casas de fado depois - Fado ao Carmo, Clube de Fado, Bela e Boteco da Fá - os americanos já estão preparados para o que normalmente acontece na Mesa de Frades - que funciona numa ex-capela do Palácio da Rosa, em Alfama, e é um dos portos de abrigo dos puristas. "Muito intenso, aqui sentimos que vamos ao fundo de uma nova experiência", diz George Harter, que é a face logística destas viagens.

É ele, produtor, dono do teatro onde Beau costuma tocar e homem da rádio, quem organiza com Beau a excursão propriamente dita - hotéis, marcações, exigências. Ganhou treino em viagens temáticas à Broadway nova-iorquina que começou a fazer por ser um especialista em teatro musical. "Eu tenho a fórmula - pequenos grupos, uma viagem-boutique para pessoas com um interesse específico. O objetivo é fazê-los sentir que não estão num tour - não ando por aí às voltas com uma bandeira", diz, tocando num ponto sensível, por estes dias, em qualquer cidade turística do mundo.

Lisboa não é uma cidade qualquer e esta viagem não é uma viagem qualquer. Para George, o fado faz a diferença. "É a maior razão de virem, porque lhes dá a sensação de imersão na cultura. É o que os faz sentir que foram mesmo a um lugar. Que não é como Barcelona ou até Londres, onde já é tudo igual." Obviamente, esta é uma equação impossível: turistas que não querem ser turistas numa cidade que luta entre o bom e o mau que o turismo traz. "Sinto que nós somos parte do veneno", diz Beau.

Beau foi acompanhando as mudanças, em Lisboa e no fado, nas quatro viagens que fez desde 2013. "Quando estive cá da primeira vez parecia que o fado era uma comunidade de 30 pessoas e que era possível conhecer todos. Vi o fado crescer. E sinto que estamos um pouco no zénite. E isso deve-se ao turismo. A parte má é que já ouvimos muita gente a conversar enquanto os músicos tocam. Até já ouvi fado com altifalantes."

Laura Laiben, por exemplo, foca-se na comida, para contrapor. Diz que nunca comeu nada tão simples e tão saboroso.

Jack Holland, um dos turistas, contrapõe: "Lisboa já está um pouco no limite." Este ex-banqueiro de investimento, que agora aplica a sua fortuna em apoios a artistas e tem uma residência artística na Florida, andou pela cidade e viu o bom e o mau dos efeitos do turismo. A autenticidade é questão complexa e não é percebida por todos de forma igual. Laura Laiben, por exemplo, foca-se na comida, para contrapor. Diz que nunca comeu nada tão simples e tão saboroso.

Dona de um restaurante-escola de cozinha em Kansas City, Laura sabe do que fala. "Tudo se conjuga, e a magia acontece à volta da mesa. Fado, comida e bebida." Esta viagem incluiu o Douro e dois dias no Porto, onde, em Matosinhos, Laura aprendeu a abrir percebes e a tirar espinhas a sardinhas - um feito, para uma americana, que está documentado no YouTube. "É muito importante para mim ter experiências diferentes. É como mantenho a criatividade e sanidade. E isto foi, definitivamente, uma experiência. Tudo foi excelente."

George também acha que consegue manobrar dentro dos limites do turismo. E relata a sua experiência: "Descobri o fado em 2015, na minha primeira viagem, no Clube de Fado. Chorei. Era tão lindo, tão genuíno. Como se pode não amar? Não apaixonar-se? Não querer viajar por todo o Atlântico para experimentar isto? Quando os vejo, de olhos fechados, a ouvir o fado, nessa espécie de nirvana, percebo que foi para isto que vieram." Cita o filme Field of Dreams: "Dinheiro têm eles, é a paz que lhes falta." Aqui, numa ruela de Alfama, a ouvir uma música que não percebem totalmente mas que lhes fala ao coração, estes americanos encontram essa paz.

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