Fátima perde 4,8 milhões de peregrinos até outubro. Donativos caíram para metade

Hotéis fechados, desemprego a subir, Santuário com 987 peregrinações anuladas. É este o retrato de Fátima em plena segunda vaga de pandemia de covid-19.

O Santuário de Fátima é o ponto central do turismo religioso em Portugal. Todos os anos, milhares de pessoas - portugueses e estrangeiros - deslocam-se à cidade para expressar a sua fé e acabam por alimentar toda a economia local. Mas em ano de pandemia, o retrato é diferente: hotéis, restauração e retalho fechados, desemprego a subir na região e o Santuário a receber mais pedidos de ajuda.

Em 2019, de acordo com fonte oficial, visitaram o Santuário pelo menos 6,3 milhões de pessoas. Nos 10 primeiros meses deste ano - período que engloba as tradicionais peregrinações de maio, dos migrantes e de outubro - o recinto acolheu cerca de 1,5 milhões de pessoas, menos 4,8 milhões do que em igual período de 2019, uma quebra de quase 24%.

Apesar de os números não estarem ainda fechados, o Santuário admite que "de março até outubro deste ano foram anuladas 987 peregrinações (703 estrangeiras e 284 portuguesas), num total de mais de 320 mil peregrinos". Com a pandemia a proibir os aglomerados populacionais, a ausência de peregrinos traduz-se "numa quebra acentuada de receitas, 50,6%, nomeadamente ao nível dos donativos, 46,9%, até outubro".

Para a economia local, o contágio do covid-19 não é menos nefasto. Alexandre Marto Pereira, hoteleiro e vice-presidente do Conselho Diretivo da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP), conhece bem a realidade da região. Conta ao DN/Dinheiro Vivo que "uma fatia substancial das unidades hoteleiras em Fátima já encerraram e apenas vão reabrir quando a procura o justificar, o que demonstra a gravidade da situação".

Além de não terem receita, fruto da procura inexistente, muitos hoteleiros estão a braços também com o peso dos investimentos que realizaram nos últimos anos, primeiro para preparar o "centenário em 2017, e depois requalificando a oferta para os mais exigentes tempos atuais. Há poucos anos existia uma oferta residual em 4 estrelas, hoje mais de um terço das camas no destino são neste tipo de categoria. Da mesma forma, muita da oferta em alojamento local foi convertida em hotéis".

Alexandre Pereira nota também que os investimentos foram realizados por hotéis que "são normalmente detidos por famílias". Por isso, defende que "se não existirem apoios, todo esse esforço que beneficia os empresários, mas também trabalhadores, a cidade e a região estarão em risco".

O hoteleiro acredita que a maioria das empresas recorreu aos apoios públicos, disponibilizados pelo governo, mas considera que "não são suficientes". Diz compreender o apoio à manutenção de postos de trabalho, mas nota que as empresas continuam a ter também os encargos fixos para pagar, além dos salários. "Alguns desses custos são chocantes: o custo do IMI, um imposto sobre edifícios que não podem ser rentabilizados e que têm valorizações absurdas é um exemplo. Não tenho dúvidas de que no cenário atual, em que não são apresentadas soluções sérias de capitalização das empresas a longo prazo, muitas ficarão pelo caminho. As medidas apresentadas são essencialmente para micro e pequenas empresas e trata-se de paliativos. A maioria dos hotéis em Portugal são médias empresas - não porque sejam máquinas de fazer dinheiro, mas porque exigem capitais intensivos e muitos recursos humanos. As médias empresas e as empresas na área do turismo têm sido ignoradas", acusa o dirigente associativo.

Com o retalho, a restauração e a hoteleira em Fátima com quebras elevadas na procura, as dificuldades são também sentidas pelas famílias. O empresário aponta que o número de desempregados registados no município em outubro subiu 64% em relação ao período homólogo do ano anterior. "Mas este número esconde uma realidade ainda pior: em primeiro lugar, o número de hotéis que encerrou em novembro, mês em que a maioria dos empresários decidiu fechar, não está ainda nesta última estatística publicada; em segundo lugar, uma parte enorme dos trabalhadores reside em municípios limítrofes, principalmente em Leiria, Batalha e Porto de Mós", sublinha.

O Santuário reconhece que os pedidos de ajuda têm aumentado "e além de instituições apoiamos famílias, sobretudo no fornecimento de cabazes alimentares, mas também no pagamento de rendas e despesas com saúde". Com o Natal à porta, o apoio prestado vai ser "reforçado, mesmo num ano tão difícil do ponto vista económico para o Santuário".

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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