"Vi pessoas a derreterem, com as peles, ainda quentes, a acumularem-se nos pés"

Kunihiko Bonkohara, e mais dois hibakushas, o termo japonês para "sobreviventes da bomba atómica", que escolheram o Brasil para viver, conversaram com o DN sobre as memórias do dia em que a sua cidade, Hiroxima, foi reduzida a cinzas.

Kunihiko deveria naquele dia, como tantas outras vezes na sua ainda curta vida, acompanhar a mãe e a irmã mais velha ao centro da cidade. Por alguma razão, no entanto, o pai decidiu que o miúdo, de 5 anos, o acompanharia no escritório. Uma decisão que lhe salvaria a vida.

No escritório do senhor Bonkohara, um engenheiro civil de Shizuoka que se havia mudado por razões profissionais para Hiroxima cinco meses antes, pai e filho conversavam distraidamente quando um clarão imenso irrompeu pela janela, acompanhado por ventos superiores a 200 quilómetros por hora e por um tremor de terra.

O engenheiro só teve tempo de levar a criança pelos braços para debaixo de uma escrivaninha. Ficaram os dois a salvo mas cobertos pelo sangue que jorrava das costas do pai, atingidas por vidros estilhaçados.

Eram 08.15 do dia 6 de agosto de 1945, momento em que a bomba atómica, batizada de Little Boy, foi lançada do Enola Gay, um Boeing B-29 da força aérea norte-americana.

Pai e filho iniciaram então, de bicicleta, a busca desesperada pela outra metade da família, a mãe e a irmã mais velha de Kunihiko, por toda a Hiroxima, durante dias. Jamais encontrariam os seus corpos.
Nessa caminhada, onde constataram também que a sua casa se tornara um monte de destroços, a visão do inferno na terra.

"A lembrança mais forte?", pergunta-se Kunihiko Bonkohara, hoje com 80 anos e a viver em São Paulo, Brasil, ao ser confrontado pelo DN com o trauma. "Ver pessoas cambaleando de um lado para o outro, com os olhos pendurados, sem cabelo, sem roupa, com as peles, ainda quentes, suspensas e a derreterem até se acumularem em torno dos calcanhares", responde.

"Pareciam zombies, sem rumo, irreconhecíveis, não se distinguia homens de mulheres, muitos nem forças tinham para gritar, alguns pediam água, crianças chamavam pela mãe, havia um cheiro forte a carne humana queimada na cidade."

"Vi um elétrico com as ferragens retorcidas, olhei e distingui pessoas carbonizadas com expressões de angústia amontoadas na saída da porta", lembra-se também Kunihiko.

"Vi um elétrico com as ferragens retorcidas, olhei e distingui pessoas carbonizadas com expressões de angústia amontoadas na saída da porta"

Como as temperaturas no solo chegavam a dez mil graus Celsius, muitos habitantes de Hiroxima, com o corpo em chamas, precipitaram-se para um dos rios que banham a cidade e mergulharam em desespero. Um mergulho para a morte por causa do choque térmico.

"Recordo-me de ver milhares de corpos a boiar nas margens do rio que corta a cidade, e animais, muitos animais, carbonizados, cavalos e cães, sobretudo."

"Uma cidade reduzida a cinzas", resume Kunihiko. E a alusão às cinzas, lembra-o de outro detalhe: "O meu pai pedia para eu me desviar das cinzas pelo chão, porque, dizia ele, eram de pessoas que estavam ainda vivas." Talvez a sua mãe, talvez a sua irmã.

Para fugir do horror, que terá matado, segundo dados da Cruz Vermelha, na hora e nos cinco anos seguintes cerca de 340 mil pessoas em Hiroxima e em Nagasáqui, onde a bomba Fat Man caiu três dias depois, o pai levou Kunihiko para uma zona rural, afastada da cidade.

Mesmo lá, no entanto, o jovem Kunihiko viveu atormentado, não só pelas lembranças terríveis mas também por doenças raras. Cheio de feridas pelo corpo, com tonturas e fraqueza permanentes, contraiu tuberculose aos 11 anos. Aos 20 foi diagnosticado com problemas cardíacos. Um médico calculou que morresse por volta dos 30.

Para fugir desse destino marcado, partiu para o outro lado do mundo, o Brasil, casou-se com uma brasileira descendente de japoneses, trabalhou na lavoura no Paraná e foi até locutor de rádio em São Paulo, onde, no ano 2000, tomou conhecimento da Associação dos Sobreviventes da Bomba Atómica no Brasil.

Sobrevivente. Ponto final

Na associação conheceu o seu fundador, Takashi Morita, 96 anos, um soldado de 21 anos no dia do ataque nuclear ordenado pelo presidente dos Estados Unidos à época, Harry Truman, contra o império do Japão, já nos suspiros finais da Segunda Guerra Mundial.

Morita, natural de Hiroxima, é um sobrevivente, ponto final.

Nasceu morto e foi ressuscitado pelo pai. E, em maio de 1945, já como vigia de aviões do Exército Imperial Japonês, escapou com vida ao bombardeamento incendiário de Tóquio.

Por sentir saudades da família, pediu transferência da capital japonesa para a cidade natal, onde marchava com o seu pelotão de 13 homens, às tais 08.15 de 6 de agosto de 1945, a cerca de 1200 metros do epicentro da explosão.

"Estava de costas e fui lançado 15 metros para a frente", conta ao DN. "Dos 13 do meu pelotão, só eu e mais dois sobrevivemos ao impacto, os outros desintegraram-se."

"Dos 13 do meu pelotão, só eu e mais dois sobrevivemos ao impacto, os outros desintegraram-se"

"Perante o que se seguiu, casas a arder, mulheres grávidas e idosos a morrer pelas ruas, um inferno, só me restou, mesmo ferido nas costas, na nuca e na cabeça, ajudar as pessoas durante uns dois dias."

Não comeu nem bebeu nesse período, o que lhe pode ter salvado a vida, uma vez que a água da cidade ficou contaminada e bebê-la poderia causar, como causou a outros, choque térmico fatal.

Mais tarde, depois de ficar internado por semanas, enganou a morte novamente ao receber alta na véspera de um tufão arrasar o hospital.

Morita e outros sobreviventes recordam ainda que Hiroxima foi invadida por milhares e milhares de moscas, mesmo longos anos depois da explosão da Little Boy, ainda atraídas pelo cheiro a morte de pessoas e animais.

Já casado (com uma hibakusha, como ele), desenvolveu em 1950 uma forma rara de leucemia em resultado das radiações e seis anos depois decidiu emigrar para o Brasil, cujo clima era considerado mais adequado aos seus problemas de saúde.

Em 1984, cansado de ver, por décadas, centenas de compatriotas morrerem em casa ou em hospitais públicos sem meios para combater as suas doenças muito específicas em decorrência das radiações, fundou a associação de sobreviventes, com o objetivo de garantir ajuda do governo japonês nos tratamentos médicos dos hibakushas do Brasil.

Após longo processo jurídico, essa ajuda oficial foi obtida - os sobreviventes, e também os descendentes, são hoje alvo de avaliações médicas regulares em hospitais com todos os meios necessários. E a associação pôde, a partir daí, mudar o foco e o nome: de Associação dos Sobreviventes da Bomba Atómica no Brasil passou a Associação Hibakusha Brasil pela Paz.

Davam-lhe dois anos de vida

Junko Watanabe, 77 anos, apenas 2 no dia da explosão, é uma das integrantes mais jovens da associação. Naquela manhã, brincava com o irmão em frente a um templo budista a 18 quilómetros da explosão.

"Alarmada com a ventania, numa cidade onde raramente faz vento no verão, de 200 quilómetros por hora, que arrastava muitas cinzas, de pessoas e de animais, a minha mãe correu para me levar para dentro", explica ao DN. "Mas não a tempo de impedir que eu fosse atingida pela chuva negra."

Os resíduos de materiais radioativos atirados para a atmosfera depois de uma explosão nuclear caem no solo como uma chuva negra. O fenómeno matou milhares de cidadãos de Hiroxima na hora e causou sequelas irreversíveis noutros tantos.

"Davam a quem foi atingido por ela dois anos de vida", conta Junko. E, durante dias, de facto, os pais pensaram que a filha, como muitas outras crianças da mesma idade alvo de radiações, não sobreviveria, tantos os vómitos e diarreias que a perseguiam.

Mas sobreviveu.

Mais tarde, casou-se por correspondência com um japonês a morar em São Paulo, chegou ao Brasil com 25 anos e é hoje uma hibakusha brasileira.

"No entanto, só aos 38, quando voltei pela primeira vez ao Japão, é que o meu pai me contou que eu era uma hibakusha", revela. "Os meus pais esconderam a minha condição até lá."

Além dos perto de 80 hibakushas brasileiros, estima-se que no Japão ainda estejam vivos cerca de cem mil. Na Coreia do Sul, mais de dois mil. E nos Estados Unidos à volta de 600, num total de mais de 180 mil espalhados pelo mundo. Em Portugal, não há registo de nenhum.

De entre os sobreviventes brasileiros, nem todos conseguem falar abertamente do dia 6 de agosto de 1945. Alguns perderam todo o cabelo, as pestanas e as sobrancelhas, outros nunca mais conseguiram locomover-se perfeitamente, há os que estão em permanente tratamento de cancros raros, boa parte deles sofre de stress pós-traumático, instabilidade ou depressão.

Por lidarem melhor com o trauma, Junko, Takeshi e Kunihiko tornaram-se os rostos da Associação Hibakusha Brasil pela Paz e de um espetáculo que vai percorrendo o país, e não só, a contar as suas histórias.

"Chama-se Os Três Sobreviventes de Hiroshima, já vai em 26 apresentações, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Curitiba e muitas outras cidades, reunindo mais de cinco mil espectadores", afirma Rogério Nagai, ator, realizador e idealizador do projeto.

"O propósito inicial da associação dos hibakushas era garantir apoio do Estado japonês para os seus tratamentos muito específicos e onerosos, garantido isso, o objetivo passou a ser uma mensagem pela paz, por isso, o espetáculo de uma hora fala sobre perdão, sobre superação, sobre empatia e sobre a luta contra a guerra", continua Nagai, um apaixonado por Lisboa e pela cultura portuguesa que tem o sonho de levar o espetáculo a Portugal.

No espetáculo, o ex-soldado Takashi, apesar dos 96 anos, canta com energia duas músicas tradicionais japonesas. Kunihiko, de 80, que se protegeu debaixo de uma escrivaninha com o pai, e Junko, 77, uma sobrevivente da chuva negra, dançam-nas alegremente.

No final, soltam pombas da paz e afirmam: "Nós não queremos bombas atómicas, nós queremos paz e lutaremos por esta causa até ao final das nossas vidas."

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