Abe sai mas ambições do Japão ficam

Os oito anos de Shinzo Abe como primeiro-ministro chegam e bastam para lhe dar o recorde de longevidade política no Japão pós-Segunda Guerra Mundial. E se parece pouco quando comparado com o tempo de serviço do russo Vladimir Putin, do turco Recep Erdogan ou da alemã Angela Merkel, a verdade é que dos participantes da cimeira do G20 de 2013, a primeira desta governação agora finda, só continuam no poder os três líderes já referidos e o chinês Xi Jinping, então também um estreante. Ou seja, Abe era um veterano da política internacional, tanto mais que tinha tido uma anterior experiência como primeiro-ministro em 2006-2007. E o Japão beneficiava da visibilidade do seu governante, que além do legado económico deixa também um caminho de afirmação do país como potência, pois foi com ele que dois modernos porta-helicópteros entraram ao serviço, e foi também por decisão sua que um deles, o Izumo, começou a ser transformado num porta-aviões. É uma classe de navio que a Marinha japonesa não possui desde a derrota militar em 1945 e mostra até que ponto existe hoje tensão na Ásia Oriental.

O nome mais falado para substituir Abe no PLD, o partido que com raríssimos intervalos tem governado o Japão no pós-guerra, é Yoshihide Suga. Representa a continuidade, e essa é a sua grande força, pois nunca ocupou uma pasta de peso (Negócios Estrangeiros, Finanças ou Defesa) nem pertence a uma dinastia política, algo muito importante no Japão. O próprio Abe é filho de um ministro dos Negócios Estrangeiros e tem como avô materno um primeiro-ministro.

Com Abe doente há bastante tempo, a preparação de Suga como seu potencial sucessor foi sendo feita: o chefe de gabinete do primeiro-ministro teve a enorme honra de anunciar o nome oficial da era do novo imperador e foi em visita aos Estados Unidos para reunir-se com Mike Pence, o vice-presidente de Donald Trump.

Terceira economia mundial (perdeu o segundo lugar para a China em 2010, talvez a primeira vez em 150 anos em que a noção de mais forte regional se inverteu), o Japão sofre de um problema de fraco crescimento que Abe tentou contrariar com as chamadas "abenomics", um misto de reflação, investimento público e estratégia de crescimento, como alguns tentaram sintetizar. Os ligeiros ganhos foram postos em causa pela pandemia, que abalou o PIB, mesmo que tenha tido até agora um relativamente pequeno impacto na saúde geral (menos mortes do que Portugal, apesar dos 126 milhões de habitantes).

O desafio económico é aumentado pela excessiva dependência de algumas empresas japonesas em relação ao mercado chinês. Tensões políticas levam a boicotes e à perda de milhões de ienes.
Suga, ou qualquer outro sucessor de Abe (há mais dois na corrida), enfrentará um contexto complexo, marcado pela necessidade de lidar com a China mas contrariando a sua ascensão militar, e de manter a aliança com os Estados Unidos, ganhe o republicano Trump ou o democrata Joe Biden. Abe conseguiu com Trump uma boa relação pessoal, o que não impediu que o presidente americano exigisse maior investimento em defesa do aliado, nomeadamente que ajudasse a pagar as bases militares no arquipélago e o guarda-chuva nuclear.

A questão do orçamento de Defesa é no Japão tema muito delicado, pois qualquer aumento nos gastos pode ser entendido como uma violação do artigo 9.º da Constituição, ditada pelos Estados Unidos e pacifista.

É única a história do Japão. Recebeu a influência chinesa ao longo de milhares de anos via Coreia, mas sempre manteve os invasores afastados. Os mongóis tentaram, mas os ventos kamikaze defenderem as ilhas. E há 75 anos, a ocupação americana só foi possível porque as duas bombas atómicas forçaram o imperador a anunciar a rendição. Com os americanos veio a democracia (prezado pela sociedade, defendida pela imprensa), que tinha tido uma primeira vida durante a Era Meiji, a da reabertura do Japão ao mundo.

Na sua polémica tese do Choque das Civilizações, o americano Samuel Huntington coloca o Japão como o único país que só por si era uma delas, o que comprova a excecionalidade de um país que no virar do século XIX para o século XX humilhou a China e a Rússia em guerras e depois se lançou à conquista de um império asiático. Depois de 1945, deu-se novo milagre, o da indústria tecnológica de sucesso.

Entre China e América, sempre de olho na Rússia e na Coreia do Norte - e com dificuldades de relacionamento com a Coreia do Sul, a outra aliada da América na região -, o Japão do século XXI tem procurado uma diplomacia global, tal como a sua economia é mundial, e beneficia também do soft power da cultura nipónica, que vai do manga ao sushi, da Sony aos bonsais, de Kurosawa a Murakami. E do ponto de vista da defesa, ensaia aproximações à Índia e à Austrália, de modo a contrariar a China e ter (na medida do possível) alternativas aos Estados Unidos. Não desiste também de um lugar no Conselho de Segurança da ONU, onde só são permanentes os cinco vencedores da Segunda Guerra Mundial, mas se a América lhe deixa margem na conquista de influência nas agências da organização, a China cada vez mais concorre, pois até já contribui mais do que o Japão.

Portugal tem laços antigos com o Japão. No século XVI foram os portugueses a trazer a modernidade ao arquipélago, que aproveitou o arcabuz mas assustou-se com o catolicismo e acabou a expulsar os europeus. Há 160 anos estabeleceram-se relações diplomáticas entre ainda os xoguns Tokugawa e o Portugal de D. Luís. Convém, e não só pelos investimentos em Portugal, que olhemos para o Japão com atenção, como um dos pilares democráticos da ordem internacional, que é muito mais do que o país que nos ensinou a comer sushi.

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