A Festa do Avante! por quem lá vai todos os anos, desde 1976

A multidão da primeira Festa, na antiga FIL, e a rampa cheia do Jamor, o Chico Buarque e a chuvada no Alto da Ajuda, as moscas de Loures, o porto seguro da Atalaia e a certeza de que este ano é mais importante do que nunca fazer a Festa. O Avante! nas palavras de quatro veteranos.

Era madrugada quando chegou a Alcântara, à antiga FIL, numa camioneta vinda de Castelo Branco, onde participava nas campanhas de alfabetização do Movimento Alfa. Manuel Pires da Rocha, 58 anos, músico e violinista da Brigada Victor Jara, tinha 14 anos e muito sono naquele dia que voltava a ser inicial inteiro e limpo. Depressa acordou.

"Foi brutal porque aquilo era imenso. Estamos a falar de Portugal em 1976, pouco depois do 25 de novembro. O contexto histórico de fim de revolução amplia o que foi a realização da primeira Festa do Avante! Lembro-me de me sentir um gajo grandíssimo, embora só tivesse 14 anos. O primeiro impacto foi logo à entrada - ainda guardo a EP - e depois lá dentro foi o delírio. Nunca tinha visto - nem eu nem ninguém - tantos palcos, tantos concertos, tantas coisas ligadas à revolução, entrávamos e éramos logo levados pela multidão, entre o aperto e a euforia".

Cipriana Brites, 73 anos, contabilista reformada, também lá estava, mas na cozinha do restaurante self-service. Tinha 28 anos e do que se lembra é de entrar de madrugada e sair de madrugada. "Não vi um grama da Festa. Vi tabuleiros, tachos, panelas, pessoas, pessoas, pessoas a correr os tabuleirinhos no corrimão, e mais nada em três dias. Foi a maior das loucuras. Fiquei oito dias com dores nos músculos das pernas, mas valeu a pena."

Para o médico João Gonçalves, hoje com 73 anos e na altura com 28, a primeira Festa foi o que é até hoje, uma aventura. "Foi a Festa em que houve a bomba. Na véspera os gajos do MDLP e do ELP fizeram explodir o PT [posto de transformação] da antiga FIL, mas a malta do partido e da EDP passou a noite toda a trabalhar para resolver aquilo e a Festa começou no outro dia, como se não tivesse acontecido nada. Estava pejado de gente, choveu brutalmente, mas ninguém arredou pé. Foi extraordinário", diz o médico, desde então responsável pelo posto de saúde da Festa do Avante!

Ana Margarida de Carvalho, 51 anos, escritora, tinha 7 em 1976 e a primeira Festa de que tem memória é a de 1980, onde ouviu o Chico Buarque, num concerto que lhe mudou a vida.

"Marcou uma espécie de 'antes' e 'depois'. Era muito pequena, tinha 10 anos, mas foi tão forte que ainda hoje recordo imensos pormenores com uma nitidez incrível. Uma espécie de prova de vida, há quem lhe chame epifania. Lembro-me da música que passou a ser a minha música (em especial o Cálice que me deixou arrepiada) e um ambiente de euforia, quase magnético, dos adultos à minha volta, todos a cantarem as letras que sabiam de cor. Tudo tão vibrante e especial, uma alegria tão contagiante que me fez formular um pensamento que me acompanha até hoje. Que foi olhar em redor e concluir: 'Ah, isto é a vida.'"

"A Festa do Avante! é um ato revolucionário"

O concerto de Chico Buarque também está na memória de Manuel Pires da Rocha como "o mais belo de sempre". Mas para o músico, que já atuou inúmeras vezes nos vários palcos da Festa, o que lhe deixou mais saudades foi o último de Adriano Correia de Oliveira, em 1981, com quem tocou ali pela última vez.

Falhou uma única Festa, quando estava a estudar na União Soviética, e com menos saudade lembra aquela, no Alto da Ajuda, que foi quase destruída pela chuva. "Foi infernal, mas o engraçado é que a malta não desmobilizou. Lembro-me de ter visto um grupo de rap norte-americano e a Buffy Sainte-Marie que era uma grande cantora canadiana índia, a cantarem num palco improvisado. As aparelhagens ficaram todas molhadas, mas o espetáculo continuou."

A militância é aquilo de que o músico, que tanto trabalha na construção como faz turnos no Pavilhão de Coimbra, a sua terra, como atua nos vários palcos ou assume a tarefa de intérprete junto das delegações internacionais, gosta mesmo, mas também veste a pele de visitante e quando o faz não são os espetáculos que mais o cativam.

"O que gosto é do convívio, de estar, das exposições, do Avanteatro... Podemos ver coisas que não conseguimos ver no resto do ano, condensa-se ali o melhor de um país inteiro num curto espaço de tempo e ficamos sempre com a sensação que não vimos nem metade."

"Quando aquilo que está em causa é a liberdade política e individual, temos que agir e a luta pela liberdade é a história da vida do PCP"

Quanto à realização da festa neste ano de pandemia, Manuel Pires da Rocha é dos que desde o início consideraram que deveria acontecer. "A questão foi discutida no partido e eu penso que a Festa é dos sítios onde há mais condições para que as pessoas possam fruir da vida em segurança, não só pela consciência da maioria dos que lá vão como pelas medidas tomadas para garantir essa segurança", diz, convicto de que "o ataque que tem sido feito ao PCP e à Festa" reforça a importância da sua realização.

"Quando aquilo que está em causa é a liberdade política e individual, temos de agir e a luta pela liberdade é a história da vida do PCP", diz o músico, para quem a festa é um "ato revolucionário".

"O que é a Festa para mim? Ai, filha, tu não me faças chorar. É tudo"

Mais apreensiva está Cipriana , 73 anos, não porque duvide da capacidade do seu partido e dos seus camaradas em realizar a festa em segurança, mas devido ao violento ataque a que considera que estes estão a ser sujeitos.

"Agora, que estou aqui, estou muito satisfeita e com a melhor das vontades, mas sou franca, vi com muita apreensão a realização da Festa, por já saber que íamos ser alvo desta cambada toda. A campanha contra nós é tanta e tão baixa que já não sei, mas a verdade é que, com Festa ou sem Festa, somos sempre um alvo, portanto toca a fazer, com as devidas precauções", diz Cipriana, que nos últimos tempos deixou de ver televisão. "Quando está ligada, é na Mezzo, oiço a bela da música e vou fazendo as minhas coisinhas. A gente tem que arranjar defesas. É que é demais."

Em 44 anos, a única edição da Festa do Avante! que falhou foi a do ano 2000, quando lhe morreram os pais. E quando perguntamos a esta alentejana de Estremoz o que é para ela a Festa, a emoção vem ao de cima. "O que é a Festa para mim? Ai, filha, tu não me faças chorar. É tudo."

Memórias tem muitas, apesar de ser mais o tempo que passa de roda dos tachos e das panelas, no Pavilhão da Mulher, do que a gozá-la [na verdade, esta é a sua forma de a gozar]. "Lá dou uma fugidinha ao palco alentejano, para ouvir as minhas queridas cantigas e dar um pé de dança quando tenho par, mas de um modo geral estou quase sempre a trabalhar, nas comidinhas, que é o que eu gosto", diz.

A rampa inclinada da entrada do Jamor, em 1978, "cheia, cheia, cheia de gente, tudo muito colorido", é uma imagem que Cipriana mantém viva na memória. "Estava grávida do meu filho e andava sempre de lagriminha no olho e quando entrei e vi aquele mar de gente está claro que desatei a chorar de emoção." Assim de ficar na alma, além dos cantes alentejanos, lembra-se também de um concerto da Elba Ramalho, em 1977, e outro dos Jafumega, no Jamor. "Parece que estou a ouvi-los, Latin America."

A chuvada, no Alto da Ajuda, em 1981, também a marcou. "Choveu, choveu, choveu. A gente escorregava. Tudo encharcado. Foi terrível."

"Aqui é onde nos encontramos e vivemos a utopia de uma cidade diferente"

O médico João Gonçalves, 73 anos, lembra-se bem desse ano. Nunca o posto de saúde teve ou viria a ter na sua história tantos entorses e fraturas para tratar. Em Loures, o problema eram as moscas e as melgas, cortesia de uma vacaria e de uma fábrica de curtumes vizinhas. Na Atalaia, tudo acalmou e o posto de saúde ganhou instalações fixas, que serão melhoradas para o ano, se a situação financeira o permitir.

"Embora atendamos centenas de pessoas todos os anos, grande parte das questões resolve-se aqui. Aliás, numa reunião, no ano passado, com responsáveis do Hospital Garcia de Orta e do centro de saúde, eles reconheceram que a Festa não pesa nada no funcionamento daqueles serviços públicos, porque o pouco que vai vai completamente referenciado. São dezenas de médicos e enfermeiros e pessoal de apoio que aqui presta voluntariamente serviço durante os três dias da Festa", diz João Gonçalves, que à responsabilidade do posto de saúde foi acrescentando ao longo destes 44 anos tarefas na montagem e desmontagem do evento: "Montar ferro, andar com placas às costas e por aí fora."

A Atalaia é o porto seguro, mais seguro ainda desde que a ela se juntou a Quinta do Cabo, mas para o médico o lugar mais bonito por onde a festa passou foi o Alto da Ajuda, que "tinha uma vista deslumbrante sobre o Tejo e a outra banda". Aconteceu lá uma das memórias que guarda como quem guarda um autógrafo.

"No ano em que o Chico Buarque veio cantar, eu estava no palco porque tinha sido solicitada assistência para o caso de ser necessário, e a Simone, a cantora, que vinha com ele, estava comovidíssima e a certa altura ela muito alta, eu pequeno ao pé dela, começa a chorar no meu ombro. Fiquei com a T-shirt encharcada de lágrimas."

Histórias são muitas, mas a que escolhe, emocionado, passou-se esta semana, durante a implantação. "Era noite, estava tudo sossegado, fui dar uma volta e vi luz junto aos serviços centrais. Eram as costureiras que estavam a trabalhar há horas com os jovens da JCP a coser e a pôr anilhas em bandeiras e em panos e a gente pensa: o que é que os move?"

Provavelmente, o mesmo que os levou a ir avante com a festa este ano, decisão que o médico encara com muita calma e tranquilidade.

"Esta Festa do Avante! pode ser muito útil para o país porque pode aprender-se aqui muita coisa para um desconfinamento que vai sendo cada vez maior e nem sempre com as melhores condições"

"Além do cumprimento das exigências da Direção-Geral de Saúde, muito maiores para este evento do que para qualquer outro em Portugal, garantimos medidas de segurança ímpares. As pessoas são disciplinadas e vão saber estar num acontecimento destes em segurança, o que pode ser muito útil para o país porque pode aprender-se aqui muita coisa para um desconfinamento que vai sendo cada vez maior e nem sempre com as melhores condições", garante João Gonçalves, que diz estar montado todo um dispositivo de prevenção e controlo de situações ou comportamentos que ponham em causa a segurança e saúde dos visitantes.

Para o médico e militante do PCP, aos 73 anos, a Festa continua a ser uma aventura, que começou aos 29. "É uma aventura que se renova, onde encontramos amigos que às vezes só vemos nestes três dias, onde confraternizamos e onde vivemos a utopia de uma cidade diferente."

"A festa faz-se porque o PCP jamais coloca em risco o seu povo"

A escritora Ana Margarida de Carvalho não está certa do ano em que foi pela primeira vez à Festa do Avante!, mas era criança e para ela foi um sonho, uma alegria, uma sensação de liberdade.

"Lembro-me da Cidade Internacional e das bancas da RDA, sempre muito animadas e a venderem coisas, para mim, maravilhosas, como uns pequenos rádios despertadores ou latas de salsichas alemãs. Lembro-me de que foi no palco 1.º de Maio que aprendi a perceber e a sentir o jazz. E lembro-me de estar rodeada de adultos felizes que eram particularmente acolhedores e amáveis com as crianças. E por sentir isso, levei sempre os meus filhos, desde bebés." Nunca falhou uma festa desde então. Na adolescência, passou a ir sem pais, depois de ser mãe, passou a levar os filhos, que experimentaram o mesmo "maravilhamento" que ela.

Se quando era miúda, a Festa era "o acontecimento mais aguardado do ano", hoje "é uma espécie de fecho de verão, fim de férias. A partir daí começa um novo ano, como se o verdadeiro marco no calendário fosse a festa, muito mais do que o final de ano, por exemplo", diz a escritora, que hoje é mais do que visitante e costuma fazer turnos no Pavilhão de Lisboa.

"Muito cumpridora nas questões de saúde pública", vê como "necessária" a realização da Festa este ano e não duvida de que estão asseguradas as condições de segurança para a fazer, "ainda mais conhecendo de perto a disciplina e a capacidade organizativa irrepreensível do PCP".

Quanto às críticas que têm marcado os últimos tempos, Ana Margarida de Carvalho não lhes chamaria críticas. "Essas até seriam aceitáveis."

O problema, diz, "é mesmo a ausência de espírito crítico. São pura raiva, ódio e populismo. As pessoas repetem o que ouviram dizer. Na comunicação social, nas redes sociais, está a instalar-se o medo e o ódio, de uma forma assustadora. E não me parece que esta raiva irracional seja dirigida à Festa, mas ao PCP, que tem esta força, pertinácia e resistência, de fazer uma celebração que nenhum outro partido seria capaz de organizar", diz a Ana Margarida de Carvalho, para quem a Festa se faz "porque é possível, porque é segura, porque o PCP jamais coloca em risco o seu povo (a história do PCP demonstra que este se posicionou sempre ao lado da população e do desenvolvimento do país, colocando-os à frente até dos seus próprios interesses eleitorais) e porque o PCP é o único partido com militantes capazes de fazer uma festa assim".

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