Com horas e sítios diferentes, o primeiro "confronto" Marcelo-Ana Gomes

Ana Gomes escolheu o dia que celebra a implantação da República para dar o tiro de partida na volta ao país que tenciona fazer. Marcelo, por seu lado, estará de volta ao Largo do Município, em Lisboa.

A campanha presidencial da ex-eurodeputada do PS Ana Gomes parte hoje para a estrada, com uma iniciativa que decorrerá no Teatro da Trindade, em Lisboa, e que depois será replicada, ao longo do mês, em Campo Maior, Beja e Braga.

Subordinada ao tema "Cuidar de Portugal", as "Conversas com a Ana" serão precisamente isso: sessões de perguntas e respostas com a candidata no palco conversando com pessoas na audiência, num esquema que inclui pré-inscrições e transmissão online em direto.

Um dos participantes - numa sessão que está marcada para se iniciar às 15.00 - será o jovem Pedro Limões, de Gondomar, que escreveu uma carta a Ana Gomes incentivando-a a avançar - e que a candidata diz ter sido crucial na sua decisão.

As "Conversas com a Ana" prosseguirão depois noutras cidades, havendo já três datas marcadas: dia 10 em Campo Maior (onde deverá receber o apoio do comendador Rui Nabeiro, dono do Grupo Nabeiro - Delta Cafés e presença obrigatória em todas as campanhas do PS). Depois, no dia 11, em Beja, e no dia 16 em Braga.

Ana Gomes lança-se à estrada neste 5 de Outubro - e no mesmo dia o Presidente da República regressará ao Largo do Município, em Lisboa, na cerimónia que assinalará os 110 anos do golpe que acabou com a monarquia e implantou a República.

Em 2019 não foi: era dia de reflexão para as legislativas do dia seguinte. Marcelo deslocou-se aos Paços do Concelho apenas para hastear a bandeira nacional - a meia haste, dado que se cumpria também um dia de luto nacional pela morte de Diogo Freitas do Amaral. À noite leu na televisão uma curta mensagem de apelo à participação eleitoral.

Este será o primeiro 5 de Outubro da pandemia e o último do atual mandato presidencial de Marcelo.

Em anos anteriores, o Presidente aproveitou a data para deixar alertas à classe política, insistindo na ideia da qualidade da democracia e pedindo aos partidos políticos convergências no essencial. Desta feita, o discurso do Presidente ocorre precisamente uma semana antes da data de entrega do Orçamento do Estado para 2021 na Assembleia da República e num clima de incerteza sobre a viabilização do documento. Marcelo Rebelo de Sousa já avisou que é impensável abrir uma crise política nesta altura. "É uma ficção", avisou.

Ao contrário do habitual, por força da pandemia de covid-19, a cerimónia não decorrerá neste ano ao ar livre, às portas da Câmara de Lisboa, mas no Salão Nobre dos Paços do Concelho, onde estarão, além do Chefe do Estado, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, o primeiro-ministro, António Costa, e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o socialista Fernando Medina (que também discursa).

No salão Nobre estarão também os quatro presidentes dos tribunais superiores e cinco vereadores, um de cada força política representada na autarquia.

O primeiro 5 de Outubro de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República foi em 2016, no mesmo ano em que a data da implantação da República voltou a ser feriado - uma das primeiras medidas do governo de António Costa com o apoio parlamentar do Bloco de Esquerda, do PCP e do PEV.

"Está vivo o princípio de que todo o poder político é temporário, não se transmite por herança nem comporta a escolha do sucessor, está vivo o princípio de que todo o poder político é limitado, sujeito a controlo por outro poder político e sempre pelo povo."

No discurso na Praça do Município, o Chefe do Estado sublinhou que "o 5 de Outubro está vivo", no que foi o mote para pedir aos responsáveis políticos um exemplo de "constante humildade, de proximidade, de frugalidade, de independência, de serviço pelos outros, de todos os outros, mas com natural atenção aos mais pobres, carenciados, excluídos".

Num discurso com muitos avisos à classe política, o Presidente da República defendeu que é a própria democracia que fica em risco "de cada vez que um responsável público se deslumbra com o poder, se acha o centro do mundo, se permite admitir dependências pessoais e funcionais, se distancia dos governados, aparenta considerar-se eterno, alimenta clientelas, redes de influência de promoção social, económica e política". E avisou que "está vivo o princípio de que todo o poder político é temporário, não se transmite por herança nem comporta a escolha do sucessor, está vivo o princípio de que todo o poder político é limitado, sujeito a controlo por outro poder político e sempre pelo povo".

Um ano depois, o Presidente da República voltou à Praça do Município, novamente com muitos recados para a classe política, sublinhando que Portugal é uma "democracia política com protagonistas capazes de apontar ao médio e longo prazo, ultrapassando o mero apelo dos sucessivos atos eleitorais, sendo certo que não há sucessos eternos nem reveses definitivos". E uma democracia "com a garantia dos direitos de todos, sem discriminações de qualquer espécie".

Apontando a necessidade de celeridade da justiça, de segurança, de estabilidade financeira - "que tudo façamos para que os portugueses e as portuguesas saibam que as suas vidas e bens estarão mais seguros, que a sua inocência ou culpabilidade não serão um novelo interminável, que a crise financeira e económica não regressa mais, que a educação, como a saúde e a Segurança Social, não cavam fossos inaceitáveis", Marcelo insistiu numa ideia que tem sido constante ao longo do seu mandato, pedindo "convergências no essencial", reservando para o não essencial as "salutares divergências políticas".

Em 2018, numa altura em que o caso de Tancos marcava a atualidade (no dia anterior tinha sido noticiado que o então ministro da Defesa, José Azeredo Lopes, tinha tido conhecimento da encenação para a recuperação das armas roubadas, o que foi negado pelo ministro), Marcelo aproveitou o 5 de Outubro para sublinhar a importância das forças militares, avisando que não há verdadeira democracia "sem atenção a entidades estruturantes como as Forças Armadas".

O "tratamento errado das Forças Armadas" conduziu Portugal à República Nova que antecedeu o regime de Salazar, recordou o Presidente da República.

Já a olhar para o ano seguinte, que seria marcado por duas eleições (as europeias de maio e as legislativas de outubro), Marcelo advertia que "Portugal terá de afirmar em permanência a qualidade da democracia, a inovação e a proximidade no sistema político, a consistência do crescimento económico, a equidade do sistema social, a capacidade para atrair os que não querem partir ou partiram e querem regressar, para oferecer horizontes que o poupem, que nos poupem, a tentações radicais, egoístas, chauvinistas ou xenófobas".

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