Lisboa já tem filas, dificuldade em estacionar e tecidos a metro ao custo de uma máscara

Lisboa viu abrir nesta segunda-feira o comércio e os serviços. Muito mais gente, carros, dificuldades para estacionar. Esperam e não desesperam, sobretudo para comprar TNT (tecido não tecido) a 1,50 euros o metro para fazer máscaras. As críticas vão para as Finanças.

Filas à porta de lojas, bancos, correios e outros espaços públicos, menos no cabeleireiro onde só se recebe por marcação. Nas Finanças, os utentes batem com o nariz num aviso: atendimento por marcação para o 217206707. Mas quando telefonam a chamada é desligada devido "ao elevado número de tráfego". "E os funcionários lá dentro sem fazerem nada", reclamam os contribuintes.

Lisboa iniciou esta segunda-feira (4 de maio) a abertura do comércio e serviços com muito mais gente e carros nas ruas do que nas últimas seis semanas. E com grandes dificuldades para estacionar, serviço que continua sem ser pago.

O caderno de marcações do Estúdio do Cabelo, em Benfica, voltou a ter nomes. É obrigatório marcar e não pode haver clientes à espera nos cabeleireiros. O que significa que terão menos serviço, mas Susana Rodrigues, 37 anos, e a Paula Cristina Ribeiro, 52, as proprietárias, vão manter os preços. O que querem é ter as clientes de volta e, os primeiros dias da semana são promissores. Todos os horários estão quase preenchidos.

"Temos muitas marcações, graças a Deus, fechámos no dia 19 de março e, logo que soubemos que podíamos abrir, telefonámos e enviámos mensagens para as clientes, que começaram logo a marcar", conta Susana.

O espaço está aberto há ano e meio, só encerra aos domingos, tem vindo a implementar-se devagarinho mas de forma consistente. Quase dois meses de paragem foram um grande revês. "Vai ser muito difícil, somos sócios-gerentes e só na semana passada conseguimos fazer o pedido de apoio na segurança social, vamos ver como vai ser. Tem de ser um dia de cada vez", diz a empresária, com um sorriso de esperança.

As clientes querem fazer tudo, cortar e pintar os cabelos, arranjar as mãos, etc., têm também uma esteticista, que trabalha por sua conta.

Paula Cristina cortou, fez as madeixas, e está a dar os toques finais no cabelo da Marina Carreiro, 40 anos. "Estava a precisar muito", justifica a cliente, perante o consentimento de Paula. Acrescenta: "Vou iniciar uma nova atividade, como comercial em produtos de estética, e queria estar com bom aspeto ou, pelo menos, com melhor aspeto."

Difícil marcar por telefone

Em Benfica, fica a repartição Lisboa 5 das Finanças, que mantém o gradeamento e as portas fechadas ao público. Quem esperava ser atendido, ficou do lado de fora, porque o atendimento é "só por marcação", lê-se num papel colado no vidro. A maioria não sabia da regra; outros dizem que ligaram e não conseguiram marcar.

Um morador no prédio ao lado atira: "Têm de ficar toda a manhã à espera que atendam, é o que tenho ouvido dizer." Mas, quem ligou esta segunda-feira de manhã para a Autoridade Tributária e Aduaneira (o nome atual das Finanças) ouviu: "Devido ao elevado número de tráfego, prevê-se que o tempo de espera seja maior que o desejado, tente outra vez."

O pior é que maio é o mês do pagamento do Imposto Municipal sobre os Imóveis (IMI) e há quem goste de saldar a dívida logo no início do mês.

"Continua fechado, como nos outros dias. Agora, como é que vou pagar as contas? Tenho de pagar umas coisas que herdei do meu marido, que nem conheço. O meu marido morreu há oito anos e o recibo ainda vem no nome dele, veja lá", protesta Helena Silva, reformada, 76 anos. Os pagamentos e as compras são as poucas coisas que a fazem sair de casa, já que é "muito caseira".

Lido Carvalho, 77 anos, operário metalúrgico em grande parte da vida, está com o mesmo problema. Tem 40 euros para pagar de "um terrenozinho em Viseu", a sua terra natal. "Na semana passada liguei várias vezes para este número, fala sempre uma pessoa, nem percebo o que diz, e a chamada acaba. É a segunda vez que venho aqui, venho de Carnide, em transportes públicos e sou obrigado a usar máscara. Quem não a tiver paga uma multa de 350 euros, já viu tanto dinheiro, ainda se fosse 70, como fazem as pessoas que estão desempregadas? ", questiona Lido.

Alguém lhe diz que pode pagar nos CTT, mesmo ao lado e que desde esta segunda feira passou a funcionar à tarde (até às 17:30), o que não aconteceu durante o Estado de Emergência, com intervalo para almoço. O homem não se convence: "Tem uma fila grande, não sei se me conseguem atender antes do almoço e sempre paguei isto nas Finanças." Logo ali se inicia um debate. "Porque é que as Finanças não fazem como os CTT, atendem à vez ou com senhas? Assim, ninguém é atendido e as funcionárias estão lá dentro sem fazer nada."

Melhor sorte tem uma mulher que espera para ser atendida e prefere não dizer o nome. Conseguiu uma marcação na sexta-feira, para as 11.00 desta segunda-feira, às 11.30 estava despachada. "Atendem numa espécie de janelinha, nem tiram o gradeamento, parece uma prisão. Mas na semana passada era pior, vinham falar à varanda e não atendiam."

Na repartição Lisboa 2, no Marquês de Pombal, o cenário é o mesmo, as mesmas reclamações. Quem espera para ser recebida dá uma dica: "Tem de se telefonar muito, muito cedo ou não se consegue."

Na fila dos CTT de Benfica está Simão Abreu, 79 anos, reformado da PSP. "Venho pagar as minhas contas, a luz, gosto de pagar o que gasto", diz. Os clientes entram no edifício à medida do atendimento e para todo o tipo de serviços, também para pagar o IMI. A fila não é pequena.

As ruas do bairro de Benfica têm muita gente e é rara a loja sem clientes à espera na rua. O pronto-a-vestir Cadena abriu às 10.00 e estreou-se logo nas vendas, até porque está com algumas promoções de 50%, o que já tinham quando foram obrigados a encerrar devido à pandemia.

Três funcionárias no interior, tantas como os clientes permitidos em simultâneo. É obrigatório o uso da máscara ou viseiras, deve-se pôr desinfetante, estão sempre a desinfetar as caixas de pagamento, também os provadores e o chão.

Maria de Fátima Almeida, 71 anos, é a funcionária mais antiga, mas a idade não está estampada na cara. Está otimista apesar da previsão de dificuldades. "Penso que isto vai retomar, estamos a fazer por isso, estamos com boas expectativas. Fizemos tantos sacrifícios durante estes dois meses, se volta tudo atrás é que é muito complicado."

Na cidade de Lisboa os autocarros circulam mais cheios, também há mais passageiros no metro, diz Marlon Brando Mendonça, que mora no centro de Lisboa e anda sempre em transportes públicos. Um brasileiro da Amazónia, 39 anos, há meses em Portugal, que ficou sem emprego com a vinda da covid-19 e que ganhou o nome de Marlon Brando devido à admiração que os pais tinham pelo ator norte-americano.

Tecido não tecido em alta

"O uso da máscara é obrigatório", avisa a voz do altifalante mas não se vê quem faça essa fiscalização nas estações do Marquês de Pombal e do Saldanha. Há um ou outro passageiro sem essa proteção.

"Na minha carruagem viajava um casal e a mulher não trazia máscara, o homem até lhe chamou a atenção, mas as máscaras também são caras. Eu andava com um lenço, mas reconheço que estas descartáveis são melhores, só que custam 1,50 euros", lamenta o Marlon Brando brasileiro. Confessa que está a usar a mesma pela segunda vez.

Na estação do metro do Marquês de Pombal, a máquina dos chocolates e bebidas tem a última fila superior com máscaras e desinfetante, 1,50 euros cada, e luvas, um euro. "Parece que encravou", diz um funcionário do Metropolitano de Lisboa, quando perguntamos onde poderemos encontrar esses produtos. Ainda são poucas as estações que os vendem.

As máscaras constituem, agora, uma das maiores fontes de negócio da Vidal, uma das lojas de tecidos mais antigas e maiores do país. Surgiu em 1966 com um armazém na Rua Saraiva de Carvalho, em Campo de Ourique, transformando a artéria num centro comercial aberto de tecidos a metro.

O que vendem mais agora é o TNT (tecido não tecido), precisamente o material com que se fazem as máscaras cirúrgicas. O metro de tecido de TNT mais fino, com 1,60 m de largura, custa 1,50 euros, ou seja, tanto quanto uma máscara no mercado. E o TNT mais grosso, que permite duas lavagens, fica a dois euros o metro.

Nesta segunda-feira, não têm mãos a medir, as pessoas esperam do lado de fora pela sua vez, já que não podem estar mais de cinco clientes em simultâneo no interior, "Atendemos quem encomendou online e quem vem escolher diretamente, estamos a pedir que tragam uma lista e para serem objetivos no que pretendem", explica Gustavo Vidal, 50 anos.

As vendas reiniciaram bem: "Estamos com um número de clientes de acordo com estas limitações, não parámos. Temos o TNT e as pessoas vêm comprar para fazer as máscaras, particulares e artesãos. Tem havido escassez deste produto, que teve uma procura gigantesca. Felizmente, percebemos logo no início, antes do encerramento da loja, e comprámos o que foi possível", conta o filho do fundador da empresa e que, agora, gere o negócio com a irmã.

O TNT é fabricado na China mas chega a Portugal através de intermediários europeus. A Vidal tem a lojaonline há seis anos. Antes da declaração do estado de emergência, tinham cem encomendas por mês, agora têm 150 por dia.

Mesmo junto ao Jardim da Parada está a livraria Ler, que nunca encerrou ao público. Os pedidos dos artigos eram feitos por telefone e por Facebook, que durante a pandemia passaram a ser os meios privilegiados de comunicação, com o levantamento dos livros a ser feito na loja. Nunca mais de três pessoas em simultâneo no interior, obrigatório o uso de viseira ou máscara, desinfetante e luvas disponíveis à porta para os clientes usarem.

Medidas que ajudaram a passar melhor este período, conta Rui Anselmo, 47 anos, um dos dois funcionários da Ler. "Somos muito localizados, uma livraria de bairro [só há mais uma em Campo de Ourique], temos um público fiel, não seremos um exemplo do que se está a passar neste mercado. Sei que o mercado livreiro foi muito afetado, o que não aconteceu connosco. Hoje, quando abrimos as portas [10.00], tínhamos três pessoas à espera."

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