O vizinho do sul

O seu papel duplamente político e religioso faz do rei de Marrocos una figura incontornável do país magrebino, o nosso outro vizinho além de Espanha se ignorarmos um pouco de Atlântico que há pelo meio. E apesar das tradicionais eleições, e da muita competição ideológica que costuma existir entre partidos que vão do comunista ao islamita, é unânime que o governo de Rabat agirá sempre em consonância com o monarca, jamais em oposição a este. Aliás, para garantir que nunca um partido emergirá das urnas com um mandato popular que lhe dê ideias demasiado ambiciosas de ação, o sistema eleitoral tende a fragmentar o parlamento de Rabat e a obrigar a frágeis governos de coligação, como o cessante, cujo primeiro-ministro, Saad Dine El Otmani, milita no Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD), islamita.

Não se pode dizer que o sistema marroquino tem funcionado mal, bem pelo contrário. O país, sempre estável, está entre os mais desenvolvidos de África e a sua economia é a quinta maior do continente apesar de não contar com a riqueza em petróleo e gás natural que possui, por exemplo, a Argélia, vizinho com o qual tem relações muito complicadas. Também a força da sociedade civil tem levado a monarquia a abrandar o controlo sobre a vida política, dentro de certos limites, e os tabus vão pouco a pouco desaparecendo: em 1993, quando fui pela primeira vez em reportagem a Marrocos, Hassan II reinava e, apesar de haver eleições e de os socialistas serem um partido fortíssimo, ninguém admitia a hipótese de um primeiro-ministro de esquerda - mas a verdade é que em 1998 Abderrahmane El Youssoufi, líder da União Socialista das Forças Populares (USFP), tornou-se chefe do governo e numa entrevista que me deu falou com grande respeito do papel do rei. Já com Mohammed VI no trono, a partir de 1999, também o tabu de um primeiro-ministro islamita veio a ser quebrado, pois em 2011 Abdel-Ilah Benkiran, do PJD, assumiu o cargo.

Nesse ano de 2011, uma nova Constituição foi um passo importante no esforço de construção de uma democracia em Marrocos, e aconteceu em plena Primavera Árabe, fenómeno que só no norte de África levou à queda de três governantes há décadas no poder, o líbio Muammar Kadhafi, o egípcio Hosni Mubarak e o tunisino Ben Ali. Se tivermos em conta o caos que se seguiu nesses três países (apesar do sucesso democrático tunisino), a monarquia marroquina revelou mais solidez do que as repúblicas da sua região. Mohammed VI, com bons conselheiros, conseguiu fazer uma leitura antecipada das necessidades da sociedade e agiu. E por isso a aposta hoje na diversificação económica e na captura de investimento estrangeiro, de modo a criar empregos e tentar reduzir as desigualdades sociais do reino para preservar o prestígio de uma dinastia que vem do século XVII.

Haverá eleições na próxima quarta-feira e como bem alertou aqui ontem no DN o arabista Raul M. Braga Pires, grande conhecedor de Marrocos, o provável é uma derrota do PJD e um novo governo liderado por uma figura do Reagrupamento Nacional dos Independentes (RNI), um partido de notáveis com ligações óbvias ao palácio. Mas também o Partido Autenticidade e Modernidade (PAM) e o histórico Istiqlal surgem como hipóteses, dada a tradicional fragmentação do voto. Veremos que consequências terá essa eventual mudança (ou a continuação do PJD) para um país que, apesar do contratempo da covid-19, tem apostado muito na dinamização da economia, na ação no campo social, e tem também estado na ofensiva no plano diplomático, sobretudo procurando consolidar a integração territorial do Sara Ocidental graças à abertura de consulados na antiga colónia espanhola, o reconhecimento da soberania marroquina pelos Estados Unidos e também o braço-de-ferro com Espanha quando esta acolheu num hospital o líder da Polisário, movimento independentista sarauí. A decisão recente da Argélia de romper relações diplomáticas com Marrocos terá muito que ver com o Sara, províncias do Sul segundo Rabat, pois Argel sempre apoiou o separatismo da Polisário, cujos líderes (junto com milhares de refugiados) vivem em Tinduf.

Portugal convém estar atento aos desenvolvimentos em Marrocos por várias razões, desde o combate ao jihadismo até à limitação da imigração ilegal. Como comandantes dos fiéis, um título religioso, os sucessivos monarcas marroquinos têm promovido um islão tolerante, na linha da tradição do país e isso tem sido até agora um obstáculo às correntes terroristas que tentam cativar os mais deserdados. Também a boa vontade do monarca é essencial para travar a entrada ilegal de gente via estreito de Gibraltar, como as autoridades de Madrid tão bem sabem. E se a rota de migração para Portugal continua residual, isso não significa que não haja interesse em colaborar com os marroquinos para prevenir um agravamento. Acrescento ainda que focos de modernidade com o TGV de Casablanca a Tânger e a extensão do porto desta última cidade dão sérias indicações das oportunidades que podem existir em Marrocos (país emergente em 2030, segundo o objetivo do rei) para as empresas portuguesas, na linha do que fazem as congéneres de outros países da União Europeia, firme aliada do país magrebino como se ouviu recentemente Bruxelas relembrar. Nunca esquecer que Lisboa é a capital mais próxima de Rabat e que não são umas centenas de quilómetros de mar que impedem os dois países, com uma história tão interligada, de serem bons vizinhos, até porque desde a retirada portuguesa no século XVIII de Mazagão (El Jadida) deixámos de ter diferendos com Marrocos e isso não é pormenor.

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