Avante! Pela "fruição da vida" na Festa mais tensa de sempre

O PCP insistiu na realização da sua festa em nome da "fruição da vida", mas para os visitantes e sobretudo para os organizadores estes serão três dias de alta tensão. Todos os olhares convergem para a Quinta da Atalaia, Amora, Seixal.

Sim, Jerónimo de Sousa estará hoje presente na Festa do Avante!, na Amora, Seixal. E amanhã, e depois, e será principal orador do comício de encerramento, como tem acontecido todos os anos desde 2005.

Uma notícia, ontem, do Expresso, dizendo que Jerónimo não estaria nesta tarde na abertura da Festa do Avante!, levou o partido, novamente, a falar em "mais uma mentira" construída de propósito "para atacar a Festa e o PCP".

O que acontecerá, explicou o partido em comunicado, é que Jerónimo estará todos os dias na Festa, tanto para dar "expressão ao programa político" do PCP como "em momentos de usufruto pessoal, a exemplo de anos anteriores".

Não fará, no entanto, nesta sexta-feira, o habitual discurso de boas-vindas - por razões de "segurança sanitária" com o intuito de evitar concentrações desnecessárias de pessoas -, sendo esse discurso gravado e transmitido tanto pelo sistema de som do evento como pelas páginas online do partido.

A forma furiosa como o PCP reagiu à notícia do Expresso enquadra-se num crescendo de tensão que foi acompanhando em paralelo a aproximação do momento da aberturas de portas da Festa - nesta sexta-feira, às 16.00, com duas horas de antecedência em relação ao início do programa.

A tensão é muita. Todo o país olha para o que se vai passar na Quinta da Atalaia como uma atenção que a Festa do Avante! nunca tinha tido. E essa tensão, nos ombros dos visitantes do evento mas sobretudo das centenas de militantes envolvidos na organização, contrasta, em absoluto, com o principal argumento do PCP para ir para a frente com a realização da sua festa, mesmo em tempos de pandemia.

Esse argumento foi o da "fruição da vida". Nos milhares de caracteres que a direção comunista foi publicando em defesa da realização da Festa - decisão tomada numa reunião do Comité Central a 16 de maio na sequência de um intenso debate interno -, esse foi o principal argumento usado pelo PCP.

O PCP - que nunca levou a bem, por exemplo, as limitações impostas pelo estado de emergência - recusa em absoluto a ideia de "novo normal" associado à pandemia. Ora a Festa é um ato aberto de recusa desse "novo normal", recusa traduzida na expressão "fruição da vida".

É disso que se fala no comunicado da reunião do Comité Central de 27 e 28 de junho: "A Festa do Avante!, tomando as medidas de proteção sanitárias adequadas e inseridas na divulgação pedagógica da prevenção e proteção que continua a impor-se, é uma grande afirmação do estímulo à atividade, à cultura, à arte, ao desporto, ao convívio, ao lazer, à intervenção política, à solidariedade, à fruição da vida, hoje essenciais à saúde e ao bem-estar da população."

Ou numa nota do gabinete de imprensa do partido emitida no dia 14 de agosto (para explicar as medidas de segurança adotadas): "A fruição da vida é hoje como sempre, a par da adoção de todas a medidas preventivas em termos de saúde pública e a pedagogia dessa prevenção, um fator não só de promoção de saúde física e mental como de bem-estar individual e coletivo. Esse é o caminho que a Festa do Avante! aponta. Esse é o caminho que o País precisa."

Ou noutra de 31 de agosto: "A Festa do Avante!, um ato responsável organizado com a máxima exigência de proteção que o PCP não descura e promove, é um contributo para afirmar o bem-estar, a saúde e a fruição da vida."

O PCP mobilizou centenas de militantes - começando, claro, pelos próprios funcionários do partido - para manter sempre em funcionamento os protocolos de segurança que há muito tinha definido, e que tiveram de ser reforçados com o parecer feito pela Direção-Geral da Saúde (DGS). Toda a atenção não será pouca para ir, durante três dias, impondo o famoso "distanciamento social", sobretudo nos espaços onde ele é menos natural (nas entradas e saídas, por exemplo).

Todas as plateias - dos espetáculos musicais mas também do Avanteatro, do Cineavante e do Auditório 1.º de Maio - terão de estar sentadas em cadeiras. Ora, a princípio o partido não tinha previsto isso para os espetáculos musicais, que estarão divididos por três palcos (em 2019 eram sete).

E, por outro lado, nestas mesmas plateias dos palcos, o espaço inicialmente previsto pelo PCP para intervalo entre as pessoas era de 1,5 metros e passou a dois metros - também por imposição da DGS.

E, globalmente, a lotação máxima de pessoas em simultâneo na Festa foi reduzida de 33 mil pessoas - a previsão inicial do PCP, sendo este número já só um terço dos cem mil que cabem na Quinta da Atalaia, um espaço com uma área total equivalente à de 30 campos de futebol - para 16 563.

Nesta sexta-feira, na parte musical, a noite será sobretudo do fado. Aldina Duarte e a dupla Camané-Mário Laginha atuarão no Auditório 1.º de Maio, às 22.00 e 23.30, respetivamente. Às 21.30, o Cineavante passará "Santiago, Itália", de Nanni Moretti. E, já se sabe: consumo de álcool depois das oito da noite só se for ao jantar. Fora disso é proibido.

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