"As crises, como esta, têm um grande peso na saúde de crianças e jovens"

O pediatra que criou e dirigiu durante 25 anos o serviço do Hospital de Leiria acaba de se aposentar. Bilhota Xavier, presidente da Sociedade Pediátrica da Qualidade e Segurança, acredita que Portugal tem "dos melhores pais do mundo", que mesmo mergulhados em crises sucessivas investem tudo o que podem nas vacinas que não são comparticipadas.

Júlio Bilhota Xavier, 67 anos, é natural da Guarda. Estudou em Coimbra, e há 31 anos que mora em Leiria - que considera também a sua terra. Acaba de se aposentar do Centro Hospitalar de Leiria, enquanto diretor do serviço de Pediatria, considerado um dos melhores do país. No último dia de julho, foi surpreendido com uma homenagem por parte de mais de cem trabalhadores do hospital, num momento que o emocionou. Desempenhou diversos cargos de relevo ao longo da carreira, com destaque para o de presidente da Comissão da Saúde da Mulher, Criança e Adolescente, entre 2009 e 2014.

Continua a ser presidente da Sociedade Pediátrica da Qualidade e Segurança do Doente, um organismo da Sociedade Portuguesa de Pediatria. E também presidente do Júri de equiparação a especialista em pediatria, para os médicos que vêm dos países fora da União Europeia. Um mês depois de passar à reforma, fala ao DN da saúde infantil, dos desafios da medicina e de como as crises têm afetado as crianças e jovens do país.

O que é que o levou a optar por esta especialidade da pediatria?
Porque é uma área da medicina interna de que sempre gostei muito. Tem-se sempre uma visão muito holística das pessoas, neste caso das crianças. Por outro lado, quando fiz a minha formação passei pelo Hospital pediátrico de Coimbra. O serviço onde estive era o único que já tinha uma visão daquilo que deveria ser o serviço hospitalar, o que me levou a querer abraçar a Pediatria. Na verdade era um serviço que já trabalhava como escola, em que todos os profissionais chegavam a horas, tinham uma preocupação muito grande em termos pedagógicos. Foi o que me levou a mudar de ideias.

Quer dizer que pensava noutra especialidade?
Inicialmente tinha pensado em cardiologia ou nefrologia. No exame tive uma classificação que me permitia escolher qualquer especialidade. Mas a pediatria e aquela escola marcou-me pela inovação, pela visão, aquilo que devia ser uma medicina moderna. Acabei por seguir todos os passos da carreira, e fui talvez o mais novo, senão dos mais novos chefes de serviço no país.

Tinha pouco mais de 30 anos...
Sim. E neste momento apenas cerca de 2% dos médicos é que chegam ao topo da carreira, ao contrário do que sucede noutras profissões, em que sobem por antiguidade, por exemplo. Na medicina é preciso fazer concurso e exames atrás de exames para chegar ao topo - e com as remunerações que são conhecidas, porque ao contrário do que se pensa os profissionais de saúde são muito mal remunerados. A medicina é muito exigente, é um risco permanente, quando falhamos pode ser fatal. É um stress permanente, trabalhamos muito com a vida das pessoas, e qualquer erro pode levar à morte. Hoje fala-se muito no burnout... e é uma realidade.

A área que abraçou tem ainda acrescida a delicadeza de lidar com crianças e com as famílias...
Também é verdade. Muitas vezes lidamos com situações dramáticas, que não têm solução, infelizmente. E nós nunca temos só uma consulta. Quando avaliamos uma criança avaliamos também uma família. Uma das coisas que me orgulho de dizer é que o serviço de pediatria do Centro Hospitalar de Leiria - que é muito grande - foi sempre desde o princípio muito amigo das crianças e das famílias.

Foi por isso que criou a ala para os pais, que passou a permitir um outro acompanhamento quando as crianças estão internadas?
Isso é uma outra história. Uma das razões por que vim para Leiria, foi porque éramos quatro pediatras que decidiram ir para um serviço de pediatria, que quase não existia, não funcionava 24 horas nem garantia a assistência necessária. E nós, essa equipa fantástica, garantimos durante vários anos a assistência. Foi aí que começou o crescimento do serviço de pediatria. Depois, como tive o privilégio de participar na revisão do plano arquitetónico do que é hoje o Hospital de Santo André, em Leiria, pudemos redefinir totalmente o que estava programado para um serviço de pediatria para o século XXI. E pudemos criar um serviço de pediatria já com as condições próprias para ter crianças dos diferentes grupos etários. E para ter as famílias. Foi preciso construir uma nova ala, com quartos para os pais.

E o serviço de urgência e consulta externa especializado para as crianças e adolescentes acontece também nessa altura?
Sim, contra tudo e contra todos. Porque havia outros interesses.

Dentro do próprio hospital?
Dentro do poder político que decidia as verbas a atribuir ao hospital. Na altura gastaram-se mais 300 mil contos para fazer uma nova pediatria, que não estava projetada. E é verdade que o que existe hoje foi feito um bocadinho à minha imagem e ao que pensava que deveria ser um serviço de pediatria. Isto foi há 27 anos.

Mas foi fazendo adaptações, ao longo do tempo?
Sim, mas na organização dos cuidados. Depois fomos pioneiros num protocolo com a SAMP, com o projeto Allegro pediátrico, em que os músicos começaram a ir ao serviço de pediatria duas ou três vezes por semana. Não era só para tocar. Era para ajudar as crianças, as famílias e os profissionais a ultrapassar aquela preocupação do estar doente. Quando estamos doentes e internados no hospital temos uma quebra muito marcada do que são as rotinas do nosso dia. As pessoas ficam muito fragilizadas. E isso veio aliviar muito essa componente.

E essa importância que atribuiu à família e não apenas à criança que está doente esteve sempre na mira da forma como dirigiu o serviço de pediatria, juntando-lhe projetos como esse?
Porque é muito importante aliviar essa parte.

Foi a mesma SAMP que participou na despedida que lhe fizeram, à porta do hospital, no dia em se aposentou.
Também foi.

O que é que sentiu nesse dia, quando viu os profissionais de todo o hospital a aplaudirem-no?
Não é todos os dias que se tem uma homenagem daquelas, em que estávamos já em férias e os profissionais do hospital conseguem estar ali presentes. Foi uma muito agradável surpresa, que agradeço a todos. Foi um reconhecimento. Eu tentei dar algum contributo para que, quando saí, o Hospital de Leiria fosse muito diferente daquele que era quando lá entrei.

Sente que conseguiu torná-lo num hospital de referência, a nível nacional, no que respeita à pediatria?
Nós investimos muito na formação dos profissionais que trabalham na pediatria. Temos vários prémios, não apenas dos que são atribuídos pela Escola Nacional de Saúde, mas também em termos de trabalhos publicados. Não é por acaso que, entre os muitos médicos formados na pediatria de Leiria, no concurso para a admissão à especialidade, uma grande maioria ficou em primeiro lugar. É resultado da formação intensa e permanente dos profissionais. Por isso digo sem modéstia que este serviço é reconhecido a nível nacional, interpares, pelos seus colegas.

Foi aqui que se empenhou, sobretudo, ao longo da carreira?
Sobretudo mas não só. Também me empenhei muito no desenvolvimento da qualidade da pediatria em Portugal.

Que é hoje muito diferente do que era quando chegou à profissão?
Muito diferente, para melhor.

Qual é, na sua opinião, a condição essencial que um pediatra tem de ter?
Tem de ter uma formação ética e deontológica que é indispensável, mas também aquela postura que o Papa Francisco muitas vezes já descreveu: um médico tem de ser um ser com compaixão. Ter compaixão é estar ao lado das outras pessoas. Um dos princípios que sempre me norteou foi fazer ao outros sempre aquilo que gostaria que nos fizessem a nós. Espero ter deixado esse caminho desbravado para que possa continuar assim.

Ao citar o Papa, isso quer dizer que é crente?
Sou crente nas pessoas de bem. As que não são, tento que o sejam. Não sou ligado a qualquer religião, nunca senti essa necessidade. Mas tenho fé. A fé pode ter-se de muitas maneiras. E a grande maioria das pessoas é de bem. Acredito muito nas pessoas, na sua natureza e na sua bondade. E foi isso que me levou a acreditar noutros projetos.

Por exemplo?
Em 2002 comecei a empenhar-me numa cultura de qualidade dos serviços de saúde. Não tinha formação nessa área, mas fui desafiado pelo Instituto da Qualidade e Saúde a pensar num procedimento que levasse a que as pessoas que se dirigiam à urgência pediátrica fossem tratadas com qualidade, humanização e segurança.

Foi por isso que a urgência pediátrica de Leiria foi o primeiro serviço do SNS a ter reconhecida nesse âmbito?
Foi exatamente o que levou a ser o primeiro a ter uma certificação de qualidade. Isso foi uma lança em África.

Para um hospital de uma pequena ou média cidade, foi um feito?
É um médio hospital que se pode considerar um grande hospital. Porque fomos fazendo esse trajeto, e depois veio a unidade de missão para os hospitais, e desafiaram uma série de hospitais a um processo de acreditação de qualidade da Joint Commission Internacional, que é a entidade mundial de maior exigência. E conseguimos acreditar o Hospital de Santo André, em 2012, num processo muito difícil e complexo. Depois como se criou o Centro Hospitalar de Leiria, integrando os hospitais de Pombal e Alcobaça, demos mais esse passo. Atualmente todo o CHL está acreditado por essa entidade de máximo rigor.

A pediatria de Leiria foi um dos primeiros serviços no país a alargar a idade de atendimento até aos 18 anos. Foi um grande desafio integrar jovens quase adultos?
Sim, contribuí para isso também, no âmbito das minhas funções na comissão nacional de saúde materna da criança e do adolescente.

E não foi uma mudança pacífica...
Não foi porque as equipas, na sua maioria, não tinham formação para tratar adolescentes com mais de 13 ou 14 anos. Por isso é que em Leiria passámos dos 13 para os 15 e depois até aos 18, progressivamente, em cada ano, sempre com formação. Porque é diferente trabalhar com um bebé prematuro que nasce com 800 gramas, do que com um jovem que pesa 100 kg.

Nessa altura revelou que muitos dos jovens apresentavam sobretudo problemas do foro mental ou comportamental. Nessa altura não se falava como hoje da saúde mental. Parece-lhe que tem vindo a aumentar o número de crianças e jovens que precisa de ajuda nessa área?
É natural, fruto das crises e dos problemas sociais. Neste momento atravessamos uma crise, mas houve a de 2011, com muito desemprego, crianças a verem as dificuldades de pai e mãe desempregados...

Isso teve um grande peso na saúde das crianças e jovens?
Teve um grande peso no sofrimento dos jovens. E com a descriminação social que existe, porque em Portugal continua a haver uma grande separação entre quem tem e quem não tem. Por isso é preciso investir muito mais na formação das crianças e jovens. Não é por acaso que são precisas cinco gerações para se sair da pobreza. Além disso há outra questão, que começa com as crianças pequenas, em que os pais trabalham desde muito cedo até muito tarde: vão depositar as crianças às 8 da manhã numa creche e recolhê-las às 8 da noite.

E isso tem uma grande influência na saúde das crianças?
Tem uma grande influência na saúde mental e às vezes até na saúde no seu todo. Porque muitas vezes os pais não têm disponibilidade para as levar ao médico. E é preciso ir ao médico é quando se está com saúde, por antecipação. Fazer as vacinas, por exemplo.

Algumas vacinas têm demorado a entrar no plano nacional de vacinação?
Algumas sim. Como a Prevenar 13 (contra os pneumococos), que agora já faz parte, mas há outra vacina para outro tipo de meningite que noutros países já faz parte e em Portugal ainda não. Estava previsto no Orçamento do Estado - embora seja estranho serem os deputados que vão dizer quais são as vacinas que entram no programa de vacinação - entrarem em outubro, essa e outras. Vamos ver. E apesar de haver esta dificuldade de custos, eu costumo dizer que nós em Portugal temos dos melhores pais do mundo. Porque cerca de 70% das crianças estão vacinadas com estas vacinas, o que é notável para pais com baixos rendimentos.

Apesar de algumas correntes antivacinação...
Há uma pequena minoria de pais que são contra as vacinas, apesar dessas correntes.

Há uns anos, a gripe A dividiu alguns pediatras, no que respeita à vacina. É por princípio o defensor da administração das vacinas em qualquer circunstância?
A vacina contra a gripe A estava suficientemente testada. Nós temos a vantagem de quando aparecem gripes isso já ter acontecido noutros países. Neste momento alguns estão no inverno. Até porque com estes vírus respiratórios - como é agora este do SARS 2, conhecido por Covid-19 - é difícil ganhar imunidade. Porque há pequenas mutações e é preciso adequar todos os anos, lembrando que a gripe é uma doença grave.

Mas foi a favor da vacina contra a gripe A?
Totalmente a favor. E a grande maioria dos pediatras também. Era também um vírus novo, só que na altura não se disseminou como este.

Porque este tem características diferentes...
É de muito mais fácil contágio. Porque tem muito mais peso. E nessa altura não havia cerca de 4 milhões de pessoas a voar todos os dias e a levar o vírus de um lado para o outro.

Olhando para uma vacina contra a covid-19, parece-lhe que é importante administrá-la também às crianças, mesmo tendo em conta que nelas o vírus não se manifesta de forma tão agressiva como nalguns adultos?
Eu acho que sim. Apesar de não ser a nossa experiência a nível nacional, já se publicaram estudos que mostram que as crianças também são contagiadas facilmente e contagiam. Até ao fim do mês de julho, no Hospital de Leiria tinham-se feito 1700 testes a crianças, e apenas uma foi positiva, logo no início de março. Além disso, sobre a questão da mortalidade, isso tem de ser feito por milhão de habitantes e com critérios iguais. Porque uma coisa é nós morrermos pelo covid, em consequência de uma infeção desse tipo, outra é ser positivo e não morrer do vírus. Há uma discrepância a nível internacional.

É o caso da criança de 4 meses, que morreu recentemente em Portugal?<>
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Estamos a falar de uma criança que tinha uma patologia complexa, uma cardiopatia congénita, que tinha muito comprometida a sua esperança de vida, e que contraiu a infeção por covid. É diferente de ser uma criança saudável. Desde março não tivemos em Leiria nenhuma criança internada, não transferimos nenhuma criança. E tivemos apenas um caso. É evidente que o mundo inteiro anseia por uma vacina. E é uma vergonha utilizar isso politicamente e de uma forma populista o lançamento de vacinas que ainda não estão suficientemente testadas. Aquilo que se espera é que demore menos tempo do que todas as outras. E felizmente a comunidade científica olha mais para os interesses do desenvolvimento científico e das pessoas do que alguns políticos.

E parece-lhe que deve ser obrigatória ou não?
Sou contra as vacinas serem obrigatórias. Isso cria anticorpos. E nós temos em Portugal uma taxa de vacinação que anda à volta de 97 ou 98%. Mas já no que respeita aos profissionais de saúde que trabalham na linha da frente, com os doentes, sou a favor da sua obrigatoriedade. Estou a falar da vacina contra a gripe, hepatite B, sarampo.

O que é que lhe faltou fazer na pediatria do CHL?
Tudo, do tamanho do mundo. Há muita coisa por fazer.

E enquanto cidadão? Uma das causas em que se envolveu foi a candidatura de Sampaio da Nóvoa à presidência, de quem foi mandatário distrital. Sentiu alguma vez que tinha apostado no candidato errado?
Não. Eu tinha uma imagem do outro candidato - Marcelo Rebelo de Sousa - muito populista.

E alterou essa imagem, depois de ele ser eleito, ou não?
Talvez tenha contribuído para conhecer melhor a personalidade do atual Presidente da República, que porém já tinha uma componente muito humana. Mas o professor Sampaio da Nóvoa que eu conhecia como pedagogo, prendeu-me a sua intelectualidade, a sua capacidade e o seu lado humano. E na verdade não podemos apostar todos no mesmo. Senão não havia democracia nem oposição.

Como é que se define ideologicamente?
Considero-me uma pessoa de esquerda.

É um socialista?
Sou próximo do socialismo, sim. Porque sou um republicano, próximo do pensamento socialista que defende a iniciativa privada. Um homem que continua ainda a influenciar a minha vida enquanto cidadão foi Mário Soares. Quem viveu o 25 de Abril e aqueles períodos conturbados sabe que lhe devemos estar muito agradecidos, porque foi ele que conseguiu levar o barco a bom porto. Em termos humanos, tenho outra referência - o pediatra António Torrado da Silva, também já desaparecido. Além disso, como sabe fui mandatário concelhio de José Sócrates. Não tenho vergonha nenhuma de o dizer. Até porque considero que o primeiro governo dele foi dos melhores - com uma visão de futuro do que podia ser a modernidade.

E descendo ao fim da rua, foi também presidente da assembleia de freguesia. Agora que se aposentou, é expectável que tenha mais tempo para esse lado cidadão e para a vida política?
É difícil. A minha vida profissional continua ainda a ser muito intensa. Continuo com a atividade privada (nunca estive em exclusividade, e não foi por isso que não dei prioridade à minha atividade pública) e tenho todas as outras responsabilidades. A diferença agora é que tenho mais tempo para exercer e para estudar. Digo sempre aos colegas que pensam que tiraram um diploma e isso basta... é por isso que sou defensor da recertificação dos médicos. Não é aceitável que as pessoas nunca mais olhem para um livro.

Há uns anos disse numa entrevista que os filhos não devem ser falsamente protegidos pelos pais. Agora que já é avô, pergunto-lhe: e pelos avós, devem?
Os avós é mais complicado... eu costumo dizer que os filhos estão emprestados aos pais. Porque os pais não têm direitos sobre os filhos. Têm o dever de garantir cuidados, acesso ao ensino, ter uma relação com eles. Mas muitas vezes tentam compensar as crianças com a pseudoproteção, que é dar-lhes tudo. Um dia tive uma criança que escreveu na carta ao pai natal a pedir que os pais lhe dissessem pelo menos uma vez "não". Os avós... julgo que pode ser salutar para eles e para as crianças estarem com eles pelo menos nos primeiros anos. Enriquecem os futuros adultos. Mesmo fazendo as vontades.

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