Tintin, um grande belga

Graças à ambição desmedida de Leopoldo II, que agiu a título individual, a pequena Bélgica acabou por se dotar, no final do século XIX, de um enorme império colonial, a atual República Democrática do Congo, também conhecida por ex-Zaire ou por antigo Congo Belga. E enquanto, até 1908, o território foi propriedade pessoal do monarca, sob o nome de Estado Livre do Congo, ganhou fama de exercer uma violência sobre as populações africanas que batia a de qualquer outra colónia detida por europeus. O lucro era o objetivo, e quase tudo valia para se maximizar esse lucro, como afirma o americano Robert Harms, autor do agora publicado em Portugal Terra de Lágrimas, uma história da colonização da África Equatorial, em grande medida o tal Estado Livre do Congo.

Entrevistei Harms na mesma semana em que em Lisboa aconteceu a inauguração de uma exposição dedicada a Tintin. Eternamente jovem, irreverente e corajoso, o jornalista criado por Hergé continua a convencer geração após geração: veja-se as vendas dos livros, o sucesso dos filmes e até mesmo a popularidade da memorabilia, comprada em Bruxelas ou mundo fora numa qualquer livraria especializada em BD. Ora, Tintin no Congo, segundo livro da série, já chegou a ser criticado por infantilizar os africanos, e Hergé foi acusado de ser racista, o que acabou por ser resolvido por um tribunal belga, que se pronunciou contra a proibição de reeditar o título e enquadrou o autor na sua época - 1931 foi o ano da primeira edição. Triunfou o bom senso, foi a conclusão então, de alívio, e felizmente Tintin pode continuar a ser apreciado em toda a sua genialidade. Que o diga a Gulbenkian, que tem já bilhetes esgotados para alguns dos próximos dias. Portugal, onde Tintin teve a primeira tradução, é um país rendido ao repórter de poupa loira.

Uma palavra para a pátria de Leopoldo II e de Tintin, perdão, de Hergé, essa Bélgica que por vezes parece tão frágil, ameaçada pelo secessionismo flamengo, mas que é um país pujante, seja pela economia, seja pela cultura, e que empresta à Europa a sua capital como capital também do continente. Com uma população semelhante à portuguesa, mas num terço do território, está hoje nas 25 maiores economias do mundo e dentro do grupo dos 15 países com maior índice de desenvolvimento humano, segundo as estatísticas das Nações Unidas.

Constituída por valões, de língua francesa, flamengos, que falam neerlandês, e ainda uma pequena comunidade de língua alemã, a Bélgica moderna nasceu na primeira metade do século XIX, mas a sua história é bem mais antiga, com os próprios romanos a identificarem os habitantes como diferentes dos gauleses, a sul. Por ironia, dois mil anos depois nem sempre essa diferença é percebida, a ponto de um grande nome da chamada chanson française ser Jacques Brel, belga nascido em Schaerbeek, na região de Bruxelas.

Hergé, de seu verdadeiro nome Georges Remi, conseguiu que Tintin fosse sempre reconhecido como belga. E ele próprio, de pai valão e mãe flamenga, encarna muito bem a belgicidade que seria uma pena acabasse vítima do nacionalismo dos ricos.

Um dia escrevi um artigo com o título "A rainha heroína dos belgas filha de uma portuguesa". Tratava da história de Isabel da Baviera, bisavó do atual rei Filipe, uma monarca que resistiu à invasão alemã na Primeira Guerra Mundial e salvou judeus na Segunda. O avô dela era D. Miguel, a mãe D. Maria José de Bragança. Hoje realço antes o marido de Isabel, o rei Alberto I, pelo que fez pelo seu país em 1914: recusou o ultimato alemão para deixar passar as tropas que invadiriam a França contornando as defesas gaulesas; depois de violada a neutralidade do seu país, encabeçou a resistência e permaneceu numa parcela de território nunca tomada pelo inimigo; figurou entre os vencedores quando a Primeira Guerra Mundial terminou, em 1918.

Alberto I era sobrinho de Leopoldo II e deu uma nova aura à coroa e à Bélgica. Morreu em 1934, ano da edição de Os Charutos do Faraó, o quarto álbum de Tintin, onde surge o nosso Oliveira da Figueira.

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