A paz de Freitas do Amaral perante a morte em breve

Um dia antes do lançamento do seu último volume de memórias, Freitas do Amaral deu uma entrevista ao DN. A última. Por publicar ficou a confissão de que estava consciente de que ia morrer muito em breve.

A publicação de três livros biográficos era uma das preocupações de Diogo Freitas do Amaral. Se os dois primeiros foram escritos há algum tempo e apresentados em paz, o terceiro - Mais 35 Anos de democracia, Um Percurso Singular - Memórias Políticas (1982-2017) - diz respeito a um tempo diferente para o fundador do CDS. Não queria morrer sem deixar o registo de uma vida e trabalhou uma hora por dia nos últimos capítulos porque a doença de que sofria mais não lhe permitia.

Neste último volume das suas memórias é muito claro ao dizer que o ano que passou em Nova Iorque nas Nações Unidas foi do melhor que levava da vida, pelo que viu e ouviu na capital do mundo. Também deixou claro o que o entristeceu na vidinha portuguesa, designadamente o esquecimento de que foi vítima após certas decisões que tomou.

Entre o que lamentava, disse na sua última entrevista, ao DN, um dia antes do lançamento deste último bloco de memórias, era o de não ter tempo para escrever sobre a sua atividade docente. Queria contar coisas que não deveriam ficar esquecidas, mas já não o iria fazer. Perguntei-lhe o porquê ao minuto 3 da conversa e o sangue gelou-se-me porque disse de uma forma simples e calma que ia morrer em breve. Ao longo de muitas centenas de entrevistas ninguém me fizera uma afirmação tão direta e sem rodeios como esta. O que fazer, perguntar o porquê, claro. Mas como o fazer sem ser indelicado após tantas entrevistas que fizéramos nos últimos vinte anos?

Nada foi preciso dizer, pois explicou o que se passava com o seu estado de saúde e revelou que lhe restavam dias. Hoje, confirmou-se a sua previsão.

O que foi dito entre o minuto 3 e o minuto 5 não foi incluído na entrevista publicada no dia do lançamento, 27 de junho, do livro no CCB. Não sei se Freitas do Amaral o teria desejado revelar - não o proibiu - ou se apenas fora sincero para quem o escutara tantas vezes, a primeira numa sala do Grémio Literário, mas como era uma afirmação de uma tão grande frieza decidi deixar essa declaração fechada no gravador. Para surpresa minha, no final de quase uma hora deixou combinado uma outra conversa para se tratar desse tema do ensino e de outros que desejava. "Ligue-me dia tal..." foi o que pediu. Ainda adiou para duas novas datas, mas já não houve tempo.

Os seus três livros de memórias são dominados pela visão própria de uma vida política - e cultural, ao contrário da maioria dos políticos que nos têm governado -, e possuem informações para se reescrever a História dos últimos 45 anos. Para que o resto da História não ficasse esquecida, publicara há poucos anos uma História de Portugal, Da Lusitânia a Portugal - Dois Mil Anos de História -, bem como uma biografia de Afonso Henriques. No entanto, para se compreender as suas mudanças políticas, o melhor trabalho que escreveu foi História do Pensamento Político Ocidental. 774 páginas esclarecedoras sobre o que conduz um homem que pensa ao que alguns chamam de ziguezagues.

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